quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A Vida Privada Das Árvores - Alejandro Zambra



"Não pode negar que gosta cada vez mais da solidão; as semanas com Ernesto, por sua vez, têm sido travadas, ásperas. Não que haja violência ou tédio. É uma espécie de falha, uma velatura que alguém espalhou sobre a tela onde Ernesto e Daniela posam para a posteridade . Sabe que muito em breve Ernesto não voltará mais. Imagina-se desconcertada, e depois furiosa, e finalmente invadida por uma decisiva quietude. Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser : ama-se para deixar-se de amar e se deixa de amar para começar a amar os outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma."



quarta-feira, 29 de maio de 2013

Laranja Mecânica - Anthony Burgess




"Mas, irmãos ,esse negócio de ficar roendo as unhas dos dedos do pé sobre qual é a causa da maldade é que me torna um maltchik risonho. Eles não procuram saber qual a causa da bondade, então por que ir à outra loja? Se os plebeus são bons é porque eles gostam, e eu jamais iria interferir com seus prazeres , e o mesmo vale para a outra loja. E eu frequento a outra loja. E mais: maldade vem de dentro, do eu, de mim ou de você totalmente odinokis, e esse eu é criado pelo velho Bog ou Deus, e é seu grande orgulho e radóstia . Mas o não eu não pode ter o mau, quer dizer, eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o mau porque não conseguem permitir o eu. E não é a nossa história moderna, meus irmãos, a história de bravos eus malenks combatendo essas grandes máquinas? Estou falando sério sobre isso com vocês, irmãos. Mas eu faço o que faço porque gosto de fazer."







quarta-feira, 15 de maio de 2013

Da Mão Para a Boca - Paul Auster



" Não vou defender as escolhas que fiz. Se elas não foram práticas, a verdade é que eu não queria ser prático. Queria viver experiências novas, conhecer o mundo e me testar, entrar e sair de várias coisas , explorar o máximo possível. Desde que eu mantivesse os olhos abertos, parecia-me que tudo que acontecesse comigo seria útil , me ensinaria coisas que eu não conhecia antes .
Se isso parece um método um tanto antiquado , então que seja: jovem escritor despede-se da família e dos amigos e parte para um rumo desconhecido, a fim de descobrir a si próprio . Por melhor ou pior que fosse esse caminho , creio que nenhum outro teria me servido. Eu tinha energia, cabeça cheia de ideias e pés que não queriam ficar parados no mesmo lugar. Como o mundo era grande, a última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida."

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Peste - Albert Camus





"Ele sabia o que a mãe pensava e que nesse momento ela o amava. Mas sabia também que não é grande coisa amar um ser, ou que, pelo menos, um amor não é nunca bastante forte para encontrar a sua própria expressão. Assim, sua mãe e ele se amariam sempre em silêncio. E ela morreria por sua vez - ou ele - sem que, durante toda a vida, tivessem conseguido ir mais longe na confissão da sua ternura. Da mesma forma, ele tinha vivido ao lado de Tarrou e essa noite ele morrera sem que sua amizade tivesse tido tempo de ser verdadeiramente vivida. Tarrou perdera a partida, como ele dizia. Mas ele, Rieux, o que tinha ganho? Lucrara apenas por ter conhecido a peste e lembrar-se dela, ter conhecido a amizade e lembrar-se dela. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória. Talvez fosse isso o que Tarrou chamava ganhar a partida!"



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Diego e Frida - J.M.G. Le Clézio




" Em 1928, quando Diego trabalha nos afrescos encomendados pelo Ministério da Educação , pinturas sombrias , inspiradas pelo trágico ônus da Revolução russa, do alto de seu andaime ele vê "uma moça de aproximadamente 18 anos. Ela possuía um belo corpo nervoso, e seu rosto era delicado. Os cabelos eram longos, e as espessas sobrancelhas negras se uniam no alto do nariz, semelhantes às asas de um melro: dois arcos negros encerrando extraordinários olhos castanhos"; e ele não reconhece a criança que o desafiara no teatro.
Embora não tenha acontecido exatamente nas circunstâncias em que o pintor narra, é assim que lhe agrada contar o segundo encontro que sela definitivamente o destino deles, porque se une ao primeiro.Agora, algo mudou. A criança zombeteira que fazia ecoar a voz por detrás das colunas da grande sala Bolívar da Preparatória conheceu os mais extremos sofrimentos e, por sua vez, tornou-se pintora. Queimou etapas para juntar-se ao homem que admirava, de quem decidiu ser a mulher. A pintura, para Frida, é, sem dúvida, antes de tudo, o meio para esse encontro, outro modo, mais forte, mais doloroso, mais audacioso ainda, de empurrar as portas do anfiteatro e irromper na vida daquele que ela escolheu."

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Minhas tudo - Mario Prata


" E descobri muito feliz da vida , que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou está lendo ou escrevendo. E mais : conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.
Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto.
No caso do amor ali nascido , a feiúra, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto . O texto é a causa do amor.
Quando comecei a escrever um livro pela Internet , muitos colegas jornalistas me entrevistaram ( sempre a mim e ao João Ubaldo ) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet.
Naquela época eu não sabia responder a essa  pergunta. Hoje sei e tenho certeza do que penso:
- Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil.E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.
Existe coisa melhor que concluir isso?
Como diria Shakespeare, palavras, palavras, palavras.
Como diria Pelé , love,love,love."




