terça-feira, 14 de novembro de 2023

JOHNNY PANIC E A BÍBLIA DOS SONHOS - SYLVIA PLATH



 "O que mais temo,acho, é a morte da imaginação. Quando o céu lá fora é apenas cor-de-rosa, e os telhados apenas pretos: a mente fotográfica que paradoxalmente diz a verdade sobre o mundo, mas só a verdade que não tem valor . O que eu desejo é o espírito da síntese, aquela força "modeladora" que brota abundante e cria seus próprios mundos com mais inventividade que Deus.

Se fico quieta, sem fazer nada, o mundo continua pulsando como um tambor gasto, sem sentido. É preciso continuar em movimento, trabalhando, criando sonhos para correr atrás; só imaginar a miséria da vida sem sonhos já é horrível demais: é o pior tipo de loucura: a loucura das fantasias e alucinações seria um alívio digno de Bosch. Sempre presto atenção aos passos que vêm subindo a escada, e os odeio quando não são para mim. Por que, por que não consigo ser ascética por um tempo, em vez de ficar sempre oscilando entre o desejo pela completa solidão para trabalhar e ler e a vontade tão grande , tão grande, e ter os gestos das mãos e as palavras de outros seres humanos? Bem, depois desse trabalho sobre Racine, do purgatório de Ronsard, do Sófocles, eu vou escrever: cartas e prosa e poesia, mais para o fim da semana; até lá preciso ser estoica."

sexta-feira, 7 de abril de 2023

PASTORAL AMERICANA - PHILIP ROTH


 "Combatemos nossa superficialidade , nossa falta de profundidade , de modo a tentarmos nos aproximar dos outros livres de expectativas irreais, sem uma sobrecarga de preconceitos , esperanças, arrogância , da forma menos parecida com o avanço de um tanque, sem canhão, sem metralhadoras e sem chapas de aço de quinze centímetros de espessura; a gente se aproxima das pessoas da forma menos ameaçadora , de pés descalços, em vez de vir rasgando o capim com as esteiras do trator, recebe o que elas dizem  com a mente aberta, como iguais, de homem para homem, como dizíamos antigamente, e mesmo assim a gente sempre acaba entendendo mal as pessoas. A gente pode também possuir o cérebro de um tanque. Já estamos entendendo errado as pessoas antes mesmo de encontrá-las, enquanto ainda estamos prevendo o que vai acontecer; entendemos errado enquanto estamos diante delas; e depois vamos para casa e contamos a alguém sobre o encontro, e de novo entendemos tudo errado.

Uma vez que a mesma coisa acontece com os outros em relação a nós, tudo vira uma ilusão desnorteante, destituída de qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensões . E, com tudo isso, o que é que vamos fazer a respeito dessa questão profundamente significativa que  são as outras pessoas, que se veem drenadas de toda a significação que julgamos ser a delas e adquirem, em vez disso, um significado burlesco, o que vamos fazer se estamos tão mal equipados para distinguir os movimentos interiores e os propósitos invisíveis uns dos outros? Será que todo mundo devia trancar a porta de casa e ficar quieto, isolado, como fazem os escritores solitários, em uma cela a prova de som, invocando as pessoas por meio de palavras e depois sugerindo que essas pessoas feitas de palavras estão mais próximas das coisas reais do que as pessoas reais que deturpamos todos os dias com a nossa ignorância? Persiste o fato de que entender direito as pessoas não é uma coisa própria da vida, nem um pouco. Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo e cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos : estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso...bem, boa sorte."

