quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Clube da Luta - Chuck Palahniuk


"A carcaça explodida e queimada de meu apartamento parece o espaço sideral, negro e devastado na noite acima as luzes da cidade. Como as janelas se foram, uma fita amarela da polícia se contorce e balança no limite de uma queda de quinze andares.
 Acordo no chão de concreto. Antes havia um carpete de madeira. Havia quadros nas paredes antes da explosão. Havia mobílias suecas. Antes de Tyler.
 Estou vestido. Ponho a mão no bolso e sinto.
 Estou inteiro.
 Com medo, mas inteiro.
 Vá até a beirada, quinze andares acima do estacionamento , olhe para as luzes da cidade e para as estrelas e desapareça.
 Tudo está tão distante.
  Aqui em cima, nos quilômetros de noite que existem entre as estrelas e a Terra, sinto como se fosse um daqueles animais espaciais.
 Cães.
 Macacos.
 Homens.
Você só faz sua pequena tarefa. Puxa uma alavanca. Aperta um botão. Você não entende nada aquilo de verdade.
 O mundo está ficando louco. Meu chefe está morto. Minha casa se foi. Meu trabalho se foi. E sou responsável por tudo isso.
 Não sobrou nada.
 Estou negativo no banco.
 Vá até a beirada.
 A fita amarela da polícia flutua entre mim e o esquecimento.
 Vá até a beirada.
 O que mais sobrou?
 Vá até a beirada.
 Sobrou a Marla.
 Pule da beirada.
 Tem a Marla e ela está no meio disso tudo e não sabe.
 E ela ama você.
 Ela ama Tyler.
 Ela não sabe a diferença entre vocês.
 Alguém tem que dizer a ela. Fuja.Fuja.Fuja.
 Salve-se.
 Você desce de elevador até o saguão e o porteiro que nunca gostou de você sorri mostrando a falta de três dentes perdidos por socos e diz:
 -Boa noite, senhor Durden. Posso chamar um táxi? Está se sentindo bem? Quer usar o telefone?
 Você liga para Marla no Regent Hotel.
 O atendente do Regent diz:
 -Pois, não, sr. Durden.
Então Marla surge na linha.
O porteiro está ouvindo ao seu lado. O atendente do Regent provavelmente também está ouvindo.
Você diz a Marla que precisam conversar.
 -Vai lamber merda - ela responde.
 Você diz que ela pode estar em perigo. Que merece saber o que está acontecendo. Vocês precisam conversar.
 - Onde?
Você deve ir ao lugar onde nos encontramos pela primeira vez. Lembre-se dele. Pense no passado.
 Na bola de luz branca curativa. No palácio das sete portas.
 _Entendi. Consigo chegar lá em vinte minutos.
 Esteja lá.
 Você desliga e o porteiro fala:
_Posso conseguir um táxi para você, senhor Durden. De graça e para onde quiser ir.
Os garotos do clube da luta o estão vigiando. Você diz que não, é uma bela noite e acha que vai caminhar."

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Aquela Água Toda - João Anzanello Carrascoza

"Quando percebeu, o sol era suave, a praia se despovoava, as ondas se encolhiam. Hora de ir,disse o pai e começou a apanhar as coisas. A família seguiu para a avenida, o menino lá atrás , a pele salgada e quente , os olhos resistiam em ir embora. No ônibus , sentou-se à janela, ainda queria ver a praia, atento à sua paixão. Mas, à frente, surgiam prédios, depois casas, prédios novamente, ele ia se diminuindo de mar. O embalo do ônibus, tão macio...Começou a sentir um torpor agradável , os braços doíam , as pernas pesavam, ele foi se aquietando, a cabeça encostada no vidro...
Então aconteceu, finalmente, o que ele tinha ido viver ali de maior. Despertou assustado, o cobrador o sacudia abruptamente , Ei, garoto,acorda! Acorda, garoto!, um zunzunzum de vozes, olhares, e ele sozinho no banco do ônibus , entre os caiçaras, procurando num misto de incredulidade e medo a mãe, o pai, o irmão - e nada. Eram só faces estranhas.
Levantou-se , rápido no seu desespero, Seus pais já desceram, o cobrador disse e tentou acalmá-lo, Desce no próximo ponto e volta! Mas o menino pegou a realidade às pressas e, afobado, se meteu nela de qualquer jeito. Náufrago, ele se via arrastado pelo instante, intuindo seu desdobramento : se não saltasse ali, se perderia na cidade aberta. Só precisava voltar ao raso, tão fundo, de sua vidinha...
Esgueirou-se entre os passageiros, empurrando-os com a prancha. O ônibus parou, aos trancos. O cobrador gritou, Desce, desce aí! O menino nem desceu os degraus, pulou lá de cima, caiu sobre um canteiro na beira da praia. Um búzio solitário, quebradiço. Saiu correndo pelo calçadão, os cabelos de sal ao vento, o coração no escuro. Notou com alívio, lá adiante, o pai que acenava e vinha, em passo acelerado, em sua direção. Depois...depois não viu mais nada: aquela água toda em seus olhos."


