" Eu, em seu lugar, partiria para a Índia, para o diabo sabe aonde, cursaria mais duas faculdades, faria coisas e mais coisas. Você dá risada, mas eu tenho tanta mágoa de já estar com 40, ter dispnéia e outras amolações que me impedem de viver livremente. De qualquer modo, seja um homem bom e um bom companheiro, não se zangue por eu, nas minhas cartas, fazer sermões como um protopope.
Escreva-me. Estou esperando Fomá Gordiéiev, que até agora não li devidamente.
Nada de novo. Saúde. Um forte aperto de mão.
Seu A. Tchekhov"
" Sabe, é muito desagradável ler em suas cartas que você está sentindo tédio. Isto absolutamente não lhe convém e não deve acontecer, de modo algum. Você escreve que já está com quarenta anos. Você está apenas com quarenta anos ! E neste meio tempo, quanto você já escreveu, e como escreveu! Pois é isto ! É terrivelmente trágico que todos os russos se considerem abaixo do seu valor real.Parece que você também está concorrendo para isso."
Seu A. Piechkóv * "
* O nome de Máximo Górki ( isto é, o Amargo ) era Aleksiéi Maksímovitch Piechkóv.
( trechos das cartas trocadas entre Anton P. Tchekhov e Máximo Górki - Carta e Literatura - Sophia Angelides - Edusp )
se eu pudesse leria todos os livros que gosto pra ti, como não posso, escrevo as palavras encantadas que me encantaram.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Sábado - Ian McEwan
" Sexo é um meio diferente , refrata o tempo e os sentidos , um hiperespaço biológico tão remoto da vida consciente quanto os sonhos , ou quando a água é do ar. Como sua mãe dizia, um outro elemento; o dia se modifica, Henry , quando a gente nada. E esse dia está destinado a se destacar dos demais."
( Sábado - Ian McEwan )
( Sábado - Ian McEwan )
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
o Mapa de Sonhos - Uri Shulevitz
" No dia seguinte meu pai pendurou o mapa.
Ele ocupou a parede inteira!
Nosso quartinho sem graça inundou-se de cores.
Fiquei fascinado pelo mapa
e passei horas olhando para ele,
examinando cada detalhe.
E durante muitos dias eu o desenhei
em cada pedacinho de papel que me aparecia pela frente.
Eu encontrava nomes desconhecidos naquele mapa.
Aterrisei em desertos abrasadores.
Percorri praias,sentindo a areia entre os dedos dos pés.
Escalei montanhas nevadas
onde o vento gelado lambia meu rosto.
Vi templos maravilhosos
com esculturas de pedra dançando nas paredes
e pássaros de todas as cores
cantando nos telhados.
Atravessei pomares cheios de frutas,
comi mamões e frutas até me fartar.
Bebi água fresquinha
e descansei á sombra de palmeiras.
Cheguei a uma cidade cheia de arranha-céus
e tentei contar suas janelas.
Eram tantas que caí no sono antes de acabar.
E assim passei horas de encantamento
longe da fome e da miséria.
E perdoei o meu pai,
afinal ele fez a coisa certa."
( Mapa de Sonhos - Uri Shulevitz )
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Assassinato e outras histórias - Anton Tchekhov
" Antes de qualquer pessoa , interrogaram Iákov, e ele fez ver que Matviei, na segunda-feira à tarde, partira para Vedeniápino a fim de jejuar antes de fazer a confissão, e que talvez serradores, que então trabalhavam na ferrovia, o tivessem matado. Quando o juiz de intrução lhe perguntou como se podia explicar o fato de Matviei ter sido encontrado no meio da estrada, se o seu chapéu estava em casa - seria possível que ele tivesse partido para Vedeniápino sem chapéu? E também por que motivo perto de Matviei, na estrada , sobre a neve , não encontraram nem um pingo de sangue,se ele tinha o crânio fraturado, além de ter o rosto e o peito enegrecidos de sangue. Iákov perturbou-se , confundiu-se e respondeu:
_ Não posso saber.
E aconteceu exatamente aquilo que Iákov temia: chegou o guarda, o policial pôs-se a fumar no oratório e Aglaia disparou pragas contra ele, disse desaforos para o comissário de polícia rural , e depois, quando conduziram Iákov e Aglaia para fora do pátio, os mujiques aglomeraram-se no portão e disseram:
_ Estão levando os beatos !- e todos pareciam contentes."
