quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Gato Cego - Nelson Rodrigues



" Sem que o dissesse a ninguém , trazia , no mais íntimo de si mesmo , a melancolia do veterinário frustrado. Capitulara ante a psiquiatria porque era um fraco da vontade e porque a mãe e as tias haviam concordado. Avisara , porém , com a necessária antecedência: "De maluco, eu não trato". Formou-se . Mas os colegas juravam, num exagero jocoso e cruel , que ele não saberia aplicar uma injeção, nem receitar um comprimido de dor de cabeça. No dia em que voltou da missa de formatura , reuniu-se, de novo, à família. Dr. Sinval disse , na ocasião :
-Agora, só está faltando um consultório, mas olha : é indispensável que seja um consultório com ar de boate. O ar de boate é o "x" do problema.
Então, com seu jeito triste, Bebeto permitiu-se um desabafo : " O diabo é que não entendo tostão de psiquiatria!" Mas o pai estava lá, vigilante e atalhou; definitivo :
- Não entende , nem precisa entender . Além disso, não te esqueças disso: tu vais tratar de pessoas absolutamente sãs.
O filho, que não tinha caráter muito firme e fora estragado pelos mimos, rosnou, numa pusilimidade total : "Espeto, Espeto!" De noite, na hora de dormir, a mãe foi levar-lhe , como de hábito, uma xícara de mate morno. Bebeto suspirou. Teve um lamento arrancado de suas profundezas:
-Eu quis tanto ser veterinário!
Aquelas mulheres, economizando tostão a tostão, através dos anos tinham juntado uma quantia substancial. E, assim, pode montar-se, no centro da cidade, um consultório que parecia extraído das Mil e uma noites e oferecia no seu aspecto todo o ar necessário de uma boate. Era uma coisa tão bonita e insólita que D. Detinha exigiu do marido: "Olha, Sinval, você não pode fumar, aqui, seus charutos. Fume onde quiser. Aqui não." Prontamente ele atendeu. Foi à janela , atirou em cima de um bonde um de seus mata-ratos inenarráveis . No fundo , deu razão à mulher, pois lhe pareceu que fumar um charuto barato naquele ambiente seria uma profanação.
Inaugurou-se , numa quinta-feira, o consultório quase oriental. Dr. Sinval, com as duas mãos nos bolsos, olhando de um lado para outro, inclusive para cima, com uma euforia de pai do proprietário, exclamou:
-Com esse troço aqui, tu podes cobrar, no barato, duas mil pratas por sessão!
Mas nessa noite, o novel analista entrou em casa com um gatinho que encontrara numa sarjeta, miando com a mais patética das sinceridades . Na cozinha deu leite num pires ao pequeno solitário animal. Depois sentou-se na cadeira de balanço, com o gatinho no colo. E o afagou, horas a fio, com a mais desesperada das ternuras.
A primeira cliente que se submeteu à psicanálise do Bebeto foi uma grã-fina, loira e linda, que pagou as duas mil pratas da sessão, com lânguida naturalidade. Estava,ali, porque, 15 dias atrás , enfiara um cigarro aceso na vista de um gato, cegando-o. Fumando um outro cigarro , e com divertida curiosidade, perguntava ao jovem médico, dono de um consultório tão bonito:
-Isso quer dizer o quê?
Durante um longo, um infinito minuto, ele não respondeu nada. Súbito, estendeu a mão :
-Quer me ceder, um momento, seu cigarro?
Sem compreender, a grã-fina atendeu. Ele arremessou-se então. Dominou-a rapidamente. Calcou, num dos seus olhos azuis e lindos a brasa do cigarro. Largou-a, cega, enchendo o edifício com seus gritos. Quando arrombaram a porta e invadiram a sala de psicanálise, ele, de braços cruzados, esperava, sem medo e sem remorso.
Primeiro, foi levado para a delegacia. Depois, tiveram que interná-lo."

