sábado, 15 de abril de 2017

Anatomia de um instante - Javier Cercas


"Nenhum personagem real se torna fictício por aparecer na televisão nem por ser um personagem eminentemente televiso, mas é muito provável que a televisão polua de irrealidade tudo o que toca, e que a retransmissão de um acontecimento histórico pela televisão altere de alguma forma a natureza deste, pois a tevê distorce o modo como o percebemos ( se é que não banaliza ou degrada)."


quarta-feira, 8 de março de 2017

Penumbras - Uwe Timm











"Também a sepultura de Marga havia sido revolvida por granadas nas batalhas de 1945, a lápide fora estilhaçada. Mas eu sabia onde podia encontrá-la, disse o cinzento. Aqui. E assim pude investigar sua história.

No dia 30 de maio, quatro horas da tarde, o médico das forças francesas encaminhou a autópsia oficial em minha presença. O cadáver estava bem conservado, a entrada e a saída dos tiros podiam ser claramente reconhecidas. A entrada de ambos era envolvida por uma borda de pólvora enegrecida e mostrava diâmetro de 9mm.
Com a inserção de sondas, os canais abertos pelos tiros foram claramente demonstrados. O indicador direito mostrava uma região de sangue coagulado. De resto, o corpo não tinha nenhum tipo de ferimento. O rosto mostrava uma expressão calma e tranquila. O cadáver ainda estava vestido nas roupas de piloto, com as quais a Srta. von Etzdorf havia entrado em seu quarto. Uma vez que as circunstâncias eram claras, eu dispensei a abertura do crânio.

(...)

Ela queria ser a primeira. Ela queria ir para lugares onde nenhum homem havia estado antes. Onde havia algo a descobrir, algo que ainda não havia sido investigado centenas de vezes. O novo, em que a gente se descobre de novo.Onde ela mesma se descobriria, correndo riscos e passando por necessidades, para assim mergulhar em seu interior como jamais fizera antes, penetrar no estranho, no estranho total, justamente através do susto e do espanto. Isso, diz o cinzento, é o que eu admiro nessa mulher."

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

UM OUTRO AMOR - KARL OVE KNASGARD


"Na manhã seguinte voltei ao Lasse i Parken. Coloquei um bloco de anotações em cima da mesa e comecei a escrever uma carta para Linda. Escrevi a respeito de quem ela era para mim. Escrevi a respeito de quem ela tinha sido para mim quando a vi pela primeira vez, e a respeito de quem era agora. Escrevi a respeito dos lábios dela, que deslizavam para cima dos dentes quando ela se empolgava, escrevi a respeito dos olhos dela, que cintilavam e revelavam uma escuridão e por assim dizer tragavam a luz para dentro de si. Escrevi a respeito da maneira como ela andava, a respeito dos movimentos discretos e dignos de uma modelo que ela fazia com o traseiro. Escrevi a respeito das feições discretas e japonesas. Escrevi a respeito da risada que às vezes tomava conta dela  e a respeito do quanto eu a amava nesses instantes. Escrevi a respeito das palavras que ela usava com frequência , a respeito de como eu amava o jeito que ela tinha de dizer estrelas e de espalhar a palavra "incrível" ao redor. Escrevi que todas essas coisas eram apenas o que eu tinha visto, e que eu mal conhecia, não tinha a menor ideia a respeito do que ela pensava e sabia pouco sobre a maneira como via o mundo e as outras pessoas, mas que o que tinha visto era suficiente, eu sabia que a amava e que sempre haveria de amá-la".