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

BELEZA E TRISTEZA- YASUNARI KAWABATA


"Na época em que se deitava com ele, Otoko não se preocupava com pelos nas axilas nem com a existência de tais coisas. Teria perdido o senso de realidade? Hoje, com Keiko, sentia-se mais livre, tendo criado um ousado erotismo para uma mulher de meia-idade. Espantou-se ao perceber que nesse período de solidão, desde a separação aos dezessete anos até ser tocada pela aluna, havia amadurecido. Temia que, se fosse tocada por um homem, em lugar de Keiko, ruiria aquilo que protegia no fundo de seu coração: a imagem sagrada de seu amor por Oki.
 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

A CASA DOS BUDAS DITOSOS - JOÃO UBALDO RIBEIRO

 


"Penso principalmente nas mulheres, gostaria que as mulheres , ao tempo que se tornassem mais ousadas, se tornassem também mais abertas, mais compreensivas, deixassem de ser tão mulheres, por assim dizer. E gostaria de um mundo de sacanagem sem problemas, é dificílimo , mas não é impossível em certos casos. Quero que as mulheres fiquem excitadas, se identifiquem comigo, queiram me comer e comer todo mundo que nunca se permitiram saber que queriam comer , quero criar um clima de luxúria e sofreguidão. De noite, sozinha, isso acontece.Às vezes por causa de um drinque , um baseado, uma música, uma foto, uma coisa qualquer que altere ou provoque a consciência. Ás vezes, aparentemente por nada. Mas todas as mulheres- todos os homens, mas agora quero falar de mulheres- já sentiram e sentem um momento em que são puramente sexo por todos os lados e ficam com medo de si mesmas e se descontrolam e compreendem tudo sobre sexo e querem tudo, é uma sensação avassaladora de absoluta sexualidade, um momento em que a sacanagem toma conta de tudo e ela se sente fêmea, devassa, puta, ela faria tudo, tudo, ela quer foder, ela quer fazer tudo! Toda mulher que não dá a bunda sente vontade de também dar a bunda nessas horas, toda mulher que nunca deixou gozarem em sua boca sente vontade de chupar um pau até que ele  esguiche forte em sua boca , toda mulher assim limitada sai desses limites nessas horas, finge que não tem problemas. Todas iguais."

 

sexta-feira, 8 de abril de 2022

SUL DA FRONTEIRA, OESTE DO SOL - HARUKI MURAKAMI

 

 _"Hajime- disse Shimamoto. - Você pode tirar a roupa pra eu ver o seu corpo?

_ Tirar a roupa?

_É. Primeiro você tira toda a roupa. E eu vou olhar o seu corpo nu. Você acha ruim?

_Não, tudo bem. Se é o que você quer- falei.

Me despi diante do aquecedor. Tirei a jaqueta de náilon, a camisa polo, a calça jeans, as meias, a camiseta, a cueca. Quando fiquei nu, Shimamoto me fez ajoelhar no chão. Meu pênis ereto e rígido me deixou constrangido. Ela ficou olhando meu corpo, um pouco afastada. Não havia despido nem o blazer.

_ Acho meio esquisito só eu ficar pelado desse jeito- falei, rindo.

_Você é lindo, Hajime- disse ela. Ela se aproximou de mim, envolveu meu pênis delicadamente com os dedos e beijou minha boca. Depois, tocou meu peito. Dedicou muito tempo a lamber meus mamilos, tocar meus testículos na boca. Beijou todo o meu corpo. Até a sola dos meus pés. Era como se ela estivesse acariciando o próprio tempo. Como se fosse o tempo aquilo que ela tocava, sugava, lambia.

_ Você não vai tirar a roupa?- perguntei.

-Depois- disse ela- Quero ficar mais um pouco assim, vendo seu corpo, te acariciando, beijando, o quanto eu quiser. Se eu tirar a roupa você vai querer tocar em mim, não vai? Mesmo se eu disser que ainda não é hora, não acho que você vai aguentar...

_Acho que não.

_Não quero que isso aconteça. Não quero ter pressa. Já demorou tanto pra gente chegar até aqui. Primeiro eu quero ver todo o seu corpo com estes olhos, tocá-lo inteiro com estas mãos, lambê-lo inteiro com esta língua. Quero me certificar de que é tudo real. Não vou conseguir continuar se não fizer isso antes. Se eu fizer alguma coisa esquisita, não liga, tá Hajime? Eu estou fazendo assim porque eu preciso. Então não fala nada.