( trecho do conto "O Assassinato" da coletânea de contos do livro " Assassinato e outras histórias "- Anton Tchekhov )
" Da noite para o dia, tudo se acalmou. Quando se levantaram e olharam pela janela, os salgueiros desfolhados, com os galhos ligeiramente curvados para baixo, mantinham-se absolutamente imóveis, o tempo estava nublado, sereno, como se a natureza agora estivesse envergonhada de sua orgia, das loucuras da noite e das liberdades que havia concedido às suas paixões."
( trecho do conto "Em serviço" da coletânea de contos do livro " Assassinato e outras histórias" - Anton Tchekhov ).
_ Não posso saber.
E aconteceu exatamente aquilo que Iákov temia: chegou o guarda, o policial pôs-se a fumar no oratório e Aglaia disparou pragas contra ele, disse desaforos para o comissário de polícia rural , e depois, quando conduziram Iákov e Aglaia para fora do pátio, os mujiques aglomeraram-se no portão e disseram:
_ Estão levando os beatos !- e todos pareciam contentes."
( trecho do conto "O Assassinato" da coletânea de contos do livro " Assassinato e outras histórias "- Anton Tchekhov )
" Da noite para o dia, tudo se acalmou. Quando se levantaram e olharam pela janela, os salgueiros desfolhados, com os galhos ligeiramente curvados para baixo, mantinham-se absolutamente imóveis, o tempo estava nublado, sereno, como se a natureza agora estivesse envergonhada de sua orgia, das loucuras da noite e das liberdades que havia concedido às suas paixões."
( trecho do conto "Em serviço" da coletânea de contos do livro " Assassinato e outras histórias" - Anton Tchekhov ).
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Outra volta do parafuso - Henry James
"Decorrido um segundo, em que moveu a cabeça como um cão que perdeu a pista, a que a lançou para trás, num gesto brusco, como em busca de ar e de luz, voltou-se para mim pálido de cólera, perplexo , olhando inutilmente para todos os lados e não encontrando nada, embora eu sentisse o aposento envenenado pela dominante e opressora presença.
- É ele ?
Eu estava tão decidida a obter todas as provas que, para desafiá-lo, simulei glacial tranquilidade:
_ A quem você se refere?
_ Peter Quint ! Ah, seu demônio !
Seu rosto dirigiu novamente, em torno do aposento, uma convulsa súplica:
_ Onde?
Tenho ainda em meus ouvidos o som daquele nome, proferido como uma rendição suprema, como um tributo à minha dedicação.
_Que importância tem ele agora, meu querido? Que importância poderá ter doravante? Eu tenho você - exclamei, dirigindo-me à fera - e ele perdeu para sempre!
E ajuntei, para demonstrar que cumprira a minha obra:
_ Ali, ali ! - exclamei, apontando a janela.
Mas Miles já havia escapado de meus braços e, voltando-se para o outro lado, ficou a fitar, perscrutadoramente , a janela, não vendo senão o dia tranquilo. Ante o golpe dessa perda, de que eu tanto me orgulhava, lançou um grito de criatura lançada sobre o abismo, e o gesto com que o segurei bem poderá ter sido o de agarrá-lo em sua queda. Agarrei-o,sim, apertei-o de encontro ao peito...e bem pode imaginar-se com que paixão! Mas, ao cabo de um minuto, comecei a sentir o que realmente estreitava em meus braços. Estávamos a sós no dia tranquilo, e o seu pequeno coração, despossuído, deixara de pulsar."
( Outra Volta do Parafuso - Henry James )
- É ele ?
Eu estava tão decidida a obter todas as provas que, para desafiá-lo, simulei glacial tranquilidade:
_ A quem você se refere?
_ Peter Quint ! Ah, seu demônio !
Seu rosto dirigiu novamente, em torno do aposento, uma convulsa súplica:
_ Onde?
Tenho ainda em meus ouvidos o som daquele nome, proferido como uma rendição suprema, como um tributo à minha dedicação.
_Que importância tem ele agora, meu querido? Que importância poderá ter doravante? Eu tenho você - exclamei, dirigindo-me à fera - e ele perdeu para sempre!
E ajuntei, para demonstrar que cumprira a minha obra:
_ Ali, ali ! - exclamei, apontando a janela.
Mas Miles já havia escapado de meus braços e, voltando-se para o outro lado, ficou a fitar, perscrutadoramente , a janela, não vendo senão o dia tranquilo. Ante o golpe dessa perda, de que eu tanto me orgulhava, lançou um grito de criatura lançada sobre o abismo, e o gesto com que o segurei bem poderá ter sido o de agarrá-lo em sua queda. Agarrei-o,sim, apertei-o de encontro ao peito...e bem pode imaginar-se com que paixão! Mas, ao cabo de um minuto, comecei a sentir o que realmente estreitava em meus braços. Estávamos a sós no dia tranquilo, e o seu pequeno coração, despossuído, deixara de pulsar."
