se eu pudesse leria todos os livros que gosto pra ti, como não posso, escrevo as palavras encantadas que me encantaram.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Raul Taburin - Sempé
" Numa noite em que dava uma garibada num descarrilhador, Figure chegou, depois de dois meses de ausência. Eles ficaram um momento em silêncio.
E, logo que o fotógrafo abriu a boca, Taburin o interrompeu de supetão:
"Sou eu quem falo agora! É preciso que você saiba: eu nunca soube...nunca...eu deveria ter dito...é um segredo...entende?...sou incapaz de..."
De repente, ele se sentiu de bom humor, com vontade de rir. E ria:
"Não sei andar ...é mesmo engraçado! eu não sei andar de..." E ele ria cada vez mais, e Figure também ria, porque começava a entender."
O céu Não sabe Dançar sozinho - Ondjaki
de tempos a tempos necessitarei desse mapa."
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Filomena Firmeza - Patrick Modiano
"Neva hoje em Nova York. Pela janela do meu apartamento, na rua 59 , vejo o prédio em frente onde fica a escola de dança que eu dirijo. Por trás da fachada envidraçada, as alunas de collant terminam suas pontas, meias-pontas e entrechats .
Minha filha, que trabalha como minha assistente , mostra a elas um passo de jazz, para descontrair.
Daqui a pouco vou me juntar a elas.
Entre as alunas, há uma menina que usa óculos. Ela os deixou sobre uma cadeira antes de começar a aula, como eu fazia com essa mesma idade nas aulas da senhora Dismailova. Não se dança de óculos. Eu me lembro de que, na época da senhora Dismailova, eu treinava durante o dia para conseguir ficar sem os óculos. O contorno das pessoas e das coisas perdia a nitidez, tudo se tornava desfocado, até os sons pareciam mais abafados. O mundo, quando eu os via sem os óculos, perdia a aspereza. Ficava tão suave e macio quanto um travesseiro fofo no qual encostava o rosto e terminava de adormecer.
- Está sonhando com o quê, Filomena? - papai me perguntava. - Você deveria pôr os óculos.
Eu obedecia e tudo retomava a rigidez e a precisão costumeiras. De óculos, eu via o mundo tal como ele era. Não podia mais sonhar."
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Clube da Luta - Chuck Palahniuk
"A carcaça explodida e queimada de meu apartamento parece o espaço sideral, negro e devastado na noite acima as luzes da cidade. Como as janelas se foram, uma fita amarela da polícia se contorce e balança no limite de uma queda de quinze andares.
Acordo no chão de concreto. Antes havia um carpete de madeira. Havia quadros nas paredes antes da explosão. Havia mobílias suecas. Antes de Tyler.
Estou vestido. Ponho a mão no bolso e sinto.
Estou inteiro.
Com medo, mas inteiro.
Vá até a beirada, quinze andares acima do estacionamento , olhe para as luzes da cidade e para as estrelas e desapareça.
Tudo está tão distante.
Aqui em cima, nos quilômetros de noite que existem entre as estrelas e a Terra, sinto como se fosse um daqueles animais espaciais.
Cães.
Macacos.
Homens.
Você só faz sua pequena tarefa. Puxa uma alavanca. Aperta um botão. Você não entende nada aquilo de verdade.
O mundo está ficando louco. Meu chefe está morto. Minha casa se foi. Meu trabalho se foi. E sou responsável por tudo isso.
Não sobrou nada.
Estou negativo no banco.
Vá até a beirada.
A fita amarela da polícia flutua entre mim e o esquecimento.
Vá até a beirada.
O que mais sobrou?
Vá até a beirada.
Sobrou a Marla.
Pule da beirada.
Tem a Marla e ela está no meio disso tudo e não sabe.
E ela ama você.
Ela ama Tyler.
Ela não sabe a diferença entre vocês.
Alguém tem que dizer a ela. Fuja.Fuja.Fuja.
Salve-se.
Você desce de elevador até o saguão e o porteiro que nunca gostou de você sorri mostrando a falta de três dentes perdidos por socos e diz:
-Boa noite, senhor Durden. Posso chamar um táxi? Está se sentindo bem? Quer usar o telefone?
Você liga para Marla no Regent Hotel.
O atendente do Regent diz:
-Pois, não, sr. Durden.
Então Marla surge na linha.
O porteiro está ouvindo ao seu lado. O atendente do Regent provavelmente também está ouvindo.
Você diz a Marla que precisam conversar.
-Vai lamber merda - ela responde.
Você diz que ela pode estar em perigo. Que merece saber o que está acontecendo. Vocês precisam conversar.
- Onde?
Você deve ir ao lugar onde nos encontramos pela primeira vez. Lembre-se dele. Pense no passado.