( do livro A Vida Como Ela É ... )

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Menino Palito e Garota Fósforo - Tim Burton




" Menino Palito gostava da Garota Fósforo.
Gostava era pouco:
Sua figura esbelta
O deixava louco.
Mas como acender entre eles
A chama da paixão? Simples.
Foi só seguir seu desejo à risca,
Que ele saiu queimando faísca."

( O Triste Fim do Menino Ostra e Outras Histórias - Tim Burton )

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A Hora da Estrela - Clarice Lispector


"Havia coisas que não sabia o que significavam . Uma era "efeméride" . E não é que Seu Raimundo só mandava copiar com sua letra linda a palavra efemérides ou efeméricas ? Achava o termo efemérides absolutamente misterioso. Quando o copiava prestava atenção a cada letra . Glória era estenógrafa e não só ganhava mais como não parecia se atrapalhar com as palavras difíceis das quais o chefe tanto gostava. Enquanto isso a mocinha se apaixonara pela palavra efemérides.
Outro retrato : nunca recebera presentes. Aliás não precisava de muita coisa. Mas um dia viu algo que por um leve instante cobiçou: um livro que Seu Raimundo , dado a literatura , deixara sobre a mesa. O título era "Humilhados e Ofendidos". Ficou pensativa. Talvez tivesse pela primeira vez se definido numa classe social . Pensou, pensou, pensou! chegou á conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera , tudo que acontecia era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar?
Pergunto eu : conheceria ela algum dia do amor o seu adeus? Conheceria algum dia do amor os seus desmaios? Teria a seu modo o doce voo? De nada sei. Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só . A nordestina se perdia na multidão . Na praça Mauá onde tomava o ônibus fazia frio e nenhum agasalho havia contra o vento. Ah mas existiam os navios cargueiros que lhe davam saudades quem sabe de quê . Isso só ás vezes. Na verdade saía do escritótio sombrio, defrontava o ar lá de fora, crepuscular, e constatava então que todos os dias á mesma hora fazia exatamente a mesma hora."

( primeiro assisti o filme baseado no livro então Macabéa ganhou esse rosto, e não a esqueci mais. Lindo livro, lindo filme. )

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Desonra - J.M. Coetzee

" Em inglês moderno , friend , amigo , do inglês antigo freond, do verbo freon , amar."


( só uma frase, e linda ! )

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Viérotchka - Anton Tchekhov

" Amolecido, Ogniov beijou , mais uma vez o velho e começou a descer a escada. No último degrau, voltou a cabeça e perguntou :
_ Ainda nos veremos um dia?
_ Deus sabe! - respondeu o velho.- Provavelmente nunca!
_Sim, é verdade! Não se consegue atraí-lo a São Petersburgo nem com pão de leite, e eu dificilmente virei  parar mais uma vez neste distrito. Bem, adeus!
_Deveria deixar aqui os livros! - gritou-lhe Kuznietzov. - Para que precisa carregar esse peso? Eu mandaria para a sua casa amanhã, por um criado.
Mas Ogniov não o ouvia mais, afastando-se rapidamente da casa. A sua alma, aquecida pelo álcool, estava ao mesmo tempo alegre, tépida e triste...Caminhando, pensava em quão frequentemente encontra-se na vida gente boa e como é lamentável que esses encontros não deixem nada, além de recordações. Acontece aparecerem num repente cegonhas no horizonte, a brisa ligeira traz os seus gritos entre tristonhos e eufóricos ,e, num instante depois, por mais avidamente que fixemos a vista nos longes azuis, não vemos um ponto, não ouvimos um som sequer : assim também as pessoas, com os seus semblantes, as suas falas, aparecerem ligeiramente na vida e submergem em nosso passado, não deixando mais que as pegadas insignificantes da memória. Vivendo desde a primavera no distrito de N. e visitando quase diariamente os cordiais Kuznietzov, Ivan Alieksiéitch acostumou-se como um parente ao velho, á filha, aos criados, aprendeu a conhecer até nos mínimos detalhes toda a casa, o terraço aconchegado , as curvas das alamedas do jardim, as silhuetas das árvores sobre a cozinha e a casa dos banhos; mas daqui a um instante ele passará o portão, e tudo isso se transformará em recordação, perdendo para sempre a significação real, e, passados ainda um ano ou dois, todas essas imagens queridas hão de empalidecer na consciência, a par das invenções e dos frutos da fantasia.
"Na vida, não existe nada mais caro que as pessoas!", pensava emocionado Ogniov, caminhando pela alameda, em direção ao porão. "Nada!"