_Eu não me incomodo. Pode fazer o que você quiser, o quanto quiser. Só é um pouco esquisito ser observado assim, tão intensamente.

_Bom, você não é meu?

_Sou.

_Então não precisa ficar com vergonha.

-É verdade-falei-Acho que não estou acostumado, só isso.

_Tenha só mais um pouco de paciência. Faz muito tempo que eu sonho em fazer isso- disse Shimamoto.

_Você sonha em olhar meu corpo desse jeito? Ficar de roupa me olhando e tocando assim, nu?

-É- respondeu Shimamoto.- Eu sempre imaginei o seu corpo. Ficava pensando como ele era. Como será seu pinto, quão grande e duro ficaria...

_Por que você pensava nessas coisas?

_Por quê? - disse ela- Por que você pergunta isso? Eu não disse que te amo? Qual o problema de imaginar o homem que eu gosto nu? Você nunca pensou em mim nua?

_Acho que sim.

_Nunca se masturbou imaginando meu corpo nu?

_Acho que sim.Quando era adolescente- falei. Em seguida me corrigi.- Quer dizer, não só na adolescência. Fiz isso outro dia.

_Eu fazia a mesma coisa. Imaginando você nu. As mulheres também fazem essas coisas, sabia?- disse ela.

Eu a abracei novamente e a beijei devagar. Sua lingua se esgueirou para dentro da minha boca.

_Te amo, Shimamoto.

_Te amo, Hajime- disse Shimamoto- Eu nunca amei ninguém além de você. Posso ficar te olhando mais um pouco?

-Pode-falei.

_Que maravilha- disse ela.- Eu podia comer tudinho.

_Se você comesse seria meio chato- falei.

-Mas eu queria- disse ela. Ficou com os meus testículos apoiados na palma da mão por muito tempo, como se quisesse verificar seu peso, e chupou me pênis devagar, cuidadosamente. Depois ergueu os olhos para o meu rosto. -Da primeira vez , posso fazer do jeito que eu quiser?

-Pode. Faz tudo o que você quiser- falei.- desde que você não coma de verdade, fique á vontade.

- Vai ser um pouco estranho, não liga, tá? Não fala nada.

-Não vou falar.

Eu ainda estava ajoelhado no chão. Ela envolveu minha cintura com o braço esquerdo e, com a outra mão, tirou a meia-calça e a calcinha, sem tirar o vestido. Segurou o meu pênis e meus testículos com a mão direita e correu a língua sobre eles. Depois colocou a mão por baixo do próprio vestido. E, enquanto me chupava, foi movendo devagar essa mão.

Eu não falei nada. Cada um tem seu jeito de fazer as coisas. Fiquei vendo seus lábios, sua língua, e os movimentos lentos de sua mão sob a saia.

Estendi a mão e afaguei o cabelo de Shimamoto. Toquei sua orelha, pousei a mão sobre usa testa. Seu corpo estava quente e macio. Ela continuava chupando meu pênis, como se quisesse sugar a vida em si. Sua mão acariciava seu sexo, sob a saia, como se quisesse transmitir alguma mensagem. Pouco depois, eu gozei  dentro de sua boca e ela parou de mover a mão e fechou os olhos. Sugou até a última gota do meu sêmen.

_Desculpa- disse ela.

_Você não tem por que se desculpar.

_Eu queria fazer assim, da primeira vez- disse ela- Fico com vergonha, mas não ia me acalmar enquanto não fizesse isso. Era como um ritual para nós dois. Entende?

Eu a abracei e enconstei meu rosto no seu. O calor da sua pele era inquestionável. Ergui seu cabelo e beijei sua orelha. E então olhei dentro dos seus olhos.Pude ver o reflexo do meu rosto.

_Agora você tira a minha roupa? E, dessa vez, faz do jeito que você quiser, eu fiz do jeito que eu queria, agora você pode fazer o que tiver vontade.

_O que eu quero é bem normal, pode ser? Talvez me falte imaginação...- falei.

