terça-feira, 2 de junho de 2015

O Estrangeiro - Albert Camus


"Tinha lido que na prisão se acaba perdendo a noção do tempo. Mas para mim isto não fazia muito sentido . Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser , ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver , sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros . E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam um sentido para mim.
  Quando, um dia, o guarda me disse que eu estava lá há cinco meses , acreditei, mas não compreendi. Para mim era sempre o mesmo dia que se desenrolava na minha cela , e era sempre a mesma tarefa , que eu perseguia sem cessar. Nesse dia , depois de o guarda ter saído, olhei-me na minha bacia de ferro. Pareceu-me que a minha imagem ficava séria , mesmo quando tentava sorrir para ela. Agitei-a diante de mim. Sorri e ela conservou o mesmo ar severo e triste . O dia acabava e era a hora de que não quero falar , a hora sem nome, em que os ruídos da noite subiam de todos os andares da prisão num cortejo de silêncio. Aproximei-me da janela e, á última luz, contemplei uma vez mais a minha imagem. Continuava séria , e que há de espantoso nisso, se nesse instante eu também estava sério! Mas ao mesmo tempo e pela primeira vez nos últimos meses ouvi distintamente o som da minha voz. Reconhecia-a como a que ressoava há longos dias nos meus ouvidos e compreendi que durante este tempo falara sozinho. Lembrei-me, então, do que dizia a enfermeira no enterro de mamãe. Não, não havia saída , e ninguém pode imaginar o que são as noites nas prisões."

domingo, 31 de maio de 2015

Catarina, A Grande - Robert K. Massie


" Em 1765, Catarina teve para Diderot um gesto grandioso , que se tornou o assunto das conversas na Europa. Diderot e sua esposa tiveram três filhos , e todos morreram . Então, aos 43 anos , madame Diderot teve uma filha , Marie Angélique. Diderot idolatrava essa menina , dava grande valor ao tempo que passava com ela, e sabia que ele deveria lhe fornecer um dote. Mas não tinha dinheiro , pois tudo estava indo para a Encyclopedia . Decidiu, então, vender seu único bem de valor: sua biblioteca. Catarina ouviu falar da decisão por um amigo de Diderot , o embaixador da Rússia na França e Holanda , príncipe Dmitry Golitsyn . Diderot pedia 15 mil libras pelos livros. Catarina ofereceu 16 mil libras , mas com uma condição : os livros permaneceriam na posse de Diderot enquanto ele vivesse . "Seria cruel separar um intelectual de seus livros", ela explicou .
Assim , Diderot se tornou , sem que ele e seus livros nunca tivessem saído de Paris , bibliotecário de Catarina. Pela prestação desse serviço, ela lhe pagava um salário de  mil libras por ano. No ano seguinte , quando o salário foi esquecido e não pago, Catarina, constrangida, enviou a Diderot 50 mil libras - como pagamento adiantado dos próximos anos, ela disse.
A compra da biblioteca de Diderot pela imperatriz inflamou a imaginação da Europa literária. Diderot pasmo, escreveu à benfeitora : "Grande princesa, prosto-me a seus pés . Estendo-lhe meus braços , e lhe falaria , mas minha alma desfalece , minha mente se turva. Oh, Catarina , creia que seu reinado não é mais poderoso em São Petersburgo que em Paris". Voltaire acompanhou: "Diderot ,
D´Alembert e eu somos três que lhe ergueríamos altares. Quem iria suspeitar , há cinquenta anos , que um dia os citas ( russos ) premiariam tão nobremente em Paris a virtude , a ciência e a filosofia , tratadas tão vergonhosamente entre nós". E Grimm: "Trinta anos de trabalho não trouxeram a Diderot a menor recompensa . Agradou à imperatriz da Rússia pagar o débito da França". A resposta de Catarina foi: "Nunca pensei que comprar a biblioteca de Diderot me valesse tantos cumprimentos".
Sem dúvida, havia um propósito maior por trás da generosidade . Se assim foi, o presente atingiu o objetivo, pois os europeus passaram a entender que havia outras coisas no Leste além de neves e lobos. Diderot se atirou à tarefa de recrutar talentos na arte e na arquitetura para Catarina . Sua casa se tornou uma agência de empregos para ela. Escritores , artistas , cientistas , arquitetos , engenheiros, todos acorriam a solicitar nomeações para São Petersburgo."


sábado, 24 de janeiro de 2015

Nicolau e Alexandra - O Relato Clássico da Queda da Dinastia Romanov - Robert K. Massie


