terça-feira, 6 de julho de 2010

Lendo Lolita em Teerã - Azar Nafisi


" As ruas de Teerã e de outras cidades iranianas são patrulhadas pelas milícias que circulam em Toyotas brancos, quatro mulheres e homens armados, seguidos algumas vezes por um microônibus.Eles são chamados de Sangue de Deus.Eles patrulham as ruas para assegurar que as mulheres, como Sanaz, vistam seus véus adequadamente , não usem maquiagem , não caminhem em público com homens que não sejam seus pais, irmãos ou maridos. Ela passará por paredes pintadas com slogans, citações de Khomeini e de um grupo chamado o Partido de Deus: Homens que usam gravatas são lacaios dos Estados Unidos, o véu é a proteção da mulher. Ao lado do slogan existe o desenho de uma mulher a carvão : seu rosto não tem forma e é emoldurado por um chador escuro.Minha irmã, resguade o seu véu.Meu irmão, vigie os seus olhos.
Se  ela entrar num ônibus, o assento é segregado. Tem que subir pela porta de trás e procurar pelos bancos traseiros, alocados para as mulheres. Mas nos táxis, que aceitam até cinco passageiros, homens e mulheres podem viajar apertados como sardinhas, como diz o ditado, e o mesmo acontece nos microônibus, onde muitas das minhas alunas reclamam de ser importunadas por homens barbudos e tementes a Deus.
Fosse lá quem fôssemos -  e realmente não é importante a que religião pertencíamos, se queríamos usar o véu ou não, se observávamos certas normas religiosas ou não -, tornamo-nos a fantasia dos sonhos de outras pessoas.Um implacável aiatolá , um autoproclamado filósofo-rei, chegou para dominar nossa terra. Ele chegou em nome de um passado, passado que lhe havia sido roubado, afirmou. E agora ele queria nos recriar à imagem daquele passado ilusório. Serviria de consolo, ou gostaríamos de lembrar que o que ele nos fez foi o que permitimos que fizesse?"

( trecho de Lendo Lolita em Teerã - Azar Nafisi -  )

quarta-feira, 30 de junho de 2010

o diário de Anne Frank


Sábado, 20 de Junho de 1942

"Escrever um diário é uma experiência realmente estranha para alguém como eu. Não somente porque nunca escrevi antes, mas também porque acho que mais tarde ninguém se interessará,nem mesmo eu,pelos pensamentos de uma garota de treze anos.Bom,não importa.Tenho vontade de escrever,e tenho uma necessidade ainda maior de tirar todo tipo de coisas de dentro do meu peito."

Domingo, 5 de Julho de 1942

"Há alguns dias,enquanto dávamos um passeio pela praça perto de casa, papai começou a falar sobre se esconder.Falou que para nós seria difícil viver sem manter relações com o resto do mundo.Perguntei por que ele tinha puxado aquele assunto.
_Bom,Anne - respondeu ele.- Você sabe que há mais de um ano estamos levando roupas,comida e móveis para outras pessoas.Não queremos que nossos pertences sejam apanhados pelos alemães.E também não queremos cair nas garras deles.Por isso vamos embora por vontade própria,sem esperar que eles nos levem.
_Mas quando,papai?
Ele parecia tão sério que fiquei apavorada.
_Não se preocupe.Nós vamos cuidar de tudo.Simplesmente desfrute sua vida despreocupada enquanto é possível.
Era isso.Ah, que essas palavras sombrias não se tornem verdade pelo maior tempo possível!"