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Expurgo - SOFI OKSANEN


"Mais tarde Aliide ouviu histórias de campos cobertos de dolomita e trens cheios de crianças chorosas sendo evacuadas, soldados tirando as famílias de suas casas e estranhos flocos que caíam , estranhamente brilhantes , cobrindo os jardins. As crianças tentavam tocá-los ainda no ar, as menininhas queriam usá-los de enfeite nos cabelos, mas os flocos logo desapareciam, assim como os cabelos delas. Um dia a senhora Prik agarrou Aliide pelo braço no mercado e sussurrou-lhe ao ouvido: ainda bem que o meu filho quebrou a perna. Ainda bem que ele soube fazer isso. Disse que os amigos do filho, os que haviam sido convocados, tinham contado o que acontecera lá, e não estavam nem um pouco contentes com o alto pagamento que receberam em Chernobyl, temendo sofrer os efeitos da radiação. Tinham visto pessoas inchadas a ponto de ficarem irreconhecíveis. Pessoas lamentando a perda de seu lar, fazendeiros voltando secretamente para trabalhar nos campos na zona proibida. Casas esvaziadas e saqueadas, os bens vendidos no mercado da praça , motocicletas e casacos de lã da Crimeia. Haviam matado cães e gatos, e enchido intermináveis valas com seus corpos. O fedor de carne apodrecida, de casas, árvores e terra queimada, as camadas de terra varridas, cebolas, repolhos e arbustos transformados em caroços. As pessoas se perguntavam se era o fim do mundo, uma guerra, ou ambos? Contra quem estavam lutando, e quem venceria? Velhas senhoras se persignavam sem parar, tomando incontáveis litros de vodca ou aguardente caseira.
E, acima de tudo, a senhora Prik ressaltou que um rapaz dizia a quem estava partindo: nunca contem a ninguém sobre Chernobyl, porque qualquer mulher ou homem vai lhes dar um pé na bunda depois disso. Nunca contem a ninguém, porque ninguém vai querer filhos com vocês. A senhora Prik disse que o filho dela tinha um amigo cuja esposa terminara o casamento e fora embora com as crianças porque não queria que ele as tocasse e as contaminasse. Outro dos homens de Chernobyl foi deixado pela mulher depois que ela começou a ter pesadelos, sonhando com bezerros de três cabeças nascendo um após o outro, gatos com escamas em vez de pelos, porcos sem pernas. Não conseguia mais suportar aqueles pesadelos e não suportava ficar perto do marido, por isso partiu em busca de um homem mais saudável.
Ouvindo sobre aquelas mulheres que tinham se livrado dos maridos como se fossem lixo, Aliide ficou assustada, o susto se transformou em tremor, e ela começou a olhar com novos olhos os jovens que encontrava pelas ruas, procurando os que tinham retornado e reconhecendo neles algo familiar. Dava para ver neles um olhar sobre o qual pairava uma sombra, e ela tinha vontade de colocar as mãos na bochechas deles, de tocá-los.


Martin Truu acabou desfalecendo no jardim enquanto examinava com uma lupa uma folha de bétula. Quando Aliide encontrou o marido e virou seu corpo para o céu, viu a última expressão que ele tinha no rosto. Era a primeira vez que ela o via surpreso.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

submissão - michael houellebecq


"O ponto de vista do budismo é que o mundo é dukkha - inadequação, sofrimento. O próprio cristianismo manifesta sérias reservas - Satanás não é qualificado como "príncipe deste mundo"? Para o islã, ao contrário, a criação divina é perfeita, é uma obra-prima completa. No fundo, o que é o Alcorão senão um imenso poema místico de louvação? De louvação ao Criador e de submissão às suas leis. Em geral não aconselho às pessoas que desejam se aproximar do islã começarem pela leitura do Alcorão, a não ser, é claro, se quiserem fazer o esforço de aprender árabe e mergulharem no texto original. Aconselho-as, em vez disso, a escutar a leitura das suratas, repeti-las, sentir sua respiração e seu alento. O islã é, afinal, a única religião que proibiu qualquer tradução no uso litúrgico; porque o Alcorão é inteiramente composto de ritmos, e rimas, de refrões, de assonâncias. Repousa nesta ideia, na ideia de base da poesia, de uma união da sonoridade com o sentido, que permite expressar o mundo."


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

MINHA LUTA 4 - UMA TEMPORADA NO ESCURO - KARL OVE KNAUSGARD


"Não vivemos nossa vida sozinhos, mas isso não quer dizer que vejamos as pessoas com quem vivemos. Quando meu pai se mudou para o norte da Noruega e deixou de ser para mim uma presença física, com um corpo e uma voz, um temperamento e um olhar, de certo modo ele sumiu da minha vida, no sentido de que foi reduzido a uma espécie de desconforto com o qual eu por vezes me defrontava, por exemplo quando ele me ligava ou alguma coisa fazia pensar nele, uma espécie de campo em mim que podia ser ativado, e nesse campo estavam todos os sentimentos que eu tinha em relação a ele, mas não ele próprio.
 Tempos depois eu li nos cadernos de anotações dele a respeito do Natal em que ele havia ligado das Ilhas Canárias e das semanas que se seguiram.
  Nesses cadernos o meu pai aparece como ele próprio, no meio da própria vida, e talvez por isso essa leitura seja tão dolorosa para mim, porque ele não apenas é muito mais do que os sentimentos que eu tinha em relação a ele, mas infinitamente mais, uma pessoa viva e completa no meio da vida".


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

aos 7 e aos 40 - João Anzanello Carrascoza


"Naquela época, eu estava aprendendo a ler e a escrever e me encantava descobrir  como uma letra se abraçava a outra para formar uma palavra, e como as palavras, úmidas de tinta, ganhavam um novo rosto, quando escritas no papel. Pra mim, as letras nasciam encaracoladas como gavinhas e, na hora de abrir a cartilha e juntá-las, eu sempre gaguejava, rasurando o silêncio.
Meu irmão, mais avançado no mundo da leitura, ria às soltas, zombando dos meus erros. Uma tarde, ao ouvi-lo caçoar de mim, minha mãe o lembrou as dificuldades que ele tivera e disse, Você também errava muito! e afirmou que aquele bê-á-bá era apenas o começo, um dia eu e ele iríamos ler não só as palavras, mas tudo ao nosso redor, inclusive as pessoas."