( trecho do conto Viérotchka - do livro As Três Irmãs e contos - Anton P. Tchekhov )

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Não Se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo - Nelson Rodrigues

" O mais importante, o fundamental, você tem : ama e é amada . E se quer obter um mínimo de felicidade, parta, sempre , do seguinte princípio : - o verdadeiro amor não pode ser integralmente feliz . Você sabe qual é o verdadeiro erro da maioria absoluta das mulheres? Ei-lo : achar que o fato de amar implica, obrigatoriamente, a felicidade. Quem ama, pensa que vai ser felicíssimo ; e estranha qualquer espécie de sofrimento . Ora, a vida ensina, justamente, que duas criaturas que se amam, sofrem , fatalmente. Não por culpa de um ou de outro; mas em consequência do próprio sentimento. É exato que os amores tem seus êxtases deslumbrantes , momentos perfeitos , musicais, etc, etc. Mas eu disse "momentos" e não as 24 horas de cada  dia. Quando uma mulher apaixonada se queixa, eu tenho a vontade de fazer-lhe a seguinte pergunta: "Não lhe basta amar? Você quer, ainda por cima, ser feliz?". Pois o destino , quando concede a graça inefável do amor ,subtrai uma série de outras coisas. Antes de mais nada, o sossego. Quem ama, não tem sossego, perde-o , para sempre. A intensidade de qualquer amor é , por si mesma, trágica."



( Nelson Rodrigues , ops, Myrna num de seus conselhos amorosos ).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A Borra do Café - Mario Benedetti


" Só numa ocasião a praia Capurro, em geral tão desprezada , ficou cheia de gente e de bicicletas. Foi quando o dirigível passou por aqui. O Graf Zeppelin. Aquela espécie de liguiçona prateada, imóvel no espaço, foi considerada admirável, quase mágica por todo o mundo adulto; para nós, em compensação, era uma coisa normal. Mais ainda: o assombro dos adultos nos parecia bobo. Vê-los todos de boca aberta, olhando para cima, provocava em nós um riso tão contagioso que aos poucos foi se transformando na gargalhada de toda uma geração. Os pais , tios e avós sentiram-se tão ofendidos com as risadas que os tapas e beliscões começaram a chover sobre as nossas frágeis anatomias. Uma injustiça histórica que jamais vamos esquecer."

(  trecho do capítulo "O dirigível e o Dândi )

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Verão - J.M. Coetzee


" Se os africanos eram eles, quem era nós ? os africânderes ?

Não. Nós era principalmente a gente de cor. É um termo que eu só uso com relutância , para abreviar . Ele - Coetzee - evitava esse termo o quanto podia. Eu mencionei o utopismo dele. Evitar esse termo era outro aspecto desse utopismo. Ele ansiava por um dia em que todo mundo na África do Sul não se chamasse de nada , nem de africano, nem de europeu, nem de branco, nem de negro , nem de nada, em que as histórias familiares estivessem tão emaranhadas e misturadas que as pessoas fossem etnicamente indistinguíveis, ou seja - pronuncio de novo essa palavra maldita - de cor. Ele chamava isso de futuro brasileiro. Ele aprovava o Brasil e os brasileiros. Claro que nunca tinha estado no Brasil."

