segunda-feira, 4 de setembro de 2017

1Q84 - HARUKI MURAKAMI

"1Q84 - É assim que vou chamar esse mundo novo", decidiu Aomame. "Com a letra Q", de Question mark ; um "quê" de dúvida, de interrogação".

Enquanto caminhava, balançava a cabeça como se reafirmasse a sua decisão.
Querendo ou não, ela agora se encontrava nesse "1Q84". O ano e 1984 que ela conhecia deixara de existir . Agora estava em 1Q84. Houve uma mudança no ar, uma mudança no cenário. Precisava se adaptar o mais rápido possível às regras desse mundo novo com esse quê de interrogação . Precisava agir como um animal solto numa floresta desconhecida: para se proteger e conseguir sobreviver, tinha de conhecer o quanto antes o local, e se adaptar rapidamente às novas regras."


domingo, 20 de agosto de 2017

ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO - HARUKI MURAKAMI


"Para manter essa determinação por muito tempo, torna-se essencial pensar na qualidade de vida. Primeiro, é importante viver de forma completa. E viver de forma completa é fortalecer o corpo, que é a armação que contém a alma, e fazê-lo avançar de forma contínua,  passo a passo. Viver é 
(muitas vezes) uma guerra cansativa e sem fim.
A meu ver , é praticamente impossível , na prática , manter-se somente com determinação ou uma alma firme e positiva, deixando de lado o avanço do corpo carnal. A vida não é tão fácil assim. Se as coisas penderem para um dos lados , cedo ou tarde haverá uma reação contrária, e as pessoas sofrerão as consequências. A balança que pende para um dos lados sempre tende a voltar ao equilíbrio. As forças física e espiritual são como os pneus de um carro. Suas forças trabalham de forma equilibrada quando a direção e a pressão certa são aplicadas."



quarta-feira, 19 de julho de 2017

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS - ARUNDHATI ROY


"Não importava que a história já tivesse começado , porque o kathakali descobriu há muito que o segredo das Grandes Histórias é que elas não tem segredos. As Grandes Histórias são aquelas que você ouviu e quer ouvir de novo.Aquelas em que você pode entrar por qualquer parte e habitar confortavelmente . Elas não enganam você com truques e finais emocionantes. Elas não surpreendem você com o imprevisível . Elas são tão familiares como a casa em que se vive. Ou como o cheiro da pele do amante. Você sabe como elas terminam,mas,mesmo assim, você escuta como se não soubesse.Da mesma forma que apesar de saber que um dia vai morrer, você vive como se não fosse.
Nas Grandes Histórias você sabe quem vive,quem morre,quem encontra o amor, quem não encontra. E, mesmo assim, você quer ouvir de novo."



sábado, 15 de abril de 2017

Anatomia de um instante - Javier Cercas


"Nenhum personagem real se torna fictício por aparecer na televisão nem por ser um personagem eminentemente televiso, mas é muito provável que a televisão polua de irrealidade tudo o que toca, e que a retransmissão de um acontecimento histórico pela televisão altere de alguma forma a natureza deste, pois a tevê distorce o modo como o percebemos ( se é que não banaliza ou degrada)."


quarta-feira, 8 de março de 2017

Penumbras - Uwe Timm











"Também a sepultura de Marga havia sido revolvida por granadas nas batalhas de 1945, a lápide fora estilhaçada. Mas eu sabia onde podia encontrá-la, disse o cinzento. Aqui. E assim pude investigar sua história.

No dia 30 de maio, quatro horas da tarde, o médico das forças francesas encaminhou a autópsia oficial em minha presença. O cadáver estava bem conservado, a entrada e a saída dos tiros podiam ser claramente reconhecidas. A entrada de ambos era envolvida por uma borda de pólvora enegrecida e mostrava diâmetro de 9mm.
Com a inserção de sondas, os canais abertos pelos tiros foram claramente demonstrados. O indicador direito mostrava uma região de sangue coagulado. De resto, o corpo não tinha nenhum tipo de ferimento. O rosto mostrava uma expressão calma e tranquila. O cadáver ainda estava vestido nas roupas de piloto, com as quais a Srta. von Etzdorf havia entrado em seu quarto. Uma vez que as circunstâncias eram claras, eu dispensei a abertura do crânio.