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O ESCRITOR E SUA MISSÃO - THOMAS MANN


"A maneira do artista de criar", disse Goethe a Eckermann, "quer sempre acabar logo e não encontra prazer no trabalho.
O talento verdadeiro e genuinamente grandioso, no entanto, encontra sua maior felicidade na realização". Segundo ele, "nunca se deveria pensar em determinar, assim como não se viaja para chegar a algum lugar, e sim pelo prazer de viajar". Em outra oportunidade, observou: "Existem pessoas excelentes que não conseguem fazer nada brincando, sem esforço, mas cuja natureza requisita que penetrem seus respectivos objetos profundamente e com calma. Tais pessoas talentosas muitas vezes nos deixam impacientes, uma vez que é raro que nos deem imediatamente aquilo que desejamos. Mas apenas por este caminho é que se consegue realizar as coisas mais elevadas". Ele se refere objetivamente a pessoas excelentes, mas está claro que ele é uma delas e que ele próprio realizou as coisas mais elevadas através desse caminho. Um traço de ponderação e de lentidão, e paciência maternal na gestação, é inseparável do seu gênio. De fato, como criador, Goethe é de natureza mais lenta do que intempestiva, improvisadora. Durante trinta anos carregou consigo aquela maravilhosa história que, no fim, recebeu simplesmente o título de Novela. Entre o esboço e a peça pronta, Egmont precisou de doze anos para ser escrito, Ifigênia, de oito e o Tasso, de nove. O trabalho nos Anos de Aprendizado estendeu-se por dezesseis anos , no Fausto, por quase quatro décadas. Enquanto poeta, viveu a vida inteira bebendo na fonte de sua própria juventude."

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A Balada de Adam Henry - Ian McEwan


"O rosto fino e pálido, as sombras roxas abaixo dos grandes olhos cor de violeta. A língua coberta por uma película branca, braços como gravetos, tão doente, tão decidido a morrer, tão cheio de encanto e vida, páginas com seus poemas espalhadas pela cama, implorando a ela que permanecesse e os dois tocassem de novo a música, quando Fiona precisava regressar ao tribunal.
Lá, com a autoridade e dignidade de sua posição, ela lhe havia oferecido, em vez da morte, toda a vida e o amor  que se abriam diante dele. E proteção contra sua religião. Sem fé, como o mundo deve ter lhe parecido ilimitado, belo e aterrador!
Com tal pensamento, ela foi caindo de novo num sono ainda mais profundo e acordou minutos depois ao ouvir o cantar e os suspiros das calhas do telhado. Será que a chuva iria parar algum dia? Viu a figura solitária caminhando pela alameda do Leadman Hall, encurvada para se defender da tempestade de verão, avançando em meio às trevas, ouvindo os galhos que caíam. Ele devia ter visto à frente luzes na casa e sabido que ela se encontrava lá. Tiritou de frio numa dependência dos fundos, sem saber o que fazer, aguardando uma oportunidade de falar com ela, arriscando tudo na busca de - o quê, exatamente?
E acreditando que poderia obtê-lo de uma mulher de sessenta anos que jamais arriscara nada na vida a não ser nuns poucos episódios estouvados em Newcastle fazia muito tempo. Ela devia ter se sentido lisonjeada. E pronta.Em vez disso, num impulso poderoso e indesculpável, o beijara e depois o mandara embora.
Mais tarde, ela fugira também. Negara-se a responder às cartas dele. Negara-se a decifrar o alerta no poema dele. Que vergonha sentia agora dos temores mesquinhos que tivera sobre sua reputação! Aquela transgressão escapava ao alcance de qualquer comitê disciplinar. Adam a tinha procurado e ela não ofereceu nada no lugar da religião, nenhuma proteção, embora a lei fosse clara ao determinar que sua principal preocupação devia ser o bem-estar dele. Quantas páginas em quantos julgamentos ela já não devotara a esse propósito? Bem-estar, felicidade, um conceito social. Nenhuma criança é uma ilha. Ela pensava que suas responsabilidades terminavam na porta do tribunal. Mas como seria possível? Adam tratou de encontrá-la, querendo o que todo mundo quer, e que só pessoas de mente aberta, e não o sobrenatural, podiam dar: um sentido para a vida".

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dois Irmãos - Milton Hatoum




"Eu não a vi morrer, eu não quis vê-la morrer. Mas alguns dias antes da sua morte, ela deitada na cama de uma clínica, soube que ergueu a cabeça e perguntou em árabe para que só a filha e a amiga centenária entendessem ( e para que ela mesma não se traísse ): "Meus filhos já fizeram as pazes?'. Repetiu a pergunta com a força que lhe restava, com a coragem que mãe aflita encontra na hora da morte.
Ninguém respondeu. Então o rosto quase sem rugas de Zana desvaneceu; ela ainda virou a cabeça para o lado, à procura de única janelinha na parede cinzenta, onde se apagava um pedaço do céu crepuscular."