quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dois Irmãos - Milton Hatoum




"Eu não a vi morrer, eu não quis vê-la morrer. Mas alguns dias antes da sua morte, ela deitada na cama de uma clínica, soube que ergueu a cabeça e perguntou em árabe para que só a filha e a amiga centenária entendessem ( e para que ela mesma não se traísse ): "Meus filhos já fizeram as pazes?'. Repetiu a pergunta com a força que lhe restava, com a coragem que mãe aflita encontra na hora da morte.
Ninguém respondeu. Então o rosto quase sem rugas de Zana desvaneceu; ela ainda virou a cabeça para o lado, à procura de única janelinha na parede cinzenta, onde se apagava um pedaço do céu crepuscular."

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O Livro Negro - Orhan Pamuk


" A vida é uma sucessão interminável de infortúnios; assim que um acaba, sempre há outro á espera, e assim que nos acostumamos a suportá-los, somos atingidos por sofrimentos ainda mais ferozes, que escavam em nossos rostos a mesma expressão abatida que nos deixa a todos tão parecidos. Mesmo quando esses infortúnios  desabam todos ao mesmo tempo sobre nós, já sabíamos havia muito que estavam de tocaia à beira do nosso caminho: já os esperávamos, já estávamos prontos para eles; ainda assim, no momento em que a nova nuvem de problemas nos avassala, como um pesadelo, sentimo-nos estranhamente sós, desesperadamente sós; e, incrivelmente, continuamos a sonhar com a felicidade que ela nos poderia nos trazer , se pelo menos conseguíssemos compartilhar a nossa dor com outras pessoas".


"Segundo Fazlallah, a linha de demarcação entre os ser e o não-ser era o som, a voz. Pois, quando passamos do mundo espiritual para o mundo material, a única coisa material é o som que cada coisa produz. Mesmo os objetos mais "silenciosos" produzem um som distinto quando batemos neles. a forma mais avançada do som é naturalmente a fala, e o fenômeno mais elevado é aquilo que chamamos de "verbo", o mistério que chamamos de "palavra", composto pelos tijolos mágicos que são as letras. E é possível ler claramente nos rostos dos homens as letras que revelam o sentido e a essência da santidade da vida, a manifestação de Deus sobre a terra."

"Mais adiante, F.M. Üçüncü tratava do elemento mais importante da doutrina hurufista: a relação entre os rostos e as letras. Seguindo a mesma linha de raciocínio desenvolvida por Fazlallah em seu Livro da vida eterna, explicava que Deus, embora invisível, manifestava-se no rosto dos homens; estudava detalhadamente os traços presentes nesse rosto e a relação entre esses traços e as letras do alfabeto árabe. Depois de uma longuíssima digressão um tanto pueril a partir de alguns versos dos maiores poetas do hurufismo - Nesimi, Rafi, Misali, Ruhi, - o autor acabava chegando a uma fórmula: em tempos de felicidade e vitória, o rosto de cada um de nós fica pleno de sentido, assim como o mundo em que vivemos. E esse significado nos foi revelado pelos hurufis, que foram os primeiros a decifrar os mistérios do universo e a discernir as letras em nossos rostos. Com o desaparecimento da doutrina hurufista, porém, as letras tinham se apagado dos nossos rostos, da mesma forma como se perdera o segredo do universo."









terça-feira, 23 de agosto de 2016

Na Escuridão,amanhã - Rogério Pereira


"Atravessei a fronteira,mãe.Não retornarei. Sei que é impiedoso, covarde, dizer-lhe: prefiro a guerra, os tiros, o estrondo frio da morte, os corpos despedaçados, os mortos amontoados, a esta nossa família;ou tua, ou dele. Pouco importa de quem seja esta família, este ensaio malsucedido de agrupamento.
Você não é culpada. O pai nos levou até aí. Nunca nos perguntou nada, nunca nos ouviu. Sempre fomos marionetes na mão dele, ventríloquos mudos à porta do inferno. Ele nos moldou a todos num barro ruim, num barro que não dava liga, não grudava. Aos poucos só podia acontecer: ruímos. Nossas pilastras se despedaçaram. Não havia sustentação. A nossa casa era a de palha. Veio abaixo pelas nossas fraquezas e silêncios. E pelo pecado. Deveríamos tê-lo enfrentado. Uma única vez. Seria diferente? Duvido. Ele sempre foi um tirano dos mais ordinários. Um tirano que nos obrigava a chamá-lo de "pai". O que é um pai? Nunca saberemos. Mas agora não adianta inundar as entranhas com o veneno da maledicência. Não retornarei. Ele nos carregou para o meio da inferno. Até parecia querer testar a maldição do nosso nascimento."

