se eu pudesse leria todos os livros que gosto pra ti, como não posso, escrevo as palavras encantadas que me encantaram.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Livro - Um Encontro - Lygia Bojunga
" Eu gostava muitíssimo de cada leitura que eu fazia dos Irmãos Karamazov , das Recordações da Casa dos Mortos , dos Humilhados e Ofendidos e de outros livros de Dostoievski . Mas eu me lembro que eu andava por aquelas páginas sempre olhando daqui,dali , meio que procurando uma casa, uma rua , um casaco, um machado , enfim : um parentesco , um eco do Raskolnikov , que era o personagem central do livro do Dostoievski que eu mais amava: Crime e Castigo. Esse livro foi para mim o exemplo perfeito do quanto nós , leitores , podemos nos envolver emocionalmente com um personagem literário.
Eu achava o Crime e Castigo superbem escrito ; os personagens tão variados ! Mas, para ser franca , o meu grande envolvimento com esse livro foi porque eu me apaixonei pelo Raskolnikov , pelo desequilíbrio dele , pelo desespero dele , pela necessidade que ele tinha... eu digo que ele tinha porque eu voltava sempre ao livro , e então a necessidade ia se