Quarta-feira , 8 de Julho de 1942

" Margot e eu começamos a colocar nossos pertences mais importantes numa pasta de escola. A primeira coisa que agarrei foi este diário , e depois rolinhos de cabelos, lenços, livros da escola, um pente e algumas cartas antigas.Preocupada com a ideia de ir para um esconderijo, juntei as coisas mais malucas na pasta,mas não me arrependo.Para mim as lembranças são mais importantes do que os vestidos.
Eu estava exausta,e mesmo sabendo que seria a última noite em minha cama,dormi imediatamente e só acordei quando mamãe me chamou ás cinco e meia da manhã seguinte.Felizmente não estava tão quente quanto  no domingo;uma chuva quente caiu durante o dia inteiro. Nós quatro vestimos tantas camadas de roupas a ponto de parecer que iríamos passar a noite numa geladeira, e isso para que pudéssemos levar mais roupas.Nenhum judeu em nossa situação ousaria sair de casa com uma mala cheia.Estava sufocando mesmo antes de sairmos de casa,mas ninguém se incomodou em perguntar como eu me sentia.
Margot encheu sua pasta da escola com livros,foi pegar sua bicicleta e, com Miep guiando o caminho , seguiu para o grande desconhecido .De qualquer modo,é assim que eu pensava,já que ainda não sabia onde era nosso esconderijo.
As camas desarrumadas,as coisas do café da manhã sobre a mesa,a carne para a gata na cozinha - todas essas coisas criavam a impressão de que havíamos saído apressadamente .Mas não estávamos interessados em impressões.Só queríamos sair de lá,sair e  chegar em segurança ao nosso destino.Nada mais importava.
Mais amanhã.

                                                                                                                                              Sua Anne."

( trechos de O Diário de Anne Frank - editado por Otto H. Frank e Mirjam Pressler - Editora Record )


terça-feira, 29 de junho de 2010

Ferreira Gullar


"Criação poética

O poema não tem plano.Escrevo  meio cego.É uma descoberta passo a passo,algo que vai sendo revelado a mim mesmo a cada momento.Eu nunca presto atenção no modo como construo um poema.O poema,para mim, é a grande aventura de como fazer. Costumo dizer em palestras para estudantes que,quando vou escrever um poema, a página está em branco,e isso significa que todas as possibilidades estão abertas,são infinitas.No momento em que sorteio uma palavra,reduzo as possibilidades,o acaso é menor.Mas não sei o que vai acontecer.

A alegria da escrita

O poema é cura,não doença.Escrevo para ser feliz,para me libertar do sofrimento,não para sofrer.É a alquimia da dor em alegria estética.Mesmo quando a coisa é doída,amarga,naquele momento a transformo no ouro que é o poema."

Ferreira Gullar

( trecho da entrevista concedida á revista cultural Dicta & Contradicta )

segunda-feira, 21 de junho de 2010

o vento e a canção - Mario Quintana

" Só o vento é que sabe versejar:
Tem um verso a fluir que é como um rio de ar.

E onde a qualquer momento podes embarcar:
O que ele está cantando é sempre o teu cantar.

Seu grito que querias dar,
É ele a dança que ias tu dançar.

E, se acaso quisesses te matar,
Te ensinava cantigas de esquecer

Te ensinava cantigas de embalar...
E só um segredo ele vem te dizer:

- é que o voo do poema não pode parar."



( O vento e a canção - Mario Quintana - Anotações Poéticas )


sexta-feira, 18 de junho de 2010

Eu sou um gato - Natsume Soseki


"Rendo-me.Que aconteça o que tiver de acontecer.Não vou tentar mais me agarrar a nada.Decido não resistir e abandono nas mãos da natureza minhas patas dianteiras e traseiras,minha cabeça,meu rabo.
Aos poucos vou me sentindo tranquilo.Já não sei mais se é sufocante ou prazeroso.Não sei mais se estou dentro da água ou sobre almofadas.Não importa mais onde estou ou o que faço.Sinto-me bem.Ou melhor,não posso sequer distinguir mais se estou bem ou não.Quero destruir o sol e a lua,pulverizar céus e terras,adentrar em um estado de estranha paz.Estou morrendo.Morrendo.Morrendo obterei essa paz,só atingida por aqueles que passam para o outro mundo.Em nome de Buda,em nome de Buda.Rendo-lhe graças,rendo-lhe graças."