lindo, todo o livro em todas as linhas, escrita com as palavras perfeitas em seus lugares certos...


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Histórias de Paris - Mario Benedetti


"E de repente se faz um silêncio. Um silêncio espesso depois de tanta conversa transparente. Estou sentado na beira do catre, e ela está perto, na minha única cadeira , com os cotovelos apoiados na minha mesa cambaia  e roída pelos cupins. Então a puxo. Suavemente, como quem recupera um projeto inconcluso, mas agora com mais tino, mais experiência, mais profundidade, mais vontade de torná-lo real. Ela se deixa abraçar e até diria que me abraça, entretanto,graças ao espelho onde faço a barba todos os dias, posso ver que está olhando de novo para o infinito. Então a afasto com todo o carinho de que disponho, que é bastante, e pego seu rosto entre as mãos. Estou abalado, mas mesmo assim encontro forças para lhe perguntar o que está acontecendo, o que há com ela. Murmura alguma coisa num tom  tão baixo que não consigo captar uma palavra. Pega a minha mão e a guia lentamente até seu suéter marrom, na realidade até um dos seus peitos sob a lã penteada.
Não sei por quê, mas entendo que aquele gesto não tem o significado mais óbvio. Os olhos que me olham estão secos. Não pode ser, não vai ser, não tem volta, entende?
Isso é o que diz. Não pode ser, por mim e por você. Isso é o que diz. Todas as paisagens mudaram, em toda parte há andaimes, toda parte há escombros. Isso é o que diz. Minha geografia, Roberto. Minha geografia também mudou. Isso é o que diz."

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dentro do Segredo - José Luís Peixoto


" O meu coração existia dentro de mim. Todas as luzes estavam apagadas. Corri sozinho na direção do rio Taedong. Havia milhares e milhares de pessoas nas suas margens. Através do negro opaco, passava entre elas. A única claridade que vinha do céu, da enorme quantidade de foguetes que rebentavam havia quase uma hora ao longo de quilómetros de rio. Mas ali, ao meu lado,na escuridão total, ninguém baixava a voz ou o olhar quando me via, a minha presença não era sentida. Durante aqueles minutos, fui norte-coreano. Houve mesmo pessoas a dirigirem-se a mim , a dizerem-me qualquer coisa , sem esperarem resposta. Isto, que parece pouco, foi tudo para mim, encheu-me. Esse foi o momento mais intenso que vivi na Coréia do Norte."


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Uma Escuridão Bonita - Ondjaki


" - Vou te contar um segredo - ela começou.
  - Ainda conta - perdi o pirilampo de vista.
  - Dizem que quando um silêncio chega e fica entre duas pessoas...
  - Sim?
  - É porque passou um anjo e lhes roubou a voz.
  - Tu acreditas em anjos?
  - Tu não acreditas em silêncios?
  Fosse de esquecimento ou não, a mão dela tinha ficado ancorada na minha, concha e búzio nesse silêncio inventado pelos anjos.
  No brilho aceso do Universo, um candeeiro-estrela alumiou mais forte que os outros - em celebração de ofuscamento."


