sexta-feira, 18 de junho de 2010

Eu sou um gato - Natsume Soseki


"Rendo-me.Que aconteça o que tiver de acontecer.Não vou tentar mais me agarrar a nada.Decido não resistir e abandono nas mãos da natureza minhas patas dianteiras e traseiras,minha cabeça,meu rabo.
Aos poucos vou me sentindo tranquilo.Já não sei mais se é sufocante ou prazeroso.Não sei mais se estou dentro da água ou sobre almofadas.Não importa mais onde estou ou o que faço.Sinto-me bem.Ou melhor,não posso sequer distinguir mais se estou bem ou não.Quero destruir o sol e a lua,pulverizar céus e terras,adentrar em um estado de estranha paz.Estou morrendo.Morrendo.Morrendo obterei essa paz,só atingida por aqueles que passam para o outro mundo.Em nome de Buda,em nome de Buda.Rendo-lhe graças,rendo-lhe graças."

Eu sou um gato - Natsume Soseki

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A louca - Guy de Maupassant

" A velha governanta morrera durante o inverno.Ninguém se preocupava mais com o caso;somente eu pensava naquilo sem parar.
O que tinham feito da mulher? Ela havia escapado através dos bosques?! Haviam-na recolhido em algum lugar e posto num hospital sem que se pudesse lhe tirar nenhuma informação? Nada conseguia diminuir minhas dúvidas.Mas aos poucos o tempo apaziguou o tormento do meu coração.
Ora, no outono seguinte, as perdizes vieram em massa,e, como minha gota me dava uma folga,me arrastei até a floresta.Tinha matado já uns quatro ou cinco bichinhos, quando abati um que quase desapareceu numa vala cheia de galhos.Fui obrigado a descer lá para apanhar minha presa.Encontrei-a caída ao lado da cabeça de um morto.E bruscamente a lembrança da louca me veio ao peito como um soco. Muitos outros , talvez, tinham desaparecido naqueles bosques durante aquele ano sinistro;mas não sei por que eu tinha certeza,certeza absoluta - eu lhe garanto -, que encontrava a cabeça daquela miserável alienada.
E de súbito compreendi,adivinhei tudo.Eles a tinham abandonado sobre o colchão, na floresta gelada e deserta; e fiel à sua ideia fixa, ela se deixara morrer sob o espesso cobertor de neve, sem nem mesmo mover o braço ou a perna.
Depois os lobos a devoraram.
E os pássaros fizeram seus ninhos com a lã do colchão despedaçado.
Eu guardei aquela triste ossada.E faço votos de que nossos filhos não vejam jamais uma guerra."

( Trecho de "A Louca" - 125 contos de Guy de Maupassant )

quarta-feira, 12 de maio de 2010

do conto breve e seus arredores

"Há a massa que é o conto, há a angústia e a ansiedade e a maravilha,porque as sensações e os sentimentos também se contradizem nesses momentos ,escrever um conto assim é simultaneamente terrível e maravilhoso,há um desespero exaltante,uma exaltação desesperada; é agora ou nunca,e o temor de que pode ser nunca exarceba o agora , faz dele máquina de escrever correndo a todo teclado , esquecimento da circunstância , abolição do circundante .Então a massa negra vai clareando à medida que se avança ,incrivelmente as coisas são de uma extrema facilidade como se o conto já estivesse escrito com uma tinta invisível e a gente lhe passasse um pincelzinho em cima para despertá-lo . Escrever um conto assim não dá nenhum trabalho, absolutamente nenhum; tudo aconteceu antes e esse antes que se deu num plano onde " a sinfonia se agita na profundeza", para dizer a Rimbaud, foi o que provocou a obsessão , o coágulo abominável a ser arrancado com safanões de palavras.E por isso, porque tudo está decidido numa região que diurnamente me é alheia ,nem sequer o arremate do conto apresenta problemas,sei que posso escrever sem interrupções ,vendo se apresentarem e se sucederem os episódios e que o desenlace está tão incluído no coágulo inicial quanto o ponto de partida."

