sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Dama do cachorrinho - Anton P. Tchekhov


"Passaria um mês,mais ou menos,e Ana Sierguéievna,tinha a impressão,cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e somente de raro ia aparecer-lhe em sonho, com seu tocante sorriso,tal como outras apareciam.No entanto, decorreu mais de um mês chegaram os rigores do inverno,mas tudo permanecia nítido na memória,como se a separação de Ana Sierguéievna tivesse sido na véspera.E as recordações tornavam-se cada vez mais intensas.Quer lhe chegassem ao escritório, em meio à quietude do anoitecer, as vozes das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um órgão ou uma canção no restaurante, o vento soprasse na lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o que sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela névoa sobre as montanhas, o navio chegando de Feodóssia,os beijos.Passava muito tempo caminhando pelo quarto e recordando,sorria e, depois, as lembranças transformavam-se,em sua imaginação,ao que viria ainda.Não sonhava mais com Ana Sierguéievna, ela o acompanhava por toda parte,como uma sombra , e vigiava-o.Fechando os olhos,via-a e ela parecia mais bonita,mais jovem,mais terna do que fora realmente; e ele próprio aparecia melhor do que tinha sido naqueles dias de Ialta. Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro do armário de livros,da lareira, do canto da sala, ele ouvia sua respiração,o frufru carinhoso de suas roupas.Na rua, acompanhava mulheres com o olhar,procurando alguma que a ela se assemelhasse..."


( A Dama do Cachorrinho e outros contos - Anton P. Tchekhov )

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