" As cartas da imperatriz para o czar nunca foram dirigidas a outros olhos que não os dele. Ao todo, foram encontradas 630 cartas numa mala de couro preto em Ekaterinburg após sua morte. Destas, 230 foram escritas no período desde seu primeiro encontro até estourar a guerra , em 1914. As outras 400 foram escritas durante os anos de guerra, 1914 - 1916. Foram escritas sem a mínima ideia de que alguém mais fosse lê-las, e muito menos que um dia viriam a ser publicadas como documentos históricos fundamentais para explicar eventos, personalidades e decisões às vésperas da Revolução Russa. Hoje, elas oferecem isso e até mais: uma janela íntima para uma alma , o retrato único de uma mulher que nenhum de seus contemporâneos na Rússia jamais poderia ver.
Alexandra escrevia profusamente . Ela podia começar de manhã cedo, acrescentar parágrafos durante o dia, continuar com páginas e páginas tarde da noite e talvez até mais no dia seguinte. numa letra grande, redonda, ela escrevia ao czar em inglês , no mesmo telegráfico que usava com seus amigos: uma prosa ofegante, com ortografia irregular , muitas abreviações , frequentes omissões de palavras que pareciam óbvias e pontuação com muitos pontos e travessões. Tanto a extensão quanto o estilo de suas cartas são infelizes.
 Com muitas omissões e saltos, ela dá a impressão de superficialidade em temas que na verdade a preocupavam muito. Da mesma forma, o intenso fervor de outras passagens é forte evidência das grandes paixões de que Alexandra era capaz, mas não prova suficiente de que a imperatriz- como alguns a acusaram - era louca. A própria extensão das cartas tornava difícil sua interpretação para historiadores e biógrafos. Ler todas é tarefa árdua e impossível citar mais do que uma minúscula fração delas. Contudo, e de forma extraordinária nesse caso, os excertos podem ser enganadores. Um pensamento cuja germinação se estende por sentenças - talvez parágrafos - surge inopinadamente com força total numa frase dura e condenatória. Essas frases, pinçadas da massa de verbosidade, fazem uma mulher loquaz parecer inequivocamente histérica.
 Um aspecto notável dessas cartas era o frescor do amor de Alexandra. Após duas décadas de casamento, ela ainda escrevia como uma garotinha. A imperatriz, tão tímida e até fria ao expressar emoções em público, soltava nas cartas toda sua paixão amorosa. Por baixo da reservada superfície vitoriana, ela revelava os sentimentos floridos, extravagantes dos poetas da época.
 Geralmente, as cartas chegavam com lírios ou violetas imprensados entre as páginas e começavam com "Bom-dia, meu querido...Meu amado...Meu doce tesouro...Meu anjo muito amado." Terminavam com "Durma bem meu tesouro...Anseio por tê-lo em meus braços e repousar a cabeça no seu ombro...Anseio por seus beijos, seus braços , que o tímido Childy ( Nicolau ) me dá
(somente) no escuro e esposinha vive por eles."
(...)
Embora sua linguagem tivesse o ardor transbordante do amor da juventude, Alexandra não se iludia com a passagem do tempo: "32 anos atrás , meu coração de menina se atirou a você em profundo amor...Sei que não devia dizer isso, e para uma madura mulher casada pode parecer ridículo, mas não consigo evitar. Com os anos, o amor aumenta e o tempo sem a sua  doce presença é duro de aguentar. Oh, que nossos filhos tenham a mesma bênção em suas vidas de casados."

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Raul Taburin - Sempé


" Numa noite em que dava uma garibada num descarrilhador, Figure chegou, depois de dois meses de ausência. Eles ficaram um momento em silêncio.
E, logo que o fotógrafo abriu a boca, Taburin o interrompeu de supetão:
"Sou eu quem falo agora! É preciso que você saiba: eu nunca soube...nunca...eu deveria ter dito...é um segredo...entende?...sou incapaz de..."
De repente, ele se sentiu de bom humor, com vontade de rir. E ria:
"Não sei andar ...é mesmo engraçado! eu não sei andar de..." E ele ria cada vez mais, e Figure também ria, porque começava a entender."

O céu Não sabe Dançar sozinho - Ondjaki


"sua,noite.entre os teus dedos o meu corpo existe para celebrar o amor. empurro a palavra madrugada e é doce essa tarefa. pronuncio palavras ao teu ouvido. palavras que o esquecimento acolhe no seu regaço, palavras para reprogramar o teu sentir . que a travessia aconteça . que os camelos paralelos a nós possam transportar água suficiente e o sol nos seja brando . que o vento não anule as peugadas das rãs.
de tempos a tempos necessitarei desse mapa."