( Outra Volta do Parafuso - Henry James )
terça-feira, 20 de julho de 2010
Canalha! - Fabrício Carpinejar
"Pelo fato dela estar com namorado ou casada, não suporta que alguém esteja solteira.Quer exterminar as solteiras da cidade, pois não é suficiente casar; o mundo tem de casar junto com ela para não se arrepender ou questionar sua rotina."
"Amor encomendado nunca funcionou . Como fazer render um encontro em que expectativa mínima é a de namoro e a máxima é de um casamento? Amor surge ao léu, de imprevisto, sem nenhuma preparação psicológica e pesquisas de opinião. Não se passa por teste vocacional, o amor pode contrariar a carreira."
"É um drama rever quem se gostava comprometida.Seria sorte se apenas os cotovelos doessem - é todo o corpo.Toda a ausência do corpo dela no seu."
" Nasci de uma saudade longa de você.Estar com você é só aumentá-la.E nem quero adoecer de outra maneira. Se estar com você é apressar o fim, nunca estive tão à vontade longe de meu nascimento."
"Eu não consegui inventá-la, você desobedeceu o autor e sumiu com o final do livro. Eu não consegui inventá-la,podia apenas descobri-la.
Será que depois de morto ainda enfrentarei pesadelos?
Até que a morte nos separe é muito pouco para mim. Preciso de você por mais de uma vida."
" Se já sofremos quando não declaramos o que nos incomoda,sofreremos o dobro se não declararmos o que nos alegra.
Merecemos aprender a contar os dias em que estamos livres, ao invés de enumerar com uma cruz em que estamos presos."
" Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas acontecerem. Sexo seria não pensar.Não concordo, sexo não é inconsequência, é consequência da gentileza. Consequência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado.
Sexo é pensar, como que não?
E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz.Não a derradeira chance, e sim a chance."
" Um amor atrasado não é amor. Um amor atrasado é amizade depois de um amor que não aconteceu."
( trechos do livro Canalha ! crônicas de Fabrício Carpinejar )
terça-feira, 6 de julho de 2010
Lendo Lolita em Teerã - Azar Nafisi
" As ruas de Teerã e de outras cidades iranianas são patrulhadas pelas milícias que circulam em Toyotas brancos, quatro mulheres e homens armados, seguidos algumas vezes por um microônibus.Eles são chamados de Sangue de Deus.Eles patrulham as ruas para assegurar que as mulheres, como Sanaz, vistam seus véus adequadamente , não usem maquiagem , não caminhem em público com homens que não sejam seus pais, irmãos ou maridos. Ela passará por paredes pintadas com slogans, citações de Khomeini e de um grupo chamado o Partido de Deus: Homens que usam gravatas são lacaios dos Estados Unidos, o véu é a proteção da mulher. Ao lado do slogan existe o desenho de uma mulher a carvão : seu rosto não tem forma e é emoldurado por um chador escuro.Minha irmã, resguade o seu véu.Meu irmão, vigie os seus olhos.
Se ela entrar num ônibus, o assento é segregado. Tem que subir pela porta de trás e procurar pelos bancos traseiros, alocados para as mulheres. Mas nos táxis, que aceitam até cinco passageiros, homens e mulheres podem viajar apertados como sardinhas, como diz o ditado, e o mesmo acontece nos microônibus, onde muitas das minhas alunas reclamam de ser importunadas por homens barbudos e tementes a Deus.
Fosse lá quem fôssemos - e realmente não é importante a que religião pertencíamos, se queríamos usar o véu ou não, se observávamos certas normas religiosas ou não -, tornamo-nos a fantasia dos sonhos de outras pessoas.Um implacável aiatolá , um autoproclamado filósofo-rei, chegou para dominar nossa terra. Ele chegou em nome de um passado, passado que lhe havia sido roubado, afirmou. E agora ele queria nos recriar à imagem daquele passado ilusório. Serviria de consolo, ou gostaríamos de lembrar que o que ele nos fez foi o que permitimos que fizesse?"
( trecho de Lendo Lolita em Teerã - Azar Nafisi - )
quarta-feira, 30 de junho de 2010
o diário de Anne Frank
Sábado, 20 de Junho de 1942
"Escrever um diário é uma experiência realmente estranha para alguém como eu. Não somente porque nunca escrevi antes, mas também porque acho que mais tarde ninguém se interessará,nem mesmo eu,pelos pensamentos de uma garota de treze anos.Bom,não importa.Tenho vontade de escrever,e tenho uma necessidade ainda maior de tirar todo tipo de coisas de dentro do meu peito."