( trecho da crônica Minhas Letra. Amei tanto...)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Reflexões Sobre Um Século Esquecido - Tony Judt





"As estradas de ferro são um serviço público. Por isso os franceses investem pesadamente no setor ( assim como alemães, italianos e espanhóis ). Tratam o imenso subsídio dado ao sistema ferroviário como um investimento na economia local e nacional, bem como em ambiente , saúde, turismo e mobilidade social. Para alguns observadores ingleses e também uns poucos críticos franceses , esses subsídios representam perdas enormes inaceitáveis - difíceis de quantificar, pois estão escondidas nas contas públicas. Mas eles causam um impacto significativo no orçamento nacional. A maioria dos franceses não vê o caso assim, porém : para eles as ferrovias não são um negócio, e sim um serviço que o Estado proporciona aos cidadãos, pago pela coletividade. Um determinado trem, rota ou estação pode não dar lucro, mas o prejuízo é compensado por benefícios indiretos que equilibram a conta. Tratar trens como empresa que pode ser melhor admnistrada por empresários cujos acionistas esperam retorno em dinheiro para seu investimento significa incompreensão de sua verdadeira natureza."

" Os belgas, portanto, podem ser perdoados por um certo  grau de incerteza quanto a sua identidade nacional. O Estado nascido na conferência de Londres, em janeiro de 1831, foi retirado do domínio holandês, ganhou um novo rei, inventado na Alemanha , uma constituição inspirada na francesa de 1791, e um novo nome. Embora o termo "Bélgica" tenha raízes antigas ( o cronista Jean de Guise, no século XII, o atribuía a um monarca lendário, "Belgus", de origem troiana ), a maioria dos habitantes da região identifica-se apenas com sua comunidade local.
Na verdade, a lealdade urbana ou comunal estava no centro daquilo que distingue o lugar de qualquer outro. Desde o século XIII as cidades flamengas se uniam para lutar contra as exigências fiscais e territoriais de nobres, reis e imperadores. Até hoje a Bélgica é o único país da Europa no qual a identificação da localidade imediata atroplea a filiação regional ou nacional na imaginação popular."




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Fernando Pessoa


"No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo os segredos das sinas
De quem sabe amar.

Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer fosse o voo.

Por certo eles foram mais reais e felizes."


( poema encontrado no livro No Teu Deserto de Miguel Sousa Tavares )

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fernando Pessoa





" Não sei que diga. Pertenço à raça dos navegadores e dos criadores de impérios . Se falar como sou , não serei entendido, porque não tenho Portugueses que me escutem. Não falamos , eu e os que são meus compatriotas , uma linguagem comum . Calo. Falar seria não me compreenderem . Prefiro a incompreensão pelo silêncio."
( 1929 - 1930 )

" Quanto mais nos aprofundamos , com a vida , a própria sensibilidade , mais ironicamente nos conhecemos. Aos 20 anos eu cria no meu destino funesto; hoje conheço meu destino banal. Aos 20 anos sonhava com os Principados do Oriente ; hoje contentar-me-ia , sem pormenores e perguntas , com um final da vida tranquila aqui nos subúrbios , dono de uma tabacaria vagarosa.
O  pior que há para a sensibilidade é pensarmos nela , e não com ela. Enquanto me desconheci ridículo , pude ter sonhos em grande escala. Hoje que sei quem sou, só me restam sonhos que delibero ter."
( 1930 )

pág. 199

" Qualquer que seja o teu trabalho , põe individualidade nele , esforça-te por lhe pores  qualquer cousa de único , de diferente , de teu. Há aventuras até no fazer embrulhos . Há campo para a criação até na redacção de facturas. Lembra-te do Noronha. Ninguém podia passar pelas gargantas das Allegheny. Foi lá ter o Noronha.
Eras capaz de ir lá ter ? Não eras.Sê ao menos capaz de ir ter a um novo modo de redigir cartas , de dobrar circulares, de colar selos. Sê original em qualquer coisa. Vive . Sê gente ... Não te deixes ser igual aos outros , como se tivesses nascido carneiro."


( Fernando Pessoa - escritos autobiográficos e de reflexão pessoal )

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Pawana - J.M.G. Le Clézio




" Mas eu, Charles Melville Scammon , comandante do Léonore da Companhia Nantucket , descobri a passagem, e nada será como antes. Meu olhar bateu no segredo, lancei meus caçadores sedentos de sangue e a vida parou de nascer. Tudo agora será destruído e arrasado. Na praia onde nós passamos a primeira noite , ouvindo a respiração dos gigantes que se aproximavam , construíram um cais de madeira , onde os cadáveres das baleias ficam amarrados antes de ir para o corte . Em volta , brotaram muitas cabanas, aldeolas de coletores de sal, de vendedores de água, de lenhadores. O ventre da terra, seco e murcho, tornou-se estéril.
Agora que eu me aproximo do meu fim, penso na proa da chalupa cortando silenciosamente a água pálida da laguna, levando o canhão do índio apontando para o corpo dos gigantes. Penso também no gigantesco salto da fêmea, suspensa um instante na luz, no meio da sua nuvem de gotas, e que arrasta seu filhote para a morte quando tomba na água. Como alguém ousa amar o que matou?
Era a pergunta que me fazia o olhar do garoto na chalupa, essa pergunta que eu continuo escutando. Naquele momento, enquanto a proa da chalupa cortava a água da laguna, muito duramente nós íamos para o nosso destino. Penso nas lágrimas do garoto, quando puxávamos os corpos das baleias para o navio, porque ele era o único a saber o segredo que nós tínhamos perdido.
Penso nele, como se eu pudesse parar o curso do tempo, parar a proa da chalupa, fechar a entrada da passagem.
Hoje sonho com isso, como antigamente eu sonhava em abrir essa passagem.
O ventre da terra poderia então recomeçar a viver, e os corpos das baleias deslizariam docemente pelas águas mais calmas do mundo, nessa laguna que enfim não teria mais nome."