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Filomena Firmeza - Patrick Modiano


"Neva hoje em Nova York. Pela janela do meu apartamento, na rua 59 , vejo o prédio em frente onde fica a escola de dança que eu dirijo. Por trás da fachada envidraçada, as alunas de collant terminam suas pontas, meias-pontas e entrechats .
Minha filha, que trabalha como minha assistente , mostra a elas um passo de jazz, para descontrair.
Daqui a pouco vou me juntar a elas.
Entre as alunas, há uma menina que usa óculos. Ela os deixou sobre uma cadeira antes de começar a aula, como eu fazia com essa mesma idade nas aulas da senhora Dismailova. Não se dança de óculos. Eu me lembro de que, na época da senhora Dismailova, eu treinava durante o dia para conseguir ficar sem os óculos. O contorno das pessoas e das coisas perdia a nitidez, tudo se tornava desfocado, até os sons pareciam mais abafados. O mundo, quando eu os via sem os óculos, perdia a aspereza. Ficava tão suave e macio quanto um travesseiro fofo no qual encostava o rosto e terminava de adormecer.
- Está sonhando com o quê, Filomena? - papai me perguntava. - Você deveria pôr os óculos.
Eu obedecia e tudo retomava a rigidez e a precisão costumeiras. De óculos, eu via o mundo tal como ele era. Não podia mais sonhar."



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Clube da Luta - Chuck Palahniuk


"A carcaça explodida e queimada de meu apartamento parece o espaço sideral, negro e devastado na noite acima as luzes da cidade. Como as janelas se foram, uma fita amarela da polícia se contorce e balança no limite de uma queda de quinze andares.
 Acordo no chão de concreto. Antes havia um carpete de madeira. Havia quadros nas paredes antes da explosão. Havia mobílias suecas. Antes de Tyler.
 Estou vestido. Ponho a mão no bolso e sinto.
 Estou inteiro.
 Com medo, mas inteiro.
 Vá até a beirada, quinze andares acima do estacionamento , olhe para as luzes da cidade e para as estrelas e desapareça.
 Tudo está tão distante.
  Aqui em cima, nos quilômetros de noite que existem entre as estrelas e a Terra, sinto como se fosse um daqueles animais espaciais.
 Cães.
 Macacos.
 Homens.
Você só faz sua pequena tarefa. Puxa uma alavanca. Aperta um botão. Você não entende nada aquilo de verdade.
 O mundo está ficando louco. Meu chefe está morto. Minha casa se foi. Meu trabalho se foi. E sou responsável por tudo isso.
 Não sobrou nada.
 Estou negativo no banco.
 Vá até a beirada.
 A fita amarela da polícia flutua entre mim e o esquecimento.
 Vá até a beirada.
 O que mais sobrou?
 Vá até a beirada.
 Sobrou a Marla.
 Pule da beirada.
 Tem a Marla e ela está no meio disso tudo e não sabe.
 E ela ama você.
 Ela ama Tyler.
 Ela não sabe a diferença entre vocês.
 Alguém tem que dizer a ela. Fuja.Fuja.Fuja.
 Salve-se.
 Você desce de elevador até o saguão e o porteiro que nunca gostou de você sorri mostrando a falta de três dentes perdidos por socos e diz:
 -Boa noite, senhor Durden. Posso chamar um táxi? Está se sentindo bem? Quer usar o telefone?
 Você liga para Marla no Regent Hotel.
 O atendente do Regent diz:
 -Pois, não, sr. Durden.
Então Marla surge na linha.
O porteiro está ouvindo ao seu lado. O atendente do Regent provavelmente também está ouvindo.
Você diz a Marla que precisam conversar.
 -Vai lamber merda - ela responde.
 Você diz que ela pode estar em perigo. Que merece saber o que está acontecendo. Vocês precisam conversar.
 - Onde?
Você deve ir ao lugar onde nos encontramos pela primeira vez. Lembre-se dele. Pense no passado.
 Na bola de luz branca curativa. No palácio das sete portas.
 _Entendi. Consigo chegar lá em vinte minutos.
 Esteja lá.
 Você desliga e o porteiro fala:
_Posso conseguir um táxi para você, senhor Durden. De graça e para onde quiser ir.
Os garotos do clube da luta o estão vigiando. Você diz que não, é uma bela noite e acha que vai caminhar."

