sábado, 28 de dezembro de 2019

A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS DE TE VER - ROSA MONTERO


"Sim, é preciso fazer algo com a morte. É preciso fazer algo com os mortos. Depositar flores. Falar com eles. Dizer que você os ama e que sempre os amou. É melhor dizê-lo em vida,mas,se não, também pode ser depois. Gritar para o mundo. Escrever num livro como este. Pablo, que pena ter esquecido que você podia morrer, que eu podia te perder. Se tivesse essa consciência , eu teria te amado não mais, mas melhor. Teria dito a você muito mais vezes que te amava. Teria discutido menos  por besteiras. Teria dado mais risadas. Teria até me esforçado em aprender o nome de todas as árvores e reconhecer cada folhinha. Pronto. Já fiz. Já disse. Realmente conforta."





Aquele livro que você não tem pressa de terminar de ler, porque ele foi feiro para ser relido, e lido de novo a cada frase linda. Simplesmente perfeito.


sexta-feira, 16 de agosto de 2019

UMA SENSAÇÃO ESTRANHA - ORHAN PAMUK




 "Mevlut já estava em Istambul havia vinte anos. Era triste ver a velha face da cidade desaparecer diante de seus olhos, destruída por estradas novas, demolições, edifícios, cartazes, lojas, túneis e elevados, mas também era reconfortante saber que alguém ali estava trabalhando para melhorar a cidade para proveito dele, Mevlut. Ele não a via como um lugar que existisse antes da sua chegada, nem lembrava que ele fora para lá na qualidade de forasteiro. Ao contrário, gostava de imaginar Istambul em obras na época em que ele lá vivia e sonhar como no futuro ela haveria de ser mais limpa, bonita e moderna. Simpatizava com os moradores de edifícios históricos de elevadores de cinquenta anos, aquecimento central e pé-direito alto, construídos enquanto ele ainda estava na aldeia ou nem tinha nascido, e nunca se esquecia de que eles o tratavam com condescendência , mesmo que não tivessem essa intenção, o que sempre o arrepiava ante a perspectiva de cometer um novo erro. Mas ele tinha apreço por coisas antigas: descobrira ao vender boza em bairros distantes, ao entrar em cemitérios,ao observar o muro de uma mesquita coberto de musgo e a ininteligível escrita otomana num chafariz quebrado, com suas torneiras de latão há muito secas.
   Ás vezes pensava o quanto arruinava  suas costas até hoje, só para tocar a vida com a venda de arroz( que na verdade pouco lhe rendia), enquanto todos à sua volta , todos oriundos de outro lugar estavam ficando ricos, comprando propriedades , construindo a própria casa no próprio terreno, mas nesses momentos ele dizia a si mesmo que seria ingratidão de sua parte desejar mais que a felicidade que Deus já lhe concedera. E vez por outra avistava as cegonhas voando lá em cima e se dava conta de que as estações iam passando, outro inverno chegando ao fim, e ele estava envelhecendo."

 

domingo, 7 de julho de 2019

Maria dos Prazeres - Gabriel Garcia Márquez


"Maria dos Prazeres havia conhecido muitos homens como aquele, salvara do suicídio muitos outros mais atrevidos que aquele , mas nunca em sua longa vida tivera tanto medo de decidir. Ouviu-o insistir sem o menor indício de mudança na voz:
_Subo?
Ela afastou-se sem fechar a porta do automóvel e respondeu em castelhano para ter certeza de ser entendida.
_Faça o que quiser.
Entrou no saguão mal iluminado pelo resplendor oblíquo da rua e começou a subir o primeiro trecho da escada com os joelhos trêmulos , sufocada por um pavor que só acreditava possível no momento de morrer. Quando parou na frente da porta do apartamento , tremendo de ansiedade para encontrar as chaves na bolsa, ouviu a batida sucessiva das duas portas do automóvel na rua. Noi, que havia se adiantado, tentou latir. "Calado", ordenou ela com um sussurro de agonia. Quase em seguida sentiu os primeiros passos nos degraus soltos da escada e temeu que seu coração fosse arrebentar . Numa fração de segundo voltou a examinar por completo o sonho premonitório que havia mudado sua vida durante três anos e compreendeu o erro de sua interpretação.
"Deus meu", disse assombrada. "Quer dizer que não era a morte!"
Encontrou finalmente a fechadura, ouvindo a respiração crescente de alguém que se aproximava tão assustado quanto ela no escuro, e então compreendeu que havia valido a pena esperar tantos e tantos anos, e haver sofrido tanto na escuridão, mesmo que tivesse sido só para viver aquele instante."


Maio de 1979.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

FORMAS DE VOLTAR PARA CASA - ALEJANDRO ZAMBRA




"Na época não sabíamos os nomes das árvores ou dos pássaros. Não era necessário. Vivíamos com poucas palavras e era possível responder a todas as perguntas dizendo: não sei. Não achávamos que isso fosse ignorância. Chamávamos de honestidade. Depois aprendemos , pouco a pouco, os matizes. Os nomes das árvores, dos pássaros, dos rios. E decidimos que qualquer frase era melhor que o silêncio".