-Tudo bem- disse Shimamoto- Eu gosto do normal também.

Tirei seu vestido e sua roupa de baixo. Então a deitei no chão e beijei todo o seu corpo. Olhei todo ele, dos pés á cabeça, toquei-o com as mãos e com a boca. Conferi e guardei na memória cada parte dele. Dediquei muito tempo a isso, sem pressa. Nós havíamos demorado tantos anos para chegar até ali. Assim como ela, eu não queria correr.

Aguentei o máximo que pude e, quando não pude mais segurar, a penetrei devagar.


Abracei-a com força, recebendo seu tremor no meu corpo. Daquela maneira, ela se tornava minha, pouco a pouco. Eu não podia mais me afastar dali."

 

 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

LIVRO DE RECEITAS PARA MULHERES TRISTES - HÉCTOR ABAD


"Você se acha feia? Desculpe, mas acho que, na verdade, você está mal informada. Deveria saber que existe uma coisa chamada artes plásticas. O que essas artes permitem produzir é tão maravilhoso que há milênios é cultivado, cuidado, conservado pelos homens. Trata-se da memória, a memória daquilo de que gostamos. Pedras entalhadas, vasos com desenhos, pinturas, telas, muros, esculturas, e mais recentemente fotos e filmes. E o que mais há nisso tudo são imagens de mulheres. Olhe bem e repare que, seja você como for, será uma beleza para alguém.
Quando você diz que é feia, quer dizer que sua beleza hoje não está na moda. O que não significa que não haja quem a admire , pois ainda existe gente de caráter, que não julga conforme os modelos do ambiente mas com os olhos, com os seus próprios olhos.
Você pode não saber, mas há um homem perdendo o sono e a fome por sua causa. Ele só viu você uma vez, mas é como se sempre tivesse à sua procura  e, num momento de deslumbramento, ao avistá-la, afinal a tivesse encontrado. Como por efeito de uma memória ancestral, ele reconhece seu rosto e vê que era você, só você, quem ele tanto procurava. Você pode não saber, mas em algum canto do planeta há um homem à sua procura."

 

Relatos de um gato viajante- HIRO ARIKAWA

 



"Escuta, Satoru, o que é que tem no fim esse campo? Mais coisas maravilhosas?

Será que vamos viajar juntos outra vez?

Satoru  abriu um sorriso e me pegou no colo, para eu poder enxergar até o horizonte na mesma altura dos seus olhos.

Puxa...vimos muitas, muitas coisas mesmo.

A cidade onde Satoru cresceu,

Os campos onde tremulam as plantações de arroz,

O mar, assustador com seu rugido estrondoso, 

O monte Fuji, que parece vir pra cima da gente, 

A televisão quadrada, tão boa de deitar em cima,

Momo, a gata madura e elegante,

Toramaru, o cachorro de peito tigrado, insolente e obstinado,

A gigantesca balsa branca que engole muitos e muitos carros,

Os  cachorros da sala de animais que balançam o rabo para animar Satoru,

O gato persa desbocado que me desejou good luck,

As terras vastas e planas de Hokkaido, estendendo-se até onde a vista alcança,

As flores lilases e amarelas que crescem vigorosas ao longo da estrada,

Os campos de capim que parecem um mar,

Os cavalos pastando,

Os frutos muito vermelhos das soveiras,

Os vários tons de vermelho que Satoru me ensinou a enxergar, 

As delgadas bétulas brancas,

O cemitério amplo e fresco,

Os buquês da cor do arco-íris que deixamos lá,

os corações brancos do traseiro dos veados,

O enorme, bem enorme arco-íris duplo desenhado no céu, com os dois pés fincados no chão,

E, acima de tudo, os sorrisos das pessoas queridas."




domingo, 14 de março de 2021

O MUSEU DA INOCÊNCIA - ORHAN PAMUK

 