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Baudolino - Umberto Eco

"O reencontro deles foi tímido e comovido. Seus olhos brilhavam de felicidade, mas logo baixou pudicamente o olhar. Sentaram-se no meio das ervas. Acácio pastava tranquilo ali perto. As flores em volta perfumavam mais do que o habitual, e Baudolino sentia-se como se mal tivesse tocado o burq com os lábios. Não ousava falar, mas decidiu fazê-lo porque a intensidade daquele silêncio o levaria a algum gesto inconveniente.
Só então compreendeu por que ouvira dizer que os verdadeiros amantes, em seu primeiro colóquio de amor, empalidecem, tremem e emudecem. Isso porque o amor, ao dominar ambos os reinos da natureza e da alma, atrai para si todas as suas forças, não importa como se mova. Assim, quando os verdadeiros amantes, se reúnem, o amor perturba e quase petrifica todas as funções do corpo, tanto físicas como espirituais: razão pela qual a língua se recusa a falar, os olhos a ver, os ouvidos a ouvir, e cada membro subtrai-se ao próprio dever. Isso faz com que, quando o amor, demora-se muito no fundo do coração, o corpo, desprovido de força, morre. Mas numa certa altura o coração pela impaciência do ardor que vive, quase lança para fora de si a sua paixão, permitindo ao corpo retomar as próprias funções. Daí, o amante fala."

O Amante - Marguerite Duras


"Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: "Eu a conheço há muito,muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos do seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado".

Penso frequentemente nessa imagem que só eu ainda vejo e sobre a qual jamais falei a alguém. Está sempre lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta."


Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa


"Ela disse que ouviu dizer de minha vida, sim. De mulheres, de famílias. Mentira. Que eu tive filhos.Mentira. Que eu tentei me matar. Mentira. Mesmo a morte eu esperava morrer com ela. Todo o tempo havia esperança, havia. Esperança. Eu tinha pressa, depois de 50 anos eu tinha pressa. Ela me mandou sentar, tomar um café. Não quis. Passou a vontade, como passageira. Esperou eu falar. Pois é. E só depois de 50 anos, 50 anos ou mais, olhando para o fundo da  boca, das mãos, dos olhos dela, no mesmo portão, porta amarela, com o cheiro de jasmim, eu disse a palavra, a palavra que faltava, que sempre falta uma palavra.
Falta."


( Palavra - Marcelino Freire )

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Detalhes de um Por-do-sol - Wladimir Nabokov


"Há pequenos ruídos que são mais assustadores do que um tiroteio. Tchorb deixou o baú de lado e caminhou pelo quarto. Uma mariposa atingiu a lâmpada, que respondeu com um tinido metálico. Tchorb abriu a porta de repelão e saiu.
Descendo a escada se deu conta de como estava cansado e, ao chegar à ruela, o azul vaporoso da noite de maio fez com que se sentisse tonto. Dobrando no bulevar , caminhou mais rápido. Uma praça. A estátua de pedra que representava algum herói militar. A massa sombria do parque da cidade.Os castanheiros estavam agora em flor. Então era outono. Tinha dado um longo passeio com ela na véspera do casamento. Como era  bom o cheiro da terra, de umidade, quase mesmo de violetas,que se desprendia das folhas mortas espalhadas pela calçada!
Naqueles dias encantadores de tempo encoberto , o céu era de um branco-fosco e, em meio ao asfalto negro, as pequenas poças que refletiam os galhos lembravam uma fotografia mal revelada. As mansões  de pedras cinzentas eram separadas  pela folhagem terna e imóvel das árvores que se amareleciam ; diante da casa dos Keller , as folhas de um álamo já murcho haviam adquirido a tonalidade  de uvas transparentes. Viam-se  também algumas bétulas por trás das grades do portão, seus troncos agasalhados por espessas camadas de hera. Tchorb fez questão de lhe dizer que na Rússia isso não acontecia, ao que ela observou que os tons castanho-avermelhados de suas minúsculas folhas  pareciam delicadas manchas de ferrugem numa toalha passada a ferro. Carvalhos e castanheiros ladeavam calçadas; os pontos em que suas cascas negras haviam apodrecido se assemelhavam a um manto de veludo verde; vez por outra uma folha se soltava e atravessava a rua voando como um pedaço de papel de embrulho. Ela tentava apanhá-las em pleno voo com uma pá de brinquedo  que achara junto a um monte de tijolos rosados onde havia um conserto na rua.Mais adiante, da chaminé de um caminhão de trabalhadores subia em diagonal uma fumaça cinza-azulada que se dissolvia entre as ramagens - e um operário na sua hora  de descanso, uma das mãos no quadril, ficou contemplando a jovem que, tão leve quanto uma folha morta, dançava com a pequena pá na mão erguida. Ela ria, saltitava de um lado para o outro. Tchorb, curvando um pouco os ombros, caminhava atrás dela - e lhe parecia que a própria felicidade tinha aquele cheiro, o cheiro de folhas mortas."