terça-feira, 16 de setembro de 2014

The World of Imagination - Lisbeth Zwerger


"Much has happened since I began working with Michael Neugebauer . My books have wandered around the world , people have liked them, and have been kind enough to award me prizes.
 I haven´t had to starve . Once, every word in public was agony for me, today I can sometimes handle appearing in front of small  groups or teaching.
Time has certainly taken its toll, but I have been fortunate to have been surrounded by people  Always  ready to help me. This has by now almost become a tradition.
The publishing industry has changed enormously , as has the entire book-Market . Looking back , my beginnings appear to have taken place in a better world . However , although we both have received our bumps and bruises , Michael Neugebauer has repeatedly managed to steer his boat safe Waters . Ouf of necessity ( but not only because of it ) new and fascinating  encounters have developed : with Japanese advertising people, Viennese kindergarten teachers , and Indian film producer, a famous Austrian writer and many other interesting people.
Sometimes there is discouragement but as time goes by you realize that if you let destiny run its course and continue to work steadily , taking your time , things will  Always sort themselves out. And this is the most wonderful thing: again and again, just when hope is almost extinguished , there is something new and fresh that strikes you: a poem, a story or a fairy tale. And that , though you may not to be conscious of it in the ups and downs of everyday life , is the crucial thing in the undertaking of Becoming  an Illustrator."



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Os Transparentes - Ondjaki


" O Cego sentia saudades das cores, de todas as cores
   isso de algum dia ter visto o mundo era uma lembrança  confusa - neblina de um sonho recentemente esquecido -, sentia dentro de si uma sólida saudade das cores , sabia imaginá-las , a quentura de um amarelo avermelhado , a tranquilidade de um azul céu, o rosa fresco da parte interna de um mamão, a brandura de um verde seco e até mesmo a simplicidade implacável do branco
_NganaZambi podia ainda me emprestar uma luz, e vez em quando só, nem que eu sempre tivesse a fingir que era ainda cego
_ está a falar mesmo sozinho, camarada Cego? - disse MariaComForça com simpatia na voz
_estava aqui com um pensamento , a senhora me escutou?
_nem entendi nada mesmo
_não era de entender, eu estava a lembrar cores
_então você já viu as cores
_sabe, as cores não são só de ver. há cores que eu sei na minha pele, nas minhas mãos. a vida tem muitos lugares..."



quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Oceano no Fim do Caminho - Neil Gaiman


"_ Nada, nunca é igual (...) .Seja um segundo mais tarde ou cem anos depois. Tudo está sempre se agitando e se revolvendo. E as pessoas mudam tanto quanto os oceanos."

Saga - A história de quatro gerações de uma família japonesa no Brasil - Inoue Ryoki