(...)

Ela queria ser a primeira. Ela queria ir para lugares onde nenhum homem havia estado antes. Onde havia algo a descobrir, algo que ainda não havia sido investigado centenas de vezes. O novo, em que a gente se descobre de novo.Onde ela mesma se descobriria, correndo riscos e passando por necessidades, para assim mergulhar em seu interior como jamais fizera antes, penetrar no estranho, no estranho total, justamente através do susto e do espanto. Isso, diz o cinzento, é o que eu admiro nessa mulher."

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

UM OUTRO AMOR - KARL OVE KNASGARD


"Na manhã seguinte voltei ao Lasse i Parken. Coloquei um bloco de anotações em cima da mesa e comecei a escrever uma carta para Linda. Escrevi a respeito de quem ela era para mim. Escrevi a respeito de quem ela tinha sido para mim quando a vi pela primeira vez, e a respeito de quem era agora. Escrevi a respeito dos lábios dela, que deslizavam para cima dos dentes quando ela se empolgava, escrevi a respeito dos olhos dela, que cintilavam e revelavam uma escuridão e por assim dizer tragavam a luz para dentro de si. Escrevi a respeito da maneira como ela andava, a respeito dos movimentos discretos e dignos de uma modelo que ela fazia com o traseiro. Escrevi a respeito das feições discretas e japonesas. Escrevi a respeito da risada que às vezes tomava conta dela  e a respeito do quanto eu a amava nesses instantes. Escrevi a respeito das palavras que ela usava com frequência , a respeito de como eu amava o jeito que ela tinha de dizer estrelas e de espalhar a palavra "incrível" ao redor. Escrevi que todas essas coisas eram apenas o que eu tinha visto, e que eu mal conhecia, não tinha a menor ideia a respeito do que ela pensava e sabia pouco sobre a maneira como via o mundo e as outras pessoas, mas que o que tinha visto era suficiente, eu sabia que a amava e que sempre haveria de amá-la".

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Expurgo - SOFI OKSANEN


"Mais tarde Aliide ouviu histórias de campos cobertos de dolomita e trens cheios de crianças chorosas sendo evacuadas, soldados tirando as famílias de suas casas e estranhos flocos que caíam , estranhamente brilhantes , cobrindo os jardins. As crianças tentavam tocá-los ainda no ar, as menininhas queriam usá-los de enfeite nos cabelos, mas os flocos logo desapareciam, assim como os cabelos delas. Um dia a senhora Prik agarrou Aliide pelo braço no mercado e sussurrou-lhe ao ouvido: ainda bem que o meu filho quebrou a perna. Ainda bem que ele soube fazer isso. Disse que os amigos do filho, os que haviam sido convocados, tinham contado o que acontecera lá, e não estavam nem um pouco contentes com o alto pagamento que receberam em Chernobyl, temendo sofrer os efeitos da radiação. Tinham visto pessoas inchadas a ponto de ficarem irreconhecíveis. Pessoas lamentando a perda de seu lar, fazendeiros voltando secretamente para trabalhar nos campos na zona proibida. Casas esvaziadas e saqueadas, os bens vendidos no mercado da praça , motocicletas e casacos de lã da Crimeia. Haviam matado cães e gatos, e enchido intermináveis valas com seus corpos. O fedor de carne apodrecida, de casas, árvores e terra queimada, as camadas de terra varridas, cebolas, repolhos e arbustos transformados em caroços. As pessoas se perguntavam se era o fim do mundo, uma guerra, ou ambos? Contra quem estavam lutando, e quem venceria? Velhas senhoras se persignavam sem parar, tomando incontáveis litros de vodca ou aguardente caseira.
E, acima de tudo, a senhora Prik ressaltou que um rapaz dizia a quem estava partindo: nunca contem a ninguém sobre Chernobyl, porque qualquer mulher ou homem vai lhes dar um pé na bunda depois disso. Nunca contem a ninguém, porque ninguém vai querer filhos com vocês. A senhora Prik disse que o filho dela tinha um amigo cuja esposa terminara o casamento e fora embora com as crianças porque não queria que ele as tocasse e as contaminasse. Outro dos homens de Chernobyl foi deixado pela mulher depois que ela começou a ter pesadelos, sonhando com bezerros de três cabeças nascendo um após o outro, gatos com escamas em vez de pelos, porcos sem pernas. Não conseguia mais suportar aqueles pesadelos e não suportava ficar perto do marido, por isso partiu em busca de um homem mais saudável.
Ouvindo sobre aquelas mulheres que tinham se livrado dos maridos como se fossem lixo, Aliide ficou assustada, o susto se transformou em tremor, e ela começou a olhar com novos olhos os jovens que encontrava pelas ruas, procurando os que tinham retornado e reconhecendo neles algo familiar. Dava para ver neles um olhar sobre o qual pairava uma sombra, e ela tinha vontade de colocar as mãos na bochechas deles, de tocá-los.


Martin Truu acabou desfalecendo no jardim enquanto examinava com uma lupa uma folha de bétula. Quando Aliide encontrou o marido e virou seu corpo para o céu, viu a última expressão que ele tinha no rosto. Era a primeira vez que ela o via surpreso.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

submissão - michael houellebecq


"O ponto de vista do budismo é que o mundo é dukkha - inadequação, sofrimento. O próprio cristianismo manifesta sérias reservas - Satanás não é qualificado como "príncipe deste mundo"? Para o islã, ao contrário, a criação divina é perfeita, é uma obra-prima completa. No fundo, o que é o Alcorão senão um imenso poema místico de louvação? De louvação ao Criador e de submissão às suas leis. Em geral não aconselho às pessoas que desejam se aproximar do islã começarem pela leitura do Alcorão, a não ser, é claro, se quiserem fazer o esforço de aprender árabe e mergulharem no texto original. Aconselho-as, em vez disso, a escutar a leitura das suratas, repeti-las, sentir sua respiração e seu alento. O islã é, afinal, a única religião que proibiu qualquer tradução no uso litúrgico; porque o Alcorão é inteiramente composto de ritmos, e rimas, de refrões, de assonâncias. Repousa nesta ideia, na ideia de base da poesia, de uma união da sonoridade com o sentido, que permite expressar o mundo."


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

MINHA LUTA 4 - UMA TEMPORADA NO ESCURO - KARL OVE KNAUSGARD


"Não vivemos nossa vida sozinhos, mas isso não quer dizer que vejamos as pessoas com quem vivemos. Quando meu pai se mudou para o norte da Noruega e deixou de ser para mim uma presença física, com um corpo e uma voz, um temperamento e um olhar, de certo modo ele sumiu da minha vida, no sentido de que foi reduzido a uma espécie de desconforto com o qual eu por vezes me defrontava, por exemplo quando ele me ligava ou alguma coisa fazia pensar nele, uma espécie de campo em mim que podia ser ativado, e nesse campo estavam todos os sentimentos que eu tinha em relação a ele, mas não ele próprio.
 Tempos depois eu li nos cadernos de anotações dele a respeito do Natal em que ele havia ligado das Ilhas Canárias e das semanas que se seguiram.
  Nesses cadernos o meu pai aparece como ele próprio, no meio da própria vida, e talvez por isso essa leitura seja tão dolorosa para mim, porque ele não apenas é muito mais do que os sentimentos que eu tinha em relação a ele, mas infinitamente mais, uma pessoa viva e completa no meio da vida".


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

aos 7 e aos 40 - João Anzanello Carrascoza


"Naquela época, eu estava aprendendo a ler e a escrever e me encantava descobrir  como uma letra se abraçava a outra para formar uma palavra, e como as palavras, úmidas de tinta, ganhavam um novo rosto, quando escritas no papel. Pra mim, as letras nasciam encaracoladas como gavinhas e, na hora de abrir a cartilha e juntá-las, eu sempre gaguejava, rasurando o silêncio.
Meu irmão, mais avançado no mundo da leitura, ria às soltas, zombando dos meus erros. Uma tarde, ao ouvi-lo caçoar de mim, minha mãe o lembrou as dificuldades que ele tivera e disse, Você também errava muito! e afirmou que aquele bê-á-bá era apenas o começo, um dia eu e ele iríamos ler não só as palavras, mas tudo ao nosso redor, inclusive as pessoas."