quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Amores Difíceis - Ítalo Calvino

" Stefania compreendeu que acontecera algo e ela não podia mais voltar atrás. Este seu novo modo de ficar no meio dos homens, o notívago, o caçador, o operário, a tornara diferente. Tinha sido este o seu adultério, este ficar sozinha no meio deles, assim, em pé de igualdade. De Fornero já nem se lembrava mais.
O portão estava aberto. Stefania R. entrou em casa bem ligeirinho. A zeladora não a viu."

( A Aventura de uma esposa )

" Elide lavava os pratos, examinava a casa de cima a baixo, as coisas que o marido tinha feito, sacudindo a cabeça.Agora ele estava correndo pelas ruas escuras, entre os raros faróis, talvez já estivesse depois do gasômetro. Elide ia para a cama, apagava a luz. De seu próprio lado, deitava, espichava um pé em direção ao lugar do marido, para procurar o calor dele, mas toda vez reparava que onde ela dormia era mais quente, sinal de que Arturo também havia dormido ali e isso despertava nela uma grande ternura."

( A Aventura de um esposo e uma esposa )

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um gato chamado Gatinho - Ferreira Gullar

" O gato é uma maquininha
  que a natureza inventou;
  têm pelo, bigode, unhas
  e dentro tem um motor.
  Mas um motor diferente
  desses que tem nos bonecos
  porque o motor do gato
  não é um motor elétrico.
  É um motor afetivo
  que bate em seu coração
  por isso faz ronron
  para mostrar gratidão.
  No passado se dizia
  que esse ronron tão doce
  era causa de alergia
  pra quem sofria de tosse.
  Tudo bobagem, despeito,
  calúnias contra o bichinho:
  esse ronron em seu peito
  não é doença - é carinho."

( Ronron do Gatinho , do livro Um gato chamado Gatinho de 2000 )
 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Paris é uma festa - Ernest Hemingway

"...Uma moça entrou no café e sentou-se perto da janela. Era muito bonita, com um rosto fresco como uma moeda acabada de cunhar, se é que se pode cunhar moedas em carne tão macia, coberta de pele umedecida pela chuva. Seus cabelos eram negros como a asa de um corvo, cortados rente e em diagonal á face.
Olhei para ela, senti-me perturbado e numa grande excitação. Desejei colocá-la no meu conto, ou noutra parte qualquer,mas a moça se colocara de maneira a poder acompanhar o movimento da rua e da entrada do café, e compreendi que estava á espera de alguém. Por isso continuei a escrever.
O conto escrevia-se por si próprio, e eu tinha dificuldade em conduzí-lo. Pedi outro rum Saint James, observando a moça todas as vezes que levantava os olhos ou quando fazia a ponta do lápis, com um apontador, deixando as raspas encaracoladas no pires que tinha sob o cálice.
"Eu a vi, oh, beleza, você me pertence agora, seja quem for que esteja esperando e mesmo que nunca a veja mais em toda minha vida", pensei. "Você me pertence, toda a Paris me pertence e eu pertenço a este caderno e a este lápis."
Voltei a escrever, entrei a fundo na história e me perdi nela. Agora quem a escrevia era eu; o conto não se escrevia mais por si próprio , de modo que não tornei a levantar a cabeça.
Esqueci-me do tempo, do lugar em que me encontrava, e nem sequer mandei vir outro rum Saint James. Cansara-me dele sem pensar nisso. Terminei o conto,afinal, sentindo-me realmente cansado. Reli o último parágrafo e, quando levantei os olhos á procura da moça, não a encontrei mais."Tomara que tenha ido com um homem decente", pensei. Mas sentia-me triste..."

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Marcelino Pedregulho - Sempé

"Se eu quisesse que todo mundo ficasse triste, contaria que os dois amigos, presos ás suas obrigações, não se reviram mais. De fato, é o que acontece na maioria das vezes. A gente reencontra um amigo, fica supercontente, faz planos.
E depois, a gente não se vê mais.Porque não temos tempo, porque moramos longe um do outro, porque temos um monte de trabalho. Por mil outros motivos.
Mas Marcelino e Renê se reviram."