Na bola de luz branca curativa. No palácio das sete portas.
_Entendi. Consigo chegar lá em vinte minutos.
Esteja lá.
Você desliga e o porteiro fala:
_Posso conseguir um táxi para você, senhor Durden. De graça e para onde quiser ir.
Os garotos do clube da luta o estão vigiando. Você diz que não, é uma bela noite e acha que vai caminhar."
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Aquela Água Toda - João Anzanello Carrascoza
"Quando percebeu, o sol era suave, a praia se despovoava, as ondas se encolhiam. Hora de ir,disse o pai e começou a apanhar as coisas. A família seguiu para a avenida, o menino lá atrás , a pele salgada e quente , os olhos resistiam em ir embora. No ônibus , sentou-se à janela, ainda queria ver a praia, atento à sua paixão. Mas, à frente, surgiam prédios, depois casas, prédios novamente, ele ia se diminuindo de mar. O embalo do ônibus, tão macio...Começou a sentir um torpor agradável , os braços doíam , as pernas pesavam, ele foi se aquietando, a cabeça encostada no vidro...
Então aconteceu, finalmente, o que ele tinha ido viver ali de maior. Despertou assustado, o cobrador o sacudia abruptamente , Ei, garoto,acorda! Acorda, garoto!, um zunzunzum de vozes, olhares, e ele sozinho no banco do ônibus , entre os caiçaras, procurando num misto de incredulidade e medo a mãe, o pai, o irmão - e nada. Eram só faces estranhas.
Levantou-se , rápido no seu desespero, Seus pais já desceram, o cobrador disse e tentou acalmá-lo, Desce no próximo ponto e volta! Mas o menino pegou a realidade às pressas e, afobado, se meteu nela de qualquer jeito. Náufrago, ele se via arrastado pelo instante, intuindo seu desdobramento : se não saltasse ali, se perderia na cidade aberta. Só precisava voltar ao raso, tão fundo, de sua vidinha...
Esgueirou-se entre os passageiros, empurrando-os com a prancha. O ônibus parou, aos trancos. O cobrador gritou, Desce, desce aí! O menino nem desceu os degraus, pulou lá de cima, caiu sobre um canteiro na beira da praia. Um búzio solitário, quebradiço. Saiu correndo pelo calçadão, os cabelos de sal ao vento, o coração no escuro. Notou com alívio, lá adiante, o pai que acenava e vinha, em passo acelerado, em sua direção. Depois...depois não viu mais nada: aquela água toda em seus olhos."
lindo, todo o livro em todas as linhas, escrita com as palavras perfeitas em seus lugares certos...
Então aconteceu, finalmente, o que ele tinha ido viver ali de maior. Despertou assustado, o cobrador o sacudia abruptamente , Ei, garoto,acorda! Acorda, garoto!, um zunzunzum de vozes, olhares, e ele sozinho no banco do ônibus , entre os caiçaras, procurando num misto de incredulidade e medo a mãe, o pai, o irmão - e nada. Eram só faces estranhas.
Levantou-se , rápido no seu desespero, Seus pais já desceram, o cobrador disse e tentou acalmá-lo, Desce no próximo ponto e volta! Mas o menino pegou a realidade às pressas e, afobado, se meteu nela de qualquer jeito. Náufrago, ele se via arrastado pelo instante, intuindo seu desdobramento : se não saltasse ali, se perderia na cidade aberta. Só precisava voltar ao raso, tão fundo, de sua vidinha...
Esgueirou-se entre os passageiros, empurrando-os com a prancha. O ônibus parou, aos trancos. O cobrador gritou, Desce, desce aí! O menino nem desceu os degraus, pulou lá de cima, caiu sobre um canteiro na beira da praia. Um búzio solitário, quebradiço. Saiu correndo pelo calçadão, os cabelos de sal ao vento, o coração no escuro. Notou com alívio, lá adiante, o pai que acenava e vinha, em passo acelerado, em sua direção. Depois...depois não viu mais nada: aquela água toda em seus olhos."
lindo, todo o livro em todas as linhas, escrita com as palavras perfeitas em seus lugares certos...
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Histórias de Paris - Mario Benedetti
"E de repente se faz um silêncio. Um silêncio espesso depois de tanta conversa transparente. Estou sentado na beira do catre, e ela está perto, na minha única cadeira , com os cotovelos apoiados na minha mesa cambaia e roída pelos cupins. Então a puxo. Suavemente, como quem recupera um projeto inconcluso, mas agora com mais tino, mais experiência, mais profundidade, mais vontade de torná-lo real. Ela se deixa abraçar e até diria que me abraça, entretanto,graças ao espelho onde faço a barba todos os dias, posso ver que está olhando de novo para o infinito. Então a afasto com todo o carinho de que disponho, que é bastante, e pego seu rosto entre as mãos. Estou abalado, mas mesmo assim encontro forças para lhe perguntar o que está acontecendo, o que há com ela. Murmura alguma coisa num tom tão baixo que não consigo captar uma palavra. Pega a minha mão e a guia lentamente até seu suéter marrom, na realidade até um dos seus peitos sob a lã penteada.