( Do conto e seus arredores - Julio Cortazar - Último Round - Tomo I )

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Memórias do subsolo

"Deixai-nos sozinhos,sem um livro,e imediatamente ficaremos confusos,vamos perder-nos;não saberemos a quem aderir , a quem nos ater, o que amar e o que odiar,o que respeitar e o que desprezar.Para nós é pesado,até,ser gente com corpo e sangue autênticos,próprios;temos vergonha disso,consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser uns homens gerais que nunca existiram."

Memórias do subsolo - Fiódor Dostoiévski

quinta-feira, 11 de março de 2010

Crime e Castigo

" Ela não pôde ir além em sua leitura,fechou o livro e levantou-se rapidamente:
- Acabou a ressureição de Lázaro - murmurou gravemente.Ficou imóvel,sem ousar lançar um olhar a Raskólnikov . Seu tremor febril durava sempre. O coto da vela acabava de consumir-se no castiçal torcido e iluminava fracamente aquele cômodo miserável,onde um assassino e uma prostituta se haviam tão estranhamente unido para lerem o Livro Eterno."

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

copie você mesma

"Ouça: respeite a você mais do que aos outros,respeite suas exigências,respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina o que é ruim em você - pelo amor de Deus,não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal,copie você mesma - esse é o único meio de viver."


( trecho da biografia Clarice, Benjamin Moser ).

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

o livro dos abraços


"Nos antigamentes,dom Verídico semeou casas e gentes em volta do botequim El Resorte,para que o botequim não se sentisse sozinho.Este causo aconteceu,dizem por aí,no povoado por ele nascido.
E dizem por aí que ali havia um tesouro,escondido na casa de um velhinho todo mequetrefe.
Uma vez por mês,o velhinho,que estava nas últimas,se levantava da cama e ia receber a pensão.
Aproveitando a ausência,alguns ladrões,vindos de Montevidéu,invadiram a casa.
Os ladrões buscaram e buscaram o tesouro em cada canto. A única coisa que encontraram foi um baú de madeira,caberto de trapos,num canto do porão.O tremendo cadeado que o defendia resistiu,invicto,ao ataque das gazuas.
E assim,levaram o baú.Quando finalmente conseguiram abri-lo,já longe dali,descobriram que o baú estava cheio de cartas.Eram as cartas de amor que o velhinho tinha recebido ao longo de sua longa vida.
Os ladrões iam queimar as cartas.Discutiram.Finalmente,decidiram devolvê-las.Uma por uma.Uma por semana.
Desde então,ao meio-dia de cada segunda feira,o velhinho se sentava no alto da colina.E lá esperava que aparecesse o carteiro no caminho.Mal via o cavalo,gordo de alforjes,entre as árvores,o velhinho desandava a correr.O carteiro que já sabia,trazia sua carta nas mãos.
E até São Pedro escutava as batidas daquele coração enlouquecido de alegria por receber palavras de mulher."

( causos/2 - do livro "o livro dos abraços" de Eduardo Galeano )