" Era o momento mais feliz da minha vida, mas eu não sabia. Se soubesse. se tivesse dado o devido valor a essa dádiva, tudo teria acontecido de outra maneira ? Sim, se eu tivesse reconhecido aquele momento de felicidade perfeita, teria agarrado com força e nunca deixaria que me escapasse. Levou alguns segundos, talvez, para aquele estado luminoso tomar conta de mim, mergulhando-me na paz mais profunda, mas ele me pareceu ter durado horas, até mesmo anos. Naquele momento, na tarde de segunda-feira, 26 de maio de 1975, em torno das quinze para as três, assim como nos sentíamos além do pecado e da culpa, o mundo todo parecia ter sido liberado da gravidade e do tempo. Beijando o ombro de Füsun, já úmido com o aquecimento do nosso amor, eu a penetrei delicadamente por trás, e enquanto mordia de leve sua orelha , seu brinco deve ter se soltado e, pelo que nos pareceu, pairado em pleno ar antes de cair por vontade própria. Nosso prazer era tão profundo que continuamos a nos beijar, ignorando a queda do brinco, cuja forma eu nem sequer tinha percebido."



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

TODAS AS CORES DO CÉU - AMITA TRASI


"Quando o táxi parou, Tara abriu a porta para um mundo que eu nunca vira antes. Era a Biblioteca Asiática, explicou ela. Eu não sabia o que era uma biblioteca, mas, quando vi aquela estrutura e os vários degraus que levavam até ela, entendi que se tratava de um templo - um templo para livros. Aquela presença era muito imponente, com a tinta branca refletindo ao sol. Fiquei parada ao pé da escadaria, observando aquela estrutura diante de mim, estupefata com a peça que meus olhos pregavam. Tara segurou minha mão e me conduziu escada acima. Seu repentino toque, seu calor sem qualquer aviso, me surpreendeu.

O cheiro lá dentro era de mofo, mas não me importei. Idosos se debruçavam sobre jornais locais, e uma escadaria em espiral levava a mais livros. Eu me fazia perguntas enquanto olhava para aqueles livros, tentando distribuir um tesouro de experiências. Como eu desejava juntar aqueles pensamentos para mim! Abri um livro e acariciei as letras das páginas, perguntando-me sobre a força daquelas palavras que havia feito com que construíssem um templo para elas.

Não prestei muita atenção quando Sahib apontou para as estátuas de mármore, explicando cada uma delas para Tara, contando sobre a moeda rara de outro que pertencia ao imperador Akbar. Um profundo desejo de ser capaz de ler brotou no meu coração, exatamente como naquele dia em que Amma e eu caminhamos pela aldeia e ela me mostrou a escola pela primeira vez. Eu não conseguia acreditar que tinha permissão de ver um lugar tão grandioso quanto aquele."

 

domingo, 19 de abril de 2020

CRIME E CASTIGO - FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

"Ocorre-nos, ás vezes, encontrar pessoas, geralmente desconhecidas, que nos inspiram um interesse instantâneo, á primeira vista, antes mesmo que possamos trocar uma palavra com elas. Foi o que se deu com Raskólnikov, com relação ao sujeito que se sentava ao lado, parecendo um funcionário aposentado."