Não sei por quê, mas entendo que aquele gesto não tem o significado mais óbvio. Os olhos que me olham estão secos. Não pode ser, não vai ser, não tem volta, entende?
Isso é o que diz. Não pode ser, por mim e por você. Isso é o que diz. Todas as paisagens mudaram, em toda parte há andaimes, toda parte há escombros. Isso é o que diz. Minha geografia, Roberto. Minha geografia também mudou. Isso é o que diz."
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Dentro do Segredo - José Luís Peixoto
" O meu coração existia dentro de mim. Todas as luzes estavam apagadas. Corri sozinho na direção do rio Taedong. Havia milhares e milhares de pessoas nas suas margens. Através do negro opaco, passava entre elas. A única claridade que vinha do céu, da enorme quantidade de foguetes que rebentavam havia quase uma hora ao longo de quilómetros de rio. Mas ali, ao meu lado,na escuridão total, ninguém baixava a voz ou o olhar quando me via, a minha presença não era sentida. Durante aqueles minutos, fui norte-coreano. Houve mesmo pessoas a dirigirem-se a mim , a dizerem-me qualquer coisa , sem esperarem resposta. Isto, que parece pouco, foi tudo para mim, encheu-me. Esse foi o momento mais intenso que vivi na Coréia do Norte."
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Uma Escuridão Bonita - Ondjaki
" - Vou te contar um segredo - ela começou.
- Ainda conta - perdi o pirilampo de vista.
- Dizem que quando um silêncio chega e fica entre duas pessoas...
- Sim?
- É porque passou um anjo e lhes roubou a voz.
- Tu acreditas em anjos?
- Tu não acreditas em silêncios?
Fosse de esquecimento ou não, a mão dela tinha ficado ancorada na minha, concha e búzio nesse silêncio inventado pelos anjos.
No brilho aceso do Universo, um candeeiro-estrela alumiou mais forte que os outros - em celebração de ofuscamento."
terça-feira, 16 de setembro de 2014
The World of Imagination - Lisbeth Zwerger
"Much has happened since I began working with Michael Neugebauer . My books have wandered around the world , people have liked them, and have been kind enough to award me prizes.
I haven´t had to starve . Once, every word in public was agony for me, today I can sometimes handle appearing in front of small groups or teaching.
Time has certainly taken its toll, but I have been fortunate to have been surrounded by people Always ready to help me. This has by now almost become a tradition.
The publishing industry has changed enormously , as has the entire book-Market . Looking back , my beginnings appear to have taken place in a better world . However , although we both have received our bumps and bruises , Michael Neugebauer has repeatedly managed to steer his boat safe Waters . Ouf of necessity ( but not only because of it ) new and fascinating encounters have developed : with Japanese advertising people, Viennese kindergarten teachers , and Indian film producer, a famous Austrian writer and many other interesting people.
Sometimes there is discouragement but as time goes by you realize that if you let destiny run its course and continue to work steadily , taking your time , things will Always sort themselves out. And this is the most wonderful thing: again and again, just when hope is almost extinguished , there is something new and fresh that strikes you: a poem, a story or a fairy tale. And that , though you may not to be conscious of it in the ups and downs of everyday life , is the crucial thing in the undertaking of Becoming an Illustrator."
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Os Transparentes - Ondjaki
" O Cego sentia saudades das cores, de todas as cores
isso de algum dia ter visto o mundo era uma lembrança confusa - neblina de um sonho recentemente esquecido -, sentia dentro de si uma sólida saudade das cores , sabia imaginá-las , a quentura de um amarelo avermelhado , a tranquilidade de um azul céu, o rosa fresco da parte interna de um mamão, a brandura de um verde seco e até mesmo a simplicidade implacável do branco
_NganaZambi podia ainda me emprestar uma luz, e vez em quando só, nem que eu sempre tivesse a fingir que era ainda cego
_ está a falar mesmo sozinho, camarada Cego? - disse MariaComForça com simpatia na voz
_estava aqui com um pensamento , a senhora me escutou?
_nem entendi nada mesmo
_não era de entender, eu estava a lembrar cores
_então você já viu as cores
_sabe, as cores não são só de ver. há cores que eu sei na minha pele, nas minhas mãos. a vida tem muitos lugares..."
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