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll


"Sim,íamos à escola no mar,embora você talvez não acredite.."
"Nunca falei que não acredito!",interrompeu Alice.
"Falou sim", disse a Tartaruga Falsa.
"Cale-se!",acrescentou o Grifo,antes que Alice pudesse falar de novo.A Tartaruga Falsa continuou.
"Tivemos a melhor das educações...na verdade,íamos à escola todos os dias..."
"Eu também já frequentei uma escola diária",disse Alice."Não precisa se orgulhar tanto disso."
"Com extras?",perguntou a Tartaruga Falsa,um pouco ansiosa.
"Sim",disse Alice,"estudávamos francês e música."
"E lavagem?", disse a Tartaruga Falsa.
"Claro que não!",disse Alice indignada.
"Ah! Então a sua escola não era realmente boa",disse a Tartaruga Falsa, num tom de grande alívio."Na nossa,eles tinham,no final do boletim,francês,música e lavagem-extra".
"Vocês não deviam precisar muito disso",disse Alice,"vivendo no fundo do mar."
"Eu não tinha os meios para fazer esse curso",disse a Tartaruga Falsa com um suspiro."Só fiz o curso regular."
"E qual era o curso regular?",perguntou Alice.
"Lerdear e Esquivar,para início de conversa",respondeu a Tartaruga Falsa,"e depois os diferentes ramos da Aritmética - Ambição, Distração,Amiudação e Derrisão".
"Nunca ouvi falar de 'Amiudação'",Alice se arriscou a dizer."O que é?"
O Grifo levantou as duas patas surpreso.
"Nunca ouviu falar de amiudar!",exclamou.
"Você sabe o que significa agrandar,não?"
"Sim",disse Alice em tom de dúvida."Significa...tornar...algo...maior".
"Bem, nesse caso",continuou o Grifo,"se não sabe o que é amiudação,você é uma pateta".

( trecho da conversa entre Alice,o Grifo e a Tartaruga Falsa - Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll )

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Na praia - Ian McEwan


"Quando pensava nela,parecia-lhe surpreendente que tivesse deixado aquela garota com seu violino ir embora.Agora,é claro,via que a proposta recatada que ela lhe fizera era totalmente irrelevante.Tudo aquilo que ela precisava era da certeza do amor dele,e da sua garantia de que não havia pressa,pois tinham a vida pela frente.Amor e paciência - se pelo menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo - certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades.E que dizer das crianças que poderiam ter tido,e da menininha com um arco no cabelo que poderia ter se tornado sua filha querida?É assim que todo o curso de uma vida pode ser desviado - por não se fazer nada.Na praia de Chesil,ele poderia ter gritado o nome de Florence,poderia ter ido atrás dela.Ele não sabia,ou não teria querido saber,que,enquanto ela fugia,certa na sua dor de que o estava perdendo,nunca o amara tanto,ou mais desesperadamente,e que o som da voz dele teria sido seu resgate,e que ela teria voltado atrás.Em vez disso,ele permaneceu num silêncio frio e honrado,na penumbra do verão, a observá-la em sua precipitação ao longo da orla,o som do seu avanço difícil perdendo-se entre o das pequenas ondas a quebrar na praia,até ela ser apenas um ponto borrado,desaparecendo na estrada estreita e infinita de seixos brilhando sob a luz pálida."

( Na Praia - Ian McEwan )

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cemitério de Pianos - José Luiz Peixoto


"_ Em princípio, telefonamos ainda hoje.Telefonamos logo que o seu marido falecer."
Foi assim que a enfermeira disse.Sem reparar talvez que a minha mulher já não era ninguém.Sem reparar que as palavras que lhe dizia se perdiam sem eco dentro da sua escuridão.
Ás nove horas da noite,o telefone tocou.O telefone tocou durante um momento que foi muito longo,porque ninguém o queria atender,porque todos tinham medo de o atender.O telefone tocou.O som atravessou a casa e o peito da minha mulher,da Maria e do Francisco.Quem atendeu foi o marido da Maria.
_Sim,sim.Está bem.Eu digo - Aproximou-se dos meus filhos e da minha mulher e disse-lhes.
O Hermes tinha acabado de nascer.
As palavras foram:
_Nasceu o menino da Marta.
O Hermes tinha acabado de nascer.
No hospital, A Marta estava a descansar.E ninguém sabia como ficar feliz,mas a felicidade era tão forte e crescia de dentro deles.Era como se tivessem uma nascente de água no peito e a felicidade fosse essa água.Houve um milagre que fez lágrimas.E tinham as mãos pousadas sobre o peito.Tinham as pálpebras fechadas muito devagar sobre os olhos para sentirem a chuva branda dessa felicidade que os cobria,inundava.
Passou uma hora.O telefone tocou de novo.
Eu tinha acabado de morrer.

( passagem narrada pelo personagem Lázaro - Cemitério de Pianos - José Luiz Peixoto )