quinta-feira, 26 de março de 2020

DE AMOR E TREVAS - AMÓS OZ


"A única coisa que tínhamos em abundância eram livros. Incontáveis, de parede a parede, no corredor, na cozinha, na entrada e em todos os peitoris. Milhares de livros em todos os cantos da casa. Havia um sentimento de que as pessoas vão e vem, nascem e morrem, mas os livros são eternos. Quando eu era pequeno, queria ser livro quando crescesse. Não escritor de livros, livro mesmo. Gente se pode matar como formigas. Escritores também não são tão difíceis de matar. Mas livros, mesmo se os destruirmos metodicamente, "sempre há chance de sobrar algum, nem que seja apenas um exemplar, a continuar sua vida de prateleira, eterna, discreta e silenciosa em uma estante esquecida de alguma biblioteca remota em Reykjavik , em Valladolid ou em Vancouver.
Aconteceu por duas ou três vezes de não termos dinheiro para comprar os mantimentos para o shabat. Então minha mãe fitava meu pai bem nos olhos, e ele compreendia que era chegada a hora da escolha e se aproximava da estante de livros. Era um homem de sólidos princípios morais e sabia que o pão devia preceder os livros e que o mais importante de tudo devia ser o cuidado com o filho. Lembro-me bem de suas costas curvadas ao sair de casa, levando três ou quatro dos seus queridos livros. Com o coração apertado, ele ia á loja do sr Meyer vender alguns exemplares valiosos como se os cortasse de sua própria carne. Assim curvadas certamente estavam as costas de Abraão ao sair de sua tenda de madrugada, carregando Isaac no ombro a caminho do monte Moriá.
Eu podia adivinhar seu sofrimento:meu pai tinha uma relação sensual com os livros. Gostava de apalpar, sentir, folhear, acariciar, cheirar. Era um insaciável caçador de livros, ia logo pegando e folheando, mesmo na biblioteca de desconhecidos. E a verdade é que os livros daquele tempo eram muito mais sensuais que os de hoje. Havia o que cheirar, e havia o que apalpar e acariciar."

sábado, 28 de dezembro de 2019

A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS DE TE VER - ROSA MONTERO


"Sim, é preciso fazer algo com a morte. É preciso fazer algo com os mortos. Depositar flores. Falar com eles. Dizer que você os ama e que sempre os amou. É melhor dizê-lo em vida,mas,se não, também pode ser depois. Gritar para o mundo. Escrever num livro como este. Pablo, que pena ter esquecido que você podia morrer, que eu podia te perder. Se tivesse essa consciência , eu teria te amado não mais, mas melhor. Teria dito a você muito mais vezes que te amava. Teria discutido menos  por besteiras. Teria dado mais risadas. Teria até me esforçado em aprender o nome de todas as árvores e reconhecer cada folhinha. Pronto. Já fiz. Já disse. Realmente conforta."





Aquele livro que você não tem pressa de terminar de ler, porque ele foi feiro para ser relido, e lido de novo a cada frase linda. Simplesmente perfeito.


sexta-feira, 16 de agosto de 2019

UMA SENSAÇÃO ESTRANHA - ORHAN PAMUK




 "Mevlut já estava em Istambul havia vinte anos. Era triste ver a velha face da cidade desaparecer diante de seus olhos, destruída por estradas novas, demolições, edifícios, cartazes, lojas, túneis e elevados, mas também era reconfortante saber que alguém ali estava trabalhando para melhorar a cidade para proveito dele, Mevlut. Ele não a via como um lugar que existisse antes da sua chegada, nem lembrava que ele fora para lá na qualidade de forasteiro. Ao contrário, gostava de imaginar Istambul em obras na época em que ele lá vivia e sonhar como no futuro ela haveria de ser mais limpa, bonita e moderna. Simpatizava com os moradores de edifícios históricos de elevadores de cinquenta anos, aquecimento central e pé-direito alto, construídos enquanto ele ainda estava na aldeia ou nem tinha nascido, e nunca se esquecia de que eles o tratavam com condescendência , mesmo que não tivessem essa intenção, o que sempre o arrepiava ante a perspectiva de cometer um novo erro. Mas ele tinha apreço por coisas antigas: descobrira ao vender boza em bairros distantes, ao entrar em cemitérios,ao observar o muro de uma mesquita coberto de musgo e a ininteligível escrita otomana num chafariz quebrado, com suas torneiras de latão há muito secas.
   Ás vezes pensava o quanto arruinava  suas costas até hoje, só para tocar a vida com a venda de arroz( que na verdade pouco lhe rendia), enquanto todos à sua volta , todos oriundos de outro lugar estavam ficando ricos, comprando propriedades , construindo a própria casa no próprio terreno, mas nesses momentos ele dizia a si mesmo que seria ingratidão de sua parte desejar mais que a felicidade que Deus já lhe concedera. E vez por outra avistava as cegonhas voando lá em cima e se dava conta de que as estações iam passando, outro inverno chegando ao fim, e ele estava envelhecendo."