( trecho de Marcelino Pedregulho - do ilustrador francês Jean -Jacques Sempé - editora - Cosac Naify )

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

D. Quixote da Mancha



" Em suma, ele engolfou-se tanto em sua leitura, que lendo passava as noites em claro, e os dias em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que veio a perder o juízo. Encheu-lhe a fantasia de tudo aquilo que lia nos livros,tanto de encantamentos como de pelejas, batalhas, duelos, ferimentos, galanteios, amores, desgraças e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação que era verdade toda aquela máquina daquelas sonhadas invenções que lia, que para ele não havia outra história mais certa no mundo."

" Limpas,pois, suas armas, tornado o morrião celada, dado nome a seu rocim e confirmando-se a si mesmo, convenceu-se de que não lhe faltava outra coisa senão procurar uma dama de quem enamorar-se,porque cavaleiro andante sem amores era árvore sem folhas nem fruto e corpo sem alma."

" Ah! Como folgou nosso bom cavaleiro quando fez este discurso, e mais ainda quando achou alguém a quem dar o nome de sua dama! É que calhou, pelo que se crê, haver num vilarejo próximo do seu uma moça lavradora de muito bom parecer, de quem ele um tempo andara enamorado, ainda que, pelo que se sabe,ela o jamais o tivesse sabido nem lho tivesse dado a olhar. Chamava-se Aldonza Lorenzo, e foi a ela que lhe pareceu bom dar o título de senhora de seus pensamentos ; e, buscando-lhe nome que não desdissesse muito do seu e que soasse e tendesse ao de princesa e grã senhora, veio a chamá-la " Dulcinéia de Tolboso" porque era natural do Toboso: nome, a seu ver, músico e original e significativo, como todos os demais que a ele e a suas coisas tinha dado."


( O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha - Miguel de Cervantes )

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Correspondências entre Anton P. Tchekhov e Máximo Górki

" Eu, em seu lugar, partiria para a Índia, para o diabo sabe aonde, cursaria mais duas faculdades, faria coisas e mais coisas. Você dá risada, mas eu tenho tanta mágoa de já estar com 40, ter dispnéia e outras amolações que me impedem de viver livremente. De qualquer modo, seja um homem bom e um bom companheiro, não se zangue por eu, nas minhas cartas, fazer sermões como um protopope.
 Escreva-me. Estou esperando Fomá Gordiéiev, que até agora não li devidamente.
 Nada de novo. Saúde. Um forte aperto de mão.

Seu A. Tchekhov"

" Sabe, é muito desagradável ler em suas cartas que você está sentindo tédio. Isto absolutamente não lhe convém e não deve acontecer, de modo algum. Você escreve que já está com quarenta anos. Você está apenas com quarenta anos ! E neste meio tempo, quanto você já escreveu, e como escreveu! Pois é isto ! É terrivelmente trágico que todos os russos se considerem abaixo do seu valor real.Parece que você também está concorrendo para isso."

Seu A. Piechkóv * "

* O nome de Máximo Górki ( isto é, o Amargo ) era Aleksiéi Maksímovitch Piechkóv.

( trechos das cartas trocadas entre Anton P. Tchekhov e Máximo Górki - Carta e  Literatura - Sophia Angelides - Edusp )

Sábado - Ian McEwan

" Sexo é um meio diferente , refrata o tempo e os sentidos , um hiperespaço biológico tão remoto da vida consciente quanto os sonhos , ou quando a água é do ar. Como sua mãe dizia, um outro elemento; o dia se modifica, Henry , quando a gente nada. E esse dia está destinado a se destacar dos demais."


( Sábado - Ian McEwan )

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

o Mapa de Sonhos - Uri Shulevitz


" No dia seguinte meu pai pendurou o mapa.
  Ele ocupou a parede inteira!
  Nosso quartinho sem graça inundou-se de cores.
  Fiquei fascinado pelo mapa
  e passei horas olhando para ele,
  examinando cada detalhe.
  E durante muitos dias eu o desenhei
  em cada pedacinho de papel que me aparecia pela frente.
  Eu encontrava nomes desconhecidos naquele mapa.
  Aterrisei em desertos abrasadores.
  Percorri praias,sentindo a areia entre os dedos dos pés.
  Escalei montanhas nevadas
  onde o vento gelado lambia meu rosto.
  Vi templos maravilhosos
  com esculturas de pedra  dançando nas paredes
  e pássaros de todas as cores
  cantando nos telhados.
  Atravessei pomares cheios de frutas,
  comi mamões e frutas até me fartar.
  Bebi água fresquinha
  e descansei á sombra de palmeiras.
  Cheguei a uma cidade cheia de arranha-céus
  e tentei contar suas janelas.
  Eram tantas que caí no sono antes de acabar.
  E assim passei horas de encantamento
  longe da fome e da miséria.
  E perdoei o meu pai,
  afinal ele fez a coisa certa."