( Sophie - professora em entrevista ao biógrafo inglês Vincente )

domingo, 20 de novembro de 2011

Pedro e Tina ( uma amizade muito especial ) - Stephen Michael King

 

"Cada vez que Pedro tentava escrever uma linha reta...
  Ela saia toda torta.
  Quando todos à sua volta olhavam para cima...
  Pedro olhava para baixo.
  Se ele achava que ia fazer um dia lindo e ensolarado...
  Chovia.
  Um dia, de manhã bem cedo, quando estava andando de costas contra o vento,
  Pedro deu um encontrão em Tina.
  Tina fazia tudo certinho.
  Ela nunca amarrava errado os cordões de seus sapatos
  nem virava o pão com a manteiga para baixo.
  Ela sempre se lembrava do guarda-chuva e sabia muito bem escrever seu nome.
  Pedro ficava encantado com tudo que Tina fazia.
  Então, Tina mostrou a ele a diferença entre direito e esquerdo,
  entre a frente e as costas,
  e que o céu era em cima e o chão era embaixo.
  Um dia, eles resolveram construir uma casa na árvore.
  Tina fez um desenho para que a casa ficasse bem firme em cima da árvore.
  Pedro juntou uma porção de coisas para enfeitar a casa.
  Eles acharam muito engraçado.
  Bem no fundo, Tina gostaria que tudo que ela fizesse não fosse tão perfeito.
  Então, Pedro lhe arranjou um casaco e um chapéu que não combinavam.
  Depois, ensinou Tina a andar de costas e a dar cambalhotas.
  Eles rolaram morro abaixo...
  E juntos aprenderam a voar.
  Pedro e Tina são amigos inseparáveis...
  até debaixo d´água,
  e para sempre."

( as palavras são belíssimas mas sem as imagens não dá para imaginar a beleza do livro, texto e ilustrações maravilhosas! recomendo...).

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ausências - Mario Benedetti

" Justamente por causa do mau tempo, não puderam ficar no pátio. Carmela disse: "Vamos para a cozinha, que eu te faço um café." Então, ela vigiava a cafeteira , de costas para Fabián, ele a viu tão frágil, tão indefesa , tão tomada por um medo inútil, que também se sentiu frágil, mas principalmente comovido. Sem pensar duas vezes, aproximou-se da moça e a abraçou por trás. Mas o abraço não foi tão apertado, que a impedisse de virar e encará-lo.
Ele começou a beijar seus olhos , de novo em lágrimas, e quando chegou à boca, ainda de lábios cerrados, sentiu que alguma coisa estava acontecendo com ele. E com ela, que, pouco a pouco e como à própria revelia , foi entreabrindo os lábios até receber o beijo com ansiedade e tristeza. Ele teve suficiente presença para estender um braço e desligar a cafeteira , que começava a transbordar, mas com o outro começou a desabotoar aquela bata branca, sempre impecável, que era como o uniforme de Carmela. Entregou-se, meio resignada, mas quando Fabián acabou de tirar sua bata, ela cruzou os braços sobre o peito e repetiu várias vezes: "Não sei, não sei, não sei."
"Sabe sim", ele disse e acabou de despi-la. Então ela o abraçou, mas ainda não como uma resposta amorosa, e sim para ocultar sua nudez de Fabián e de si mesma. Ele a pegou no colo ( era tão leve ) e a levou para dentro da casa. Deduziu que em algum lugar devia haver uma cama, mas  teve de achá-la por conta própria. Ela estava ocupada demais com seus escrúpulos para servir de guia.
Quando ele, também sem roupa, enfim se deitou a seu lado, ela fez um alerta honesto, um necessário aviso aos navegantes: "Sou virgem". Fabián limitou-se a sussurrar ao seu ouvido: "A virgindade faz mal á saúde, sabia?" Ela achou graça naquela saída extemporânea , sorriu para si mesma e só então relaxou, desfrutando das carícias e acariciando."

( do maravilhoso conto Ausências do livro Correio do Tempo - Mario Benedetti ).