( trecho do belíssimo conto "O Retorno de Tchorb" )

domingo, 26 de junho de 2016

Pós Guerra - Uma História da Europa desde 1945 - Tony Judt


"Passei a juventude em cidades fabris e seus respectivos subúrbios , em meio a tijolos, fuligem , colunas de fumaça e ruas calçadas de pedra. Quando a viagem era curta, íamos de bonde ; quando era longa, íamos de trem. Comprávamos comida fresca para cada refeição, não porque fôssemos gourmets, mas porque não tínhamos geladeira ( itens menos perecíveis eram guardados num porão improvisado ). Minha mãe se levantava de manhã, no frio, e acendia o fogo na pequena fornalha da sala de estar. A água encanada tinha sempre a mesma temperatura: gélida. Nossa comunicação era por correio e ficávamos sabendo das notícias principalmente pelos jornais ( mas éramos modernos, pois tínhamos um rádio, mais ou menos do tamanho de um arquivo ). Nas primeiras salas de aula que frequentei havia fornaças arredondadas e carteiras duplas, com tinteiros embutidos, nos quais molhávamos nossas penas. Nós, os meninos, usávamos calças curtas até a cerimônia de communion solennelle, quando completávamos 12 anos. E assim por diante. Mas isso não era um local fora do mapa, nos Cárpatos; refiro-me à Europa Ocidental no pós-guerra, onde "pós-guerra" foi uma época que se estendeu por quase vinte anos."*

Essa descrição da região industrial da Valônia na década de 1950, feita pelo escritor belga Luc Sante, bem poderia ser aplicada à maior parte da Europa Ocidental naqueles anos. O presente autor, que cresceu depois da guerra no bairro de Putney, em Londres, lembra-se de visitas frequentes a uma loja de doces em que trabalhava uma anciã encarquilhada que o repreendia, dizendo-lhe que vendia "doces a meninos como você desde o Jubileu de Ouro da Rainha" - i.e. , desde 1887: ela se referia à rainha Vitória, evidentemente.




*Luc Sante, The Factory of Facts ( A Fábrica dos Fatos - 1998, pág. 27 )



domingo, 20 de março de 2016

O Bigode - Emmanuel Carrère


"Era a primeira vez que dormiam separados : suas brigas, quando as tinham, aconteciam no leito conjugal , como o amor, e não eram diferentes destes . Esta separação noturna perturbava-o ainda mais do que a má fé hostil demonstrada por Agnès. Perguntava-se sse ela viria procurá-lo, para fazerem as pazes, se aconchegar nos seus braços, acalmá-lo e se deixar acalmar por ele , dizendo: "acabou,acabou", repetindo durante muito tempo, até que ambos dormissem , e aí acabaria realmente.

(...)

Dócil, sem pedir explicações, ela interrompeu o gesto. Depois, conversaram, apertados um contra o outro sob as cobertas, até de manhã. Ela disse, mas ele já sabia, que ela não o enganava. Jurou, e ele respondeu que ela não precisava jurar, que ele sabia disso, mesmo se essa espécie de atitude fosse hábito dela. Hábito dela, sim, mas não com ele, não desse jeito, não dessa vez, era preciso que ele acreditasse nela, que ela acreditasse nele. É claro que eles acreditavam, acreditavam um no outro realmente, mas então acreditar em que? Que ele estava ficando louco? Que estava ficando louca? Apertavam-se ainda mais, ousando dizer isso, lambiam-se , sabiam que era preciso não parar de fazer amor, de tocar-se , sem o que não poderiam mais acreditar um no outro, nem mesmo conversar. Pela manhã, se se separassem , tudo poderia recomeçar, certamente recomeçaria. Eles fraquejariam , necessariamente , duvidariam de novo um do outro. Ela disse que à primeira vista tudo aquilo parecia impossível, mas que talvez fosse uma coisa que  acontecesse de vez em quando. Acontecia a quem? A ninguém, não conheciam ninguém, nunca ouviram falar de ninguém a quem tivesse acontecido de crer que usava bigode ou que não usasse.
Ou então, ela se corrigiu, de acreditar que o homem a quem se ama não usasse e que usasse. Não, nunca se ouviu falar disso. Mas isso não era loucura, não estavam loucos, devia ser um estado passageiro, uma espécie de alucinação, talvez o princípio de uma depressão nervosa. Vou consultar um psiquiatra, disse ela. Por que você? Se alguém está afetado, disse ele, sou eu. Por quê? Porque os outros pensam como você, também acreditam que nunca usei bigode, então sou eu que estou pirando. Vamos os dois, ela disse, beijando-o. Talvez, no fundo, seja um troço comum, corriqueiro. Você acha mesmo? Não. Eu também não. Eu te amo. E repetiram-se que se amavam, que acreditavam um no outro, que tinham confiança um no outro, mesmo se aquilo fosse impossível, que mais repetir além disso?"

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Minhas Universidades - Górki



" Qual é o papel do amor?"
Tudo o que eu lia estava saturado de ideias de cristandade, de humanismo , de clamores sobre o sofrimento em prol as pessoas - sobre isso, falavam com eloquência e fervor as melhores pessoas que eu tinha conhecido até então.
Tudo o que eu observava de forma direta não tinha quase nada a ver com o sofrimento das pessoas.A vida desenrolava-se à minha frente como uma infinita cadeia de hostilidade e de crueldade , como uma luta sórdida e incessante pela posse de ninharias. Pessoalmente, eu só precisava de livros, todo o resto não tinha sentido aos meus olhos."