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Aquela Água Toda - João Anzanello Carrascoza

"Quando percebeu, o sol era suave, a praia se despovoava, as ondas se encolhiam. Hora de ir,disse o pai e começou a apanhar as coisas. A família seguiu para a avenida, o menino lá atrás , a pele salgada e quente , os olhos resistiam em ir embora. No ônibus , sentou-se à janela, ainda queria ver a praia, atento à sua paixão. Mas, à frente, surgiam prédios, depois casas, prédios novamente, ele ia se diminuindo de mar. O embalo do ônibus, tão macio...Começou a sentir um torpor agradável , os braços doíam , as pernas pesavam, ele foi se aquietando, a cabeça encostada no vidro...
Então aconteceu, finalmente, o que ele tinha ido viver ali de maior. Despertou assustado, o cobrador o sacudia abruptamente , Ei, garoto,acorda! Acorda, garoto!, um zunzunzum de vozes, olhares, e ele sozinho no banco do ônibus , entre os caiçaras, procurando num misto de incredulidade e medo a mãe, o pai, o irmão - e nada. Eram só faces estranhas.
Levantou-se , rápido no seu desespero, Seus pais já desceram, o cobrador disse e tentou acalmá-lo, Desce no próximo ponto e volta! Mas o menino pegou a realidade às pressas e, afobado, se meteu nela de qualquer jeito. Náufrago, ele se via arrastado pelo instante, intuindo seu desdobramento : se não saltasse ali, se perderia na cidade aberta. Só precisava voltar ao raso, tão fundo, de sua vidinha...
Esgueirou-se entre os passageiros, empurrando-os com a prancha. O ônibus parou, aos trancos. O cobrador gritou, Desce, desce aí! O menino nem desceu os degraus, pulou lá de cima, caiu sobre um canteiro na beira da praia. Um búzio solitário, quebradiço. Saiu correndo pelo calçadão, os cabelos de sal ao vento, o coração no escuro. Notou com alívio, lá adiante, o pai que acenava e vinha, em passo acelerado, em sua direção. Depois...depois não viu mais nada: aquela água toda em seus olhos."


lindo, todo o livro em todas as linhas, escrita com as palavras perfeitas em seus lugares certos...


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Histórias de Paris - Mario Benedetti


"E de repente se faz um silêncio. Um silêncio espesso depois de tanta conversa transparente. Estou sentado na beira do catre, e ela está perto, na minha única cadeira , com os cotovelos apoiados na minha mesa cambaia  e roída pelos cupins. Então a puxo. Suavemente, como quem recupera um projeto inconcluso, mas agora com mais tino, mais experiência, mais profundidade, mais vontade de torná-lo real. Ela se deixa abraçar e até diria que me abraça, entretanto,graças ao espelho onde faço a barba todos os dias, posso ver que está olhando de novo para o infinito. Então a afasto com todo o carinho de que disponho, que é bastante, e pego seu rosto entre as mãos. Estou abalado, mas mesmo assim encontro forças para lhe perguntar o que está acontecendo, o que há com ela. Murmura alguma coisa num tom  tão baixo que não consigo captar uma palavra. Pega a minha mão e a guia lentamente até seu suéter marrom, na realidade até um dos seus peitos sob a lã penteada.
Não sei por quê, mas entendo que aquele gesto não tem o significado mais óbvio. Os olhos que me olham estão secos. Não pode ser, não vai ser, não tem volta, entende?
Isso é o que diz. Não pode ser, por mim e por você. Isso é o que diz. Todas as paisagens mudaram, em toda parte há andaimes, toda parte há escombros. Isso é o que diz. Minha geografia, Roberto. Minha geografia também mudou. Isso é o que diz."

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dentro do Segredo - José Luís Peixoto


" O meu coração existia dentro de mim. Todas as luzes estavam apagadas. Corri sozinho na direção do rio Taedong. Havia milhares e milhares de pessoas nas suas margens. Através do negro opaco, passava entre elas. A única claridade que vinha do céu, da enorme quantidade de foguetes que rebentavam havia quase uma hora ao longo de quilómetros de rio. Mas ali, ao meu lado,na escuridão total, ninguém baixava a voz ou o olhar quando me via, a minha presença não era sentida. Durante aqueles minutos, fui norte-coreano. Houve mesmo pessoas a dirigirem-se a mim , a dizerem-me qualquer coisa , sem esperarem resposta. Isto, que parece pouco, foi tudo para mim, encheu-me. Esse foi o momento mais intenso que vivi na Coréia do Norte."