" Desde o início da guerra no Pacífico , as notícias que chegavam do Japão, já bastante manipuladas pelos americanos , eram em parte distorcidas pela censura getulista e em parte pelos redatores dos principais jornais da colônia japonesa no Brasil. Nestes, as boas notícias - para os Aliados - eram publicadas em pequenas notas, e as que davam conta de uma vitória nipônica viravam manchetes em que, subliminarmente era possível notar o famoso yamato damashii ,o espírito japonês , que inclui a veneração pelo imperador e a consciência da absoluta invencibilidade do Japão.
Desde o ataque a Pearl Harbour , houve uma cisão na colônia japonesa no Brasil. De um lado, estavam os kachigumis , que acreditavam na vitória do Japão e, do outro lado, os makegumis , que não acreditavam nela ou simplesmente não se incomodavam com a vitória ou derrota de seu país de origem , tendo efetivamente assumido o Brasil como pátria. Essa divisão de opiniões , que, no início , limitava-se ás discussões e apenas eventualmente gerava alguma briga , tornou-se muito mais séria a partir de 1944, com a criação da Shindô-Renmei ( Liga dos Seguidores do Imperador ), e, depois a rendição japonesa , transformou-se em violência declarada dos kachigumis contra os makegumis.
Com sede no número 96 da Rua Pacatu, no Jabaquara, em São Paulo, a Shindô-Renmei atuou com muita intensidade inclusive no interior de São Paulo e do Paraná, criando 64 filiais nesses dois Estados, com um total de 30 mil sócios registrados e mais de 100 mil imigrantes e descendentes que apoiavam a manutenção a qualquer custo do  yamato damashii.
Era uma organização rica, pois doações não faltavam, e, com esses recursos , conseguiu montar uma infra-estrutura de divulgação bastante forte, incluindo pelo menos um grande jornal a colônia.
Porém a atuação da Shindô-Renmei , que teoricamente deveria estar limitada à preservação do lado cultural e tradicional do yamato damashii , foi focada numa terrível operação de limpeza, que incluía atos terroristas , atentados e até mesmo o assassinato de muitos makegumis.
Um dos fatores preponderantes para essa distorção de objetivos foi a forte presença de ex-militares japoneses entre os imigrantes nipônicos que vieram para o Brasil entre 1928 e 1933. Muitos deles vieram para cá tendo como missão exatamente criar nos países onde a colônia japonesa começava a ser significativa , tanto do ponto demográfico como do econômico , núcleos de resistência à dominação política e cultural do Ocidente. Tornaram-se membros da Shindô-Renmei e passaram a divulgar o yamato damashii literalmente impondo suas ideias ainda que de forma violenta. O líder da associação era Junji Kikawa, ex-oficial do Exército Imperial Nipônico e seguidor fanático da divindade representada pelo imperador Hirohito.
Nos meses que antecederam a rendição nipônica , os principais membros da Shindô-Renmei elaboraram uma lista dos makegumis que deveriam ser eliminados pelos integrantes da Tokko-tai , grupo-ação da organização. Essa relação era composta por centenas de isseis e nisseis que, na opinião de Kikawa e seus conselheiros , de alguma forma manifestavam-se a favor dos Aliados, mesmo que não militassem contra o imperador.
A Shindô-Renmei iniciou sua ação contra os makegumis com atentados terroristas contra as propriedades daqueles que, segundo Kikawa, estavam ajudando os americanos e, portanto, posicionando-se contra o Japão. Entre eles figuravam principalmente os produtores de seda - matéria-prima para a fabricação de pára-quedas - e os plantadores de menta, de onde era extraído um importante aditivo para o combustível dos aviões.
Em 07 de março de 1946, o primeiro makegumi da lista negra, a lista dos que deveriam morrer , Ikuta Mizobe, foi assassinado na cidade de Bastos, interior de São Paulo, por Satoru Yamamoto. A partir daí, 23 makegumis foram mortos e dezenas tiveram suas propriedades atingidas por atentados."

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ERa Uma Vez uma Capa - História Ilustrada da Literatura Infantil - Alan Powers


"Quem viveu durante a Segunda Guerra Mundial confirma o grande crescimento da leitura nesse período. Quer as pessoas estivessem em quartéis, abrigos ou simplesmente confinadas em casa devido ao perigo, aos blecautes e às limitações do transporte , havia pouco a fazer além de ler. Apesar da escassez de papel , novos livros eram produzidos e vendidos rapidamente . Para as crianças, a produção foi reduzida, e os editores se apoiaram fortemente nas reimpressões de textos antigos. Embora a série de HQ Rupert no Daily Express evitasse inteiramente o tema da guerra , autores renomados , como Richmal Crompton  e Angela Brazil, descobriram que era um tópico bem-vindo , apresentando contos relativamente inofensivos de espiões ou exilados.
  No entanto, nem toda atividade editorial era de alto padrão. Em um texto de 1952, o crítico Frank Eyre  lembrou : "Durante os anos da guerra , era impossível ter acesso a várias obras que figurariam em qualquer lista da literatura infantil moderna , e uma quantidade muito maior de livros  de qualidade inferior era produzida". Essa situação ficou ainda mais evidente porque a década de 1930 fora um período prolífico. Por outro lado, como observou o autor Geoffrey Trease, as restrições de papel significaram o fim do processo de "avolumar" artificialmente as edições, comum nos anos  anteriores ao conflito, e "os livros para criança sofreram um saudável processo de emagrecimento".
  Nos Estados Unidos a guerra não envolveu a população até 1941 e o país vivenciou um efeito menos devastador que na Inglaterra, portanto esse contratempo foi menos evidente."