 

domingo, 7 de julho de 2019

Maria dos Prazeres - Gabriel Garcia Márquez


"Maria dos Prazeres havia conhecido muitos homens como aquele, salvara do suicídio muitos outros mais atrevidos que aquele , mas nunca em sua longa vida tivera tanto medo de decidir. Ouviu-o insistir sem o menor indício de mudança na voz:
_Subo?
Ela afastou-se sem fechar a porta do automóvel e respondeu em castelhano para ter certeza de ser entendida.
_Faça o que quiser.
Entrou no saguão mal iluminado pelo resplendor oblíquo da rua e começou a subir o primeiro trecho da escada com os joelhos trêmulos , sufocada por um pavor que só acreditava possível no momento de morrer. Quando parou na frente da porta do apartamento , tremendo de ansiedade para encontrar as chaves na bolsa, ouviu a batida sucessiva das duas portas do automóvel na rua. Noi, que havia se adiantado, tentou latir. "Calado", ordenou ela com um sussurro de agonia. Quase em seguida sentiu os primeiros passos nos degraus soltos da escada e temeu que seu coração fosse arrebentar . Numa fração de segundo voltou a examinar por completo o sonho premonitório que havia mudado sua vida durante três anos e compreendeu o erro de sua interpretação.
"Deus meu", disse assombrada. "Quer dizer que não era a morte!"
Encontrou finalmente a fechadura, ouvindo a respiração crescente de alguém que se aproximava tão assustado quanto ela no escuro, e então compreendeu que havia valido a pena esperar tantos e tantos anos, e haver sofrido tanto na escuridão, mesmo que tivesse sido só para viver aquele instante."


Maio de 1979.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

FORMAS DE VOLTAR PARA CASA - ALEJANDRO ZAMBRA




"Na época não sabíamos os nomes das árvores ou dos pássaros. Não era necessário. Vivíamos com poucas palavras e era possível responder a todas as perguntas dizendo: não sei. Não achávamos que isso fosse ignorância. Chamávamos de honestidade. Depois aprendemos , pouco a pouco, os matizes. Os nomes das árvores, dos pássaros, dos rios. E decidimos que qualquer frase era melhor que o silêncio".

domingo, 26 de agosto de 2018

LONGE DA ÁGUA - MICHEL LAUB



"O que eu sentia naquela época, muita gente estaria pronta para dizer, é coisa da idade. O que eu sentia em relação a Jaime, muita gente ficaria aliviada em dizer, faz parte de qualquer formação. Não há ninguém que escape disso, sempre há uma primeira vez, o dia em que sua vida toma rumos inesperados por causa de outra pessoa, em que os sentidos passam a ser outros, em que toma um caminho sem volta , mesmo que seja um caminho torto , na qual a amizade se transforma em desconforto , e a admiração se transforma em inveja, e o resto do que está dentro de você se transforma em rancor e em ódio e vingança. Não é fácil admitir, há entraves de toda ordem para que você aceite nomear com todas as letras o que está na sua frente, como estava na minha frente quando Jaime me olhou: era como se naquele momento ele soubesse, como se por intuição ele adivinhasse o que significaria depender de mim ali, no mar de Albatroz."


segunda-feira, 21 de maio de 2018

LEONARDO DA VINCI - WALTER ISAACSON




"Ao longo da carreira, Leonardo se aprofundou nos estudos sobre óptica, luz e sombra. Em um trecho de caderno, ele fez uma análise que bate perfeitamente com a forma como fez a luz banhar o rosto de Lisa:

"Quando for pintar um retrato, faça-o quando o tempo estiver encoberto ou no final do dia. Preste atenção nas ruas no final do dia e quando o tempo está encoberto e perceba quanta beleza pode haver no rosto de homens e mulheres."


