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domingo, 14 de março de 2021

O MUSEU DA INOCÊNCIA - ORHAN PAMUK

 


" Era o momento mais feliz da minha vida, mas eu não sabia. Se soubesse. se tivesse dado o devido valor a essa dádiva, tudo teria acontecido de outra maneira ? Sim, se eu tivesse reconhecido aquele momento de felicidade perfeita, teria agarrado com força e nunca deixaria que me escapasse. Levou alguns segundos, talvez, para aquele estado luminoso tomar conta de mim, mergulhando-me na paz mais profunda, mas ele me pareceu ter durado horas, até mesmo anos. Naquele momento, na tarde de segunda-feira, 26 de maio de 1975, em torno das quinze para as três, assim como nos sentíamos além do pecado e da culpa, o mundo todo parecia ter sido liberado da gravidade e do tempo. Beijando o ombro de Füsun, já úmido com o aquecimento do nosso amor, eu a penetrei delicadamente por trás, e enquanto mordia de leve sua orelha , seu brinco deve ter se soltado e, pelo que nos pareceu, pairado em pleno ar antes de cair por vontade própria. Nosso prazer era tão profundo que continuamos a nos beijar, ignorando a queda do brinco, cuja forma eu nem sequer tinha percebido."



sexta-feira, 16 de agosto de 2019

UMA SENSAÇÃO ESTRANHA - ORHAN PAMUK




 "Mevlut já estava em Istambul havia vinte anos. Era triste ver a velha face da cidade desaparecer diante de seus olhos, destruída por estradas novas, demolições, edifícios, cartazes, lojas, túneis e elevados, mas também era reconfortante saber que alguém ali estava trabalhando para melhorar a cidade para proveito dele, Mevlut. Ele não a via como um lugar que existisse antes da sua chegada, nem lembrava que ele fora para lá na qualidade de forasteiro. Ao contrário, gostava de imaginar Istambul em obras na época em que ele lá vivia e sonhar como no futuro ela haveria de ser mais limpa, bonita e moderna. Simpatizava com os moradores de edifícios históricos de elevadores de cinquenta anos, aquecimento central e pé-direito alto, construídos enquanto ele ainda estava na aldeia ou nem tinha nascido, e nunca se esquecia de que eles o tratavam com condescendência , mesmo que não tivessem essa intenção, o que sempre o arrepiava ante a perspectiva de cometer um novo erro. Mas ele tinha apreço por coisas antigas: descobrira ao vender boza em bairros distantes, ao entrar em cemitérios,ao observar o muro de uma mesquita coberto de musgo e a ininteligível escrita otomana num chafariz quebrado, com suas torneiras de latão há muito secas.
   Ás vezes pensava o quanto arruinava  suas costas até hoje, só para tocar a vida com a venda de arroz( que na verdade pouco lhe rendia), enquanto todos à sua volta , todos oriundos de outro lugar estavam ficando ricos, comprando propriedades , construindo a própria casa no próprio terreno, mas nesses momentos ele dizia a si mesmo que seria ingratidão de sua parte desejar mais que a felicidade que Deus já lhe concedera. E vez por outra avistava as cegonhas voando lá em cima e se dava conta de que as estações iam passando, outro inverno chegando ao fim, e ele estava envelhecendo."

 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O Livro Negro - Orhan Pamuk


" A vida é uma sucessão interminável de infortúnios; assim que um acaba, sempre há outro á espera, e assim que nos acostumamos a suportá-los, somos atingidos por sofrimentos ainda mais ferozes, que escavam em nossos rostos a mesma expressão abatida que nos deixa a todos tão parecidos. Mesmo quando esses infortúnios  desabam todos ao mesmo tempo sobre nós, já sabíamos havia muito que estavam de tocaia à beira do nosso caminho: já os esperávamos, já estávamos prontos para eles; ainda assim, no momento em que a nova nuvem de problemas nos avassala, como um pesadelo, sentimo-nos estranhamente sós, desesperadamente sós; e, incrivelmente, continuamos a sonhar com a felicidade que ela nos poderia nos trazer , se pelo menos conseguíssemos compartilhar a nossa dor com outras pessoas".


"Segundo Fazlallah, a linha de demarcação entre os ser e o não-ser era o som, a voz. Pois, quando passamos do mundo espiritual para o mundo material, a única coisa material é o som que cada coisa produz. Mesmo os objetos mais "silenciosos" produzem um som distinto quando batemos neles. a forma mais avançada do som é naturalmente a fala, e o fenômeno mais elevado é aquilo que chamamos de "verbo", o mistério que chamamos de "palavra", composto pelos tijolos mágicos que são as letras. E é possível ler claramente nos rostos dos homens as letras que revelam o sentido e a essência da santidade da vida, a manifestação de Deus sobre a terra."

"Mais adiante, F.M. Üçüncü tratava do elemento mais importante da doutrina hurufista: a relação entre os rostos e as letras. Seguindo a mesma linha de raciocínio desenvolvida por Fazlallah em seu Livro da vida eterna, explicava que Deus, embora invisível, manifestava-se no rosto dos homens; estudava detalhadamente os traços presentes nesse rosto e a relação entre esses traços e as letras do alfabeto árabe. Depois de uma longuíssima digressão um tanto pueril a partir de alguns versos dos maiores poetas do hurufismo - Nesimi, Rafi, Misali, Ruhi, - o autor acabava chegando a uma fórmula: em tempos de felicidade e vitória, o rosto de cada um de nós fica pleno de sentido, assim como o mundo em que vivemos. E esse significado nos foi revelado pelos hurufis, que foram os primeiros a decifrar os mistérios do universo e a discernir as letras em nossos rostos. Com o desaparecimento da doutrina hurufista, porém, as letras tinham se apagado dos nossos rostos, da mesma forma como se perdera o segredo do universo."









segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Maleta Do Meu Pai - Orhan Pamuk


" Mas a literatura nunca é uma preocupação apenas nacional. O escritor que se recolhe e antes de mais nada empreende uma viagem para dentro de si mesmo haverá de descobrir ao longo dos anos a regra eterna da literatura: é preciso ter o talento de contar as próprias histórias como se fossem histórias dos outros, e contar as histórias dos outros como se fossem suas, porque é isso a literatura. Mas antes é preciso viajar pelas histórias e pelos livros de outros."

( trecho do discurso da cerimônia de entrega do prêmio nobel de literatura de 2007).

" O anjo da inspiração ( que visita regularmente alguns e raramente outros ) favorece os escritores dotados de esperança e confiança, e é quando o escritor se sente mais só, quando ele mais duvida dos seus esforços, dos seus sonhos e do valor do que escreve - quando acha que a sua história é só a sua história - é em momentos assim que o anjo decide revelar-lhe histórias, imagens e sonhos que irão evocar o mundo que ele pretende construir. Quando penso nos livros a que dediquei toda minha vida, o que mais me surpreende são esses momentos em que eu sentia que as frases, os sonhos e as páginas que me deixavam tão arrebatado de felicidade não vinham da minha imaginação, que era outro poder que as encontrava e, generoso, me presenteava com elas."

( muitas vezes me senti sozinha enquanto escrevia meu projeto de um livro infantil e também várias vezes achava que minhas histórias eram apenas minhas, sem nada de especial e quando me senti assim tão sozinha fui agraciada com esse anjo e ele me abençoou! Lindos depoimentos nesse livro de Orhan Pamuk , que homenageia seu pai ).