Eu sou um gato - Natsume Soseki

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A louca - Guy de Maupassant

" A velha governanta morrera durante o inverno.Ninguém se preocupava mais com o caso;somente eu pensava naquilo sem parar.
O que tinham feito da mulher? Ela havia escapado através dos bosques?! Haviam-na recolhido em algum lugar e posto num hospital sem que se pudesse lhe tirar nenhuma informação? Nada conseguia diminuir minhas dúvidas.Mas aos poucos o tempo apaziguou o tormento do meu coração.
Ora, no outono seguinte, as perdizes vieram em massa,e, como minha gota me dava uma folga,me arrastei até a floresta.Tinha matado já uns quatro ou cinco bichinhos, quando abati um que quase desapareceu numa vala cheia de galhos.Fui obrigado a descer lá para apanhar minha presa.Encontrei-a caída ao lado da cabeça de um morto.E bruscamente a lembrança da louca me veio ao peito como um soco. Muitos outros , talvez, tinham desaparecido naqueles bosques durante aquele ano sinistro;mas não sei por que eu tinha certeza,certeza absoluta - eu lhe garanto -, que encontrava a cabeça daquela miserável alienada.
E de súbito compreendi,adivinhei tudo.Eles a tinham abandonado sobre o colchão, na floresta gelada e deserta; e fiel à sua ideia fixa, ela se deixara morrer sob o espesso cobertor de neve, sem nem mesmo mover o braço ou a perna.
Depois os lobos a devoraram.
E os pássaros fizeram seus ninhos com a lã do colchão despedaçado.
Eu guardei aquela triste ossada.E faço votos de que nossos filhos não vejam jamais uma guerra."

( Trecho de "A Louca" - 125 contos de Guy de Maupassant )

quarta-feira, 12 de maio de 2010

do conto breve e seus arredores

"Há a massa que é o conto, há a angústia e a ansiedade e a maravilha,porque as sensações e os sentimentos também se contradizem nesses momentos ,escrever um conto assim é simultaneamente terrível e maravilhoso,há um desespero exaltante,uma exaltação desesperada; é agora ou nunca,e o temor de que pode ser nunca exarceba o agora , faz dele máquina de escrever correndo a todo teclado , esquecimento da circunstância , abolição do circundante .Então a massa negra vai clareando à medida que se avança ,incrivelmente as coisas são de uma extrema facilidade como se o conto já estivesse escrito com uma tinta invisível e a gente lhe passasse um pincelzinho em cima para despertá-lo . Escrever um conto assim não dá nenhum trabalho, absolutamente nenhum; tudo aconteceu antes e esse antes que se deu num plano onde " a sinfonia se agita na profundeza", para dizer a Rimbaud, foi o que provocou a obsessão , o coágulo abominável a ser arrancado com safanões de palavras.E por isso, porque tudo está decidido numa região que diurnamente me é alheia ,nem sequer o arremate do conto apresenta problemas,sei que posso escrever sem interrupções ,vendo se apresentarem e se sucederem os episódios e que o desenlace está tão incluído no coágulo inicial quanto o ponto de partida."

( Do conto e seus arredores - Julio Cortazar - Último Round - Tomo I )

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Memórias do subsolo

"Deixai-nos sozinhos,sem um livro,e imediatamente ficaremos confusos,vamos perder-nos;não saberemos a quem aderir , a quem nos ater, o que amar e o que odiar,o que respeitar e o que desprezar.Para nós é pesado,até,ser gente com corpo e sangue autênticos,próprios;temos vergonha disso,consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser uns homens gerais que nunca existiram."

Memórias do subsolo - Fiódor Dostoiévski

quinta-feira, 11 de março de 2010

Crime e Castigo

" Ela não pôde ir além em sua leitura,fechou o livro e levantou-se rapidamente:
- Acabou a ressureição de Lázaro - murmurou gravemente.Ficou imóvel,sem ousar lançar um olhar a Raskólnikov . Seu tremor febril durava sempre. O coto da vela acabava de consumir-se no castiçal torcido e iluminava fracamente aquele cômodo miserável,onde um assassino e uma prostituta se haviam tão estranhamente unido para lerem o Livro Eterno."

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

copie você mesma

"Ouça: respeite a você mais do que aos outros,respeite suas exigências,respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina o que é ruim em você - pelo amor de Deus,não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal,copie você mesma - esse é o único meio de viver."


( trecho da biografia Clarice, Benjamin Moser ).