quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Paris é uma festa - Ernest Hemingway

"...Uma moça entrou no café e sentou-se perto da janela. Era muito bonita, com um rosto fresco como uma moeda acabada de cunhar, se é que se pode cunhar moedas em carne tão macia, coberta de pele umedecida pela chuva. Seus cabelos eram negros como a asa de um corvo, cortados rente e em diagonal á face.
Olhei para ela, senti-me perturbado e numa grande excitação. Desejei colocá-la no meu conto, ou noutra parte qualquer,mas a moça se colocara de maneira a poder acompanhar o movimento da rua e da entrada do café, e compreendi que estava á espera de alguém. Por isso continuei a escrever.
O conto escrevia-se por si próprio, e eu tinha dificuldade em conduzí-lo. Pedi outro rum Saint James, observando a moça todas as vezes que levantava os olhos ou quando fazia a ponta do lápis, com um apontador, deixando as raspas encaracoladas no pires que tinha sob o cálice.
"Eu a vi, oh, beleza, você me pertence agora, seja quem for que esteja esperando e mesmo que nunca a veja mais em toda minha vida", pensei. "Você me pertence, toda a Paris me pertence e eu pertenço a este caderno e a este lápis."
Voltei a escrever, entrei a fundo na história e me perdi nela. Agora quem a escrevia era eu; o conto não se escrevia mais por si próprio , de modo que não tornei a levantar a cabeça.
Esqueci-me do tempo, do lugar em que me encontrava, e nem sequer mandei vir outro rum Saint James. Cansara-me dele sem pensar nisso. Terminei o conto,afinal, sentindo-me realmente cansado. Reli o último parágrafo e, quando levantei os olhos á procura da moça, não a encontrei mais."Tomara que tenha ido com um homem decente", pensei. Mas sentia-me triste..."

Um comentário:

  1. Estou louca para ler este livro. Depois deste post mais ainda. Bjs.

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