( Mapa de Sonhos - Uri Shulevitz )

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Assassinato e outras histórias - Anton Tchekhov

" Antes de qualquer pessoa , interrogaram Iákov, e ele fez ver que Matviei, na segunda-feira à tarde, partira para Vedeniápino a fim de jejuar antes de fazer a confissão, e que talvez serradores, que então trabalhavam na ferrovia, o tivessem matado. Quando o juiz de intrução lhe perguntou como se podia explicar o fato de Matviei ter sido encontrado no meio da estrada, se o seu chapéu estava em casa - seria possível que ele tivesse partido para Vedeniápino sem chapéu? E também por que motivo perto de Matviei, na estrada , sobre a neve , não encontraram nem um pingo de sangue,se ele tinha o crânio fraturado, além de ter o rosto e o peito enegrecidos de sangue. Iákov perturbou-se , confundiu-se e respondeu:
_ Não posso saber.
E aconteceu exatamente aquilo que Iákov temia: chegou o guarda, o policial pôs-se a fumar no oratório e Aglaia disparou pragas contra ele, disse desaforos para o comissário de polícia rural , e depois, quando conduziram Iákov e Aglaia para fora do pátio, os mujiques aglomeraram-se no portão e disseram:
_ Estão levando os beatos !- e todos pareciam contentes."

( trecho do conto "O Assassinato" da coletânea de contos do livro " Assassinato e outras histórias "- Anton Tchekhov )

" Da noite para o dia, tudo se acalmou. Quando se levantaram e olharam pela janela, os salgueiros desfolhados, com os galhos ligeiramente curvados para baixo, mantinham-se absolutamente imóveis, o tempo estava nublado, sereno, como se a natureza agora estivesse envergonhada de sua orgia, das loucuras da noite e das liberdades que havia concedido às suas paixões."

( trecho do conto "Em serviço" da coletânea de contos do livro " Assassinato e outras histórias" - Anton Tchekhov ).

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Outra volta do parafuso - Henry James

   "Decorrido um segundo, em que moveu a cabeça como um cão que perdeu a pista, a que a lançou para trás, num gesto brusco, como em busca de ar e de luz, voltou-se para mim pálido de cólera, perplexo , olhando inutilmente para todos os lados e não encontrando nada, embora eu sentisse o aposento envenenado pela dominante e opressora presença.
- É ele ?
Eu estava tão decidida a obter todas as provas que, para desafiá-lo, simulei glacial tranquilidade:
_ A quem você se refere?
_ Peter Quint ! Ah, seu demônio !
Seu rosto dirigiu novamente, em torno do aposento, uma convulsa súplica:
_ Onde?
Tenho ainda em meus ouvidos o som daquele nome, proferido como uma rendição suprema, como um tributo à minha dedicação.
_Que importância tem ele agora, meu  querido? Que importância poderá ter doravante? Eu tenho você - exclamei, dirigindo-me à fera - e ele perdeu para sempre!
E ajuntei, para demonstrar que cumprira a minha obra:
_ Ali, ali ! - exclamei, apontando a janela.
Mas Miles já havia escapado de meus braços e, voltando-se para o outro lado, ficou a fitar, perscrutadoramente , a janela, não vendo senão o dia tranquilo. Ante o golpe dessa perda, de que eu tanto me orgulhava, lançou um grito de criatura lançada sobre o abismo, e o gesto com que o segurei bem poderá ter sido o de agarrá-lo em sua queda. Agarrei-o,sim, apertei-o de encontro ao peito...e bem pode imaginar-se com que paixão! Mas, ao cabo de um minuto, comecei a sentir o que realmente estreitava em meus braços. Estávamos a sós no dia tranquilo, e o seu pequeno coração, despossuído, deixara de pulsar."

( Outra Volta do Parafuso - Henry James )