domingo, 14 de março de 2021

O MUSEU DA INOCÊNCIA - ORHAN PAMUK

 


" Era o momento mais feliz da minha vida, mas eu não sabia. Se soubesse. se tivesse dado o devido valor a essa dádiva, tudo teria acontecido de outra maneira ? Sim, se eu tivesse reconhecido aquele momento de felicidade perfeita, teria agarrado com força e nunca deixaria que me escapasse. Levou alguns segundos, talvez, para aquele estado luminoso tomar conta de mim, mergulhando-me na paz mais profunda, mas ele me pareceu ter durado horas, até mesmo anos. Naquele momento, na tarde de segunda-feira, 26 de maio de 1975, em torno das quinze para as três, assim como nos sentíamos além do pecado e da culpa, o mundo todo parecia ter sido liberado da gravidade e do tempo. Beijando o ombro de Füsun, já úmido com o aquecimento do nosso amor, eu a penetrei delicadamente por trás, e enquanto mordia de leve sua orelha , seu brinco deve ter se soltado e, pelo que nos pareceu, pairado em pleno ar antes de cair por vontade própria. Nosso prazer era tão profundo que continuamos a nos beijar, ignorando a queda do brinco, cuja forma eu nem sequer tinha percebido."



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

TODAS AS CORES DO CÉU - AMITA TRASI


"Quando o táxi parou, Tara abriu a porta para um mundo que eu nunca vira antes. Era a Biblioteca Asiática, explicou ela. Eu não sabia o que era uma biblioteca, mas, quando vi aquela estrutura e os vários degraus que levavam até ela, entendi que se tratava de um templo - um templo para livros. Aquela presença era muito imponente, com a tinta branca refletindo ao sol. Fiquei parada ao pé da escadaria, observando aquela estrutura diante de mim, estupefata com a peça que meus olhos pregavam. Tara segurou minha mão e me conduziu escada acima. Seu repentino toque, seu calor sem qualquer aviso, me surpreendeu.

O cheiro lá dentro era de mofo, mas não me importei. Idosos se debruçavam sobre jornais locais, e uma escadaria em espiral levava a mais livros. Eu me fazia perguntas enquanto olhava para aqueles livros, tentando distribuir um tesouro de experiências. Como eu desejava juntar aqueles pensamentos para mim! Abri um livro e acariciei as letras das páginas, perguntando-me sobre a força daquelas palavras que havia feito com que construíssem um templo para elas.

Não prestei muita atenção quando Sahib apontou para as estátuas de mármore, explicando cada uma delas para Tara, contando sobre a moeda rara de outro que pertencia ao imperador Akbar. Um profundo desejo de ser capaz de ler brotou no meu coração, exatamente como naquele dia em que Amma e eu caminhamos pela aldeia e ela me mostrou a escola pela primeira vez. Eu não conseguia acreditar que tinha permissão de ver um lugar tão grandioso quanto aquele."