Domingo, 5 de Julho de 1942
"Há alguns dias,enquanto dávamos um passeio pela praça perto de casa, papai começou a falar sobre se esconder.Falou que para nós seria difícil viver sem manter relações com o resto do mundo.Perguntei por que ele tinha puxado aquele assunto.
_Bom,Anne - respondeu ele.- Você sabe que há mais de um ano estamos levando roupas,comida e móveis para outras pessoas.Não queremos que nossos pertences sejam apanhados pelos alemães.E também não queremos cair nas garras deles.Por isso vamos embora por vontade própria,sem esperar que eles nos levem.
_Mas quando,papai?
Ele parecia tão sério que fiquei apavorada.
_Não se preocupe.Nós vamos cuidar de tudo.Simplesmente desfrute sua vida despreocupada enquanto é possível.
Era isso.Ah, que essas palavras sombrias não se tornem verdade pelo maior tempo possível!"
Quarta-feira , 8 de Julho de 1942
" Margot e eu começamos a colocar nossos pertences mais importantes numa pasta de escola. A primeira coisa que agarrei foi este diário , e depois rolinhos de cabelos, lenços, livros da escola, um pente e algumas cartas antigas.Preocupada com a ideia de ir para um esconderijo, juntei as coisas mais malucas na pasta,mas não me arrependo.Para mim as lembranças são mais importantes do que os vestidos.
Eu estava exausta,e mesmo sabendo que seria a última noite em minha cama,dormi imediatamente e só acordei quando mamãe me chamou ás cinco e meia da manhã seguinte.Felizmente não estava tão quente quanto no domingo;uma chuva quente caiu durante o dia inteiro. Nós quatro vestimos tantas camadas de roupas a ponto de parecer que iríamos passar a noite numa geladeira, e isso para que pudéssemos levar mais roupas.Nenhum judeu em nossa situação ousaria sair de casa com uma mala cheia.Estava sufocando mesmo antes de sairmos de casa,mas ninguém se incomodou em perguntar como eu me sentia.
Margot encheu sua pasta da escola com livros,foi pegar sua bicicleta e, com Miep guiando o caminho , seguiu para o grande desconhecido .De qualquer modo,é assim que eu pensava,já que ainda não sabia onde era nosso esconderijo.
As camas desarrumadas,as coisas do café da manhã sobre a mesa,a carne para a gata na cozinha - todas essas coisas criavam a impressão de que havíamos saído apressadamente .Mas não estávamos interessados em impressões.Só queríamos sair de lá,sair e chegar em segurança ao nosso destino.Nada mais importava.
Mais amanhã.
Sua Anne."
( trechos de O Diário de Anne Frank - editado por Otto H. Frank e Mirjam Pressler - Editora Record )
terça-feira, 29 de junho de 2010
Ferreira Gullar
"Criação poética
O poema não tem plano.Escrevo meio cego.É uma descoberta passo a passo,algo que vai sendo revelado a mim mesmo a cada momento.Eu nunca presto atenção no modo como construo um poema.O poema,para mim, é a grande aventura de como fazer. Costumo dizer em palestras para estudantes que,quando vou escrever um poema, a página está em branco,e isso significa que todas as possibilidades estão abertas,são infinitas.No momento em que sorteio uma palavra,reduzo as possibilidades,o acaso é menor.Mas não sei o que vai acontecer.
A alegria da escrita
O poema é cura,não doença.Escrevo para ser feliz,para me libertar do sofrimento,não para sofrer.É a alquimia da dor em alegria estética.Mesmo quando a coisa é doída,amarga,naquele momento a transformo no ouro que é o poema."
Ferreira Gullar
( trecho da entrevista concedida á revista cultural Dicta & Contradicta )
segunda-feira, 21 de junho de 2010
o vento e a canção - Mario Quintana
" Só o vento é que sabe versejar:
Tem um verso a fluir que é como um rio de ar.
E onde a qualquer momento podes embarcar:
O que ele está cantando é sempre o teu cantar.
Seu grito que querias dar,
É ele a dança que ias tu dançar.
E, se acaso quisesses te matar,
Te ensinava cantigas de esquecer
Te ensinava cantigas de embalar...
E só um segredo ele vem te dizer:
- é que o voo do poema não pode parar."
( O vento e a canção - Mario Quintana - Anotações Poéticas )
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