sábado, 30 de dezembro de 2017

A MORTE DO PAI - KARL OVE KNAUSGARD


"Quando sua perspectiva de mundo se amplia, não mitiga a dor que acarreta, mas também o sentido dessa dor. Compreender o mundo requer que se mantenha uma certa distância dele. Ampliamos aquilo que é pequeno demais para ser visto a olho nu, como moléculas e átomos, enquanto minimizamos grandezas como formações de nuvens , deltas de rios, constelações.Somente ao trazer as coisas para a dimensão dos nossos sentidos é que somos capazes de fixá-las . E a essa fixação chamamos conhecimento. Ao longo de toda a infância e juventude lutamos para manter a distância adequada das coisas e dos fenômenos . Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. E aí um dia chegamos ao ponto em que todas as distâncias de que necessitamos foram determinadas, todos os sistemas de que necessitamos foram estabelecidos. É quando o tempo começa a passar mais rápido. Ele não encontra mais obstáculos, tudo está determinado, o tempo se esvai pela nossa vida, a vida passa num piscar de olhos,e, antes que nos demos conta do que está acontecendo, completamos quarenta, cinquenta,sessenta anos...Sentido requer conteúdo, conteúdo requer tempo, tempo requer resistência. Conhecimento é distância, conhecimento é deixar-se estar e é inimigo do sentido. A imagem que tenho do meu pai naquele entardecer de 1976 é, em outras palavras, dupla: por um lado, vejo-o como o vi daquela vez, com os olhos de um menino de oito anos: imprevisível e assustador, por outro lado o vejo como a um igual, cujo tempo de vida está sendo arrancado em grandes nacos, que carregam com eles o sentido da existência."



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

1Q84 LIVRO 3 - HARUKI MURAKAMI


"Ao desligar o telefone, Ushikawa debruçou-se sobre a mesa e parou para refletir. Ele desconhecia os métodos que Morcego utilizava para obter informações . Ele sabia que essa era uma pergunta que não teria resposta. Em todo caso, era de supor que lançasse mão de métodos ilegais. Possivelmente subornava funcionários ou, em último caso, apelava para a invasão. Se a investigação envolver a necessidade de acessar computadores, a situação se torna ainda mais complexa.
Ainda são poucas as repartições públicas e empresas privadas que utilizam o computador para armazenar dados. É caro e trabalhoso. Mas as organizações religiosas que atuam em nível nacional certamente possuem recursos para implantá-los. Ushikawa não sabe quase nada de computadores, mas está ciente de que estão se tornando ferramentas imprescindíveis para armazenar informações. Frequentar a Biblioteca Nacional da Dieta e ficar o dia inteiro procurando informações em microfilmes de jornais e anuários será coisa do passado. O mundo se tornará um sangrento campo de batalha entre o gerente de computação e o hacker. Não. O termo correto não é exatamente sangrento . Apesar de, no campo de batalha, sempre se derramar um pouco de sangue. Mas, nesse caso, o sangue não tem cheiro. Um mundo estranho. Ushikawa preferia um mundo em que a existência de cheiros e da dor fossem perceptíveis. Ainda que, em determinadas situações , elas se tornem insuportáveis. Mas um tipo como Ushikawa , sem dúvida, muito em breve se tornaria obsoleto."




1984 e a previsão do futuro. :)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

1Q84 - HARUKI MURAKAMI

"1Q84 - É assim que vou chamar esse mundo novo", decidiu Aomame. "Com a letra Q", de Question mark ; um "quê" de dúvida, de interrogação".

Enquanto caminhava, balançava a cabeça como se reafirmasse a sua decisão.
Querendo ou não, ela agora se encontrava nesse "1Q84". O ano e 1984 que ela conhecia deixara de existir . Agora estava em 1Q84. Houve uma mudança no ar, uma mudança no cenário. Precisava se adaptar o mais rápido possível às regras desse mundo novo com esse quê de interrogação . Precisava agir como um animal solto numa floresta desconhecida: para se proteger e conseguir sobreviver, tinha de conhecer o quanto antes o local, e se adaptar rapidamente às novas regras."