terça-feira, 15 de janeiro de 2019

FORMAS DE VOLTAR PARA CASA - ALEJANDRO ZAMBRA




"Na época não sabíamos os nomes das árvores ou dos pássaros. Não era necessário. Vivíamos com poucas palavras e era possível responder a todas as perguntas dizendo: não sei. Não achávamos que isso fosse ignorância. Chamávamos de honestidade. Depois aprendemos , pouco a pouco, os matizes. Os nomes das árvores, dos pássaros, dos rios. E decidimos que qualquer frase era melhor que o silêncio".

domingo, 26 de agosto de 2018

LONGE DA ÁGUA - MICHEL LAUB



"O que eu sentia naquela época, muita gente estaria pronta para dizer, é coisa da idade. O que eu sentia em relação a Jaime, muita gente ficaria aliviada em dizer, faz parte de qualquer formação. Não há ninguém que escape disso, sempre há uma primeira vez, o dia em que sua vida toma rumos inesperados por causa de outra pessoa, em que os sentidos passam a ser outros, em que toma um caminho sem volta , mesmo que seja um caminho torto , na qual a amizade se transforma em desconforto , e a admiração se transforma em inveja, e o resto do que está dentro de você se transforma em rancor e em ódio e vingança. Não é fácil admitir, há entraves de toda ordem para que você aceite nomear com todas as letras o que está na sua frente, como estava na minha frente quando Jaime me olhou: era como se naquele momento ele soubesse, como se por intuição ele adivinhasse o que significaria depender de mim ali, no mar de Albatroz."


segunda-feira, 21 de maio de 2018

LEONARDO DA VINCI - WALTER ISAACSON




"Ao longo da carreira, Leonardo se aprofundou nos estudos sobre óptica, luz e sombra. Em um trecho de caderno, ele fez uma análise que bate perfeitamente com a forma como fez a luz banhar o rosto de Lisa:

"Quando for pintar um retrato, faça-o quando o tempo estiver encoberto ou no final do dia. Preste atenção nas ruas no final do dia e quando o tempo está encoberto e perceba quanta beleza pode haver no rosto de homens e mulheres."


sábado, 30 de dezembro de 2017

A MORTE DO PAI - KARL OVE KNAUSGARD


"Quando sua perspectiva de mundo se amplia, não mitiga a dor que acarreta, mas também o sentido dessa dor. Compreender o mundo requer que se mantenha uma certa distância dele. Ampliamos aquilo que é pequeno demais para ser visto a olho nu, como moléculas e átomos, enquanto minimizamos grandezas como formações de nuvens , deltas de rios, constelações.Somente ao trazer as coisas para a dimensão dos nossos sentidos é que somos capazes de fixá-las . E a essa fixação chamamos conhecimento. Ao longo de toda a infância e juventude lutamos para manter a distância adequada das coisas e dos fenômenos . Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. E aí um dia chegamos ao ponto em que todas as distâncias de que necessitamos foram determinadas, todos os sistemas de que necessitamos foram estabelecidos. É quando o tempo começa a passar mais rápido. Ele não encontra mais obstáculos, tudo está determinado, o tempo se esvai pela nossa vida, a vida passa num piscar de olhos,e, antes que nos demos conta do que está acontecendo, completamos quarenta, cinquenta,sessenta anos...Sentido requer conteúdo, conteúdo requer tempo, tempo requer resistência. Conhecimento é distância, conhecimento é deixar-se estar e é inimigo do sentido. A imagem que tenho do meu pai naquele entardecer de 1976 é, em outras palavras, dupla: por um lado, vejo-o como o vi daquela vez, com os olhos de um menino de oito anos: imprevisível e assustador, por outro lado o vejo como a um igual, cujo tempo de vida está sendo arrancado em grandes nacos, que carregam com eles o sentido da existência."



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

1Q84 LIVRO 3 - HARUKI MURAKAMI


"Ao desligar o telefone, Ushikawa debruçou-se sobre a mesa e parou para refletir. Ele desconhecia os métodos que Morcego utilizava para obter informações . Ele sabia que essa era uma pergunta que não teria resposta. Em todo caso, era de supor que lançasse mão de métodos ilegais. Possivelmente subornava funcionários ou, em último caso, apelava para a invasão. Se a investigação envolver a necessidade de acessar computadores, a situação se torna ainda mais complexa.
Ainda são poucas as repartições públicas e empresas privadas que utilizam o computador para armazenar dados. É caro e trabalhoso. Mas as organizações religiosas que atuam em nível nacional certamente possuem recursos para implantá-los. Ushikawa não sabe quase nada de computadores, mas está ciente de que estão se tornando ferramentas imprescindíveis para armazenar informações. Frequentar a Biblioteca Nacional da Dieta e ficar o dia inteiro procurando informações em microfilmes de jornais e anuários será coisa do passado. O mundo se tornará um sangrento campo de batalha entre o gerente de computação e o hacker. Não. O termo correto não é exatamente sangrento . Apesar de, no campo de batalha, sempre se derramar um pouco de sangue. Mas, nesse caso, o sangue não tem cheiro. Um mundo estranho. Ushikawa preferia um mundo em que a existência de cheiros e da dor fossem perceptíveis. Ainda que, em determinadas situações , elas se tornem insuportáveis. Mas um tipo como Ushikawa , sem dúvida, muito em breve se tornaria obsoleto."




1984 e a previsão do futuro. :)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

1Q84 - HARUKI MURAKAMI

"1Q84 - É assim que vou chamar esse mundo novo", decidiu Aomame. "Com a letra Q", de Question mark ; um "quê" de dúvida, de interrogação".

Enquanto caminhava, balançava a cabeça como se reafirmasse a sua decisão.
Querendo ou não, ela agora se encontrava nesse "1Q84". O ano e 1984 que ela conhecia deixara de existir . Agora estava em 1Q84. Houve uma mudança no ar, uma mudança no cenário. Precisava se adaptar o mais rápido possível às regras desse mundo novo com esse quê de interrogação . Precisava agir como um animal solto numa floresta desconhecida: para se proteger e conseguir sobreviver, tinha de conhecer o quanto antes o local, e se adaptar rapidamente às novas regras."


domingo, 20 de agosto de 2017

ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO - HARUKI MURAKAMI


"Para manter essa determinação por muito tempo, torna-se essencial pensar na qualidade de vida. Primeiro, é importante viver de forma completa. E viver de forma completa é fortalecer o corpo, que é a armação que contém a alma, e fazê-lo avançar de forma contínua,  passo a passo. Viver é 
(muitas vezes) uma guerra cansativa e sem fim.
A meu ver , é praticamente impossível , na prática , manter-se somente com determinação ou uma alma firme e positiva, deixando de lado o avanço do corpo carnal. A vida não é tão fácil assim. Se as coisas penderem para um dos lados , cedo ou tarde haverá uma reação contrária, e as pessoas sofrerão as consequências. A balança que pende para um dos lados sempre tende a voltar ao equilíbrio. As forças física e espiritual são como os pneus de um carro. Suas forças trabalham de forma equilibrada quando a direção e a pressão certa são aplicadas."



quarta-feira, 19 de julho de 2017

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS - ARUNDHATI ROY


"Não importava que a história já tivesse começado , porque o kathakali descobriu há muito que o segredo das Grandes Histórias é que elas não tem segredos. As Grandes Histórias são aquelas que você ouviu e quer ouvir de novo.Aquelas em que você pode entrar por qualquer parte e habitar confortavelmente . Elas não enganam você com truques e finais emocionantes. Elas não surpreendem você com o imprevisível . Elas são tão familiares como a casa em que se vive. Ou como o cheiro da pele do amante. Você sabe como elas terminam,mas,mesmo assim, você escuta como se não soubesse.Da mesma forma que apesar de saber que um dia vai morrer, você vive como se não fosse.
Nas Grandes Histórias você sabe quem vive,quem morre,quem encontra o amor, quem não encontra. E, mesmo assim, você quer ouvir de novo."



sábado, 15 de abril de 2017

Anatomia de um instante - Javier Cercas


"Nenhum personagem real se torna fictício por aparecer na televisão nem por ser um personagem eminentemente televiso, mas é muito provável que a televisão polua de irrealidade tudo o que toca, e que a retransmissão de um acontecimento histórico pela televisão altere de alguma forma a natureza deste, pois a tevê distorce o modo como o percebemos ( se é que não banaliza ou degrada)."


quarta-feira, 8 de março de 2017

Penumbras - Uwe Timm











"Também a sepultura de Marga havia sido revolvida por granadas nas batalhas de 1945, a lápide fora estilhaçada. Mas eu sabia onde podia encontrá-la, disse o cinzento. Aqui. E assim pude investigar sua história.

No dia 30 de maio, quatro horas da tarde, o médico das forças francesas encaminhou a autópsia oficial em minha presença. O cadáver estava bem conservado, a entrada e a saída dos tiros podiam ser claramente reconhecidas. A entrada de ambos era envolvida por uma borda de pólvora enegrecida e mostrava diâmetro de 9mm.
Com a inserção de sondas, os canais abertos pelos tiros foram claramente demonstrados. O indicador direito mostrava uma região de sangue coagulado. De resto, o corpo não tinha nenhum tipo de ferimento. O rosto mostrava uma expressão calma e tranquila. O cadáver ainda estava vestido nas roupas de piloto, com as quais a Srta. von Etzdorf havia entrado em seu quarto. Uma vez que as circunstâncias eram claras, eu dispensei a abertura do crânio.

(...)

Ela queria ser a primeira. Ela queria ir para lugares onde nenhum homem havia estado antes. Onde havia algo a descobrir, algo que ainda não havia sido investigado centenas de vezes. O novo, em que a gente se descobre de novo.Onde ela mesma se descobriria, correndo riscos e passando por necessidades, para assim mergulhar em seu interior como jamais fizera antes, penetrar no estranho, no estranho total, justamente através do susto e do espanto. Isso, diz o cinzento, é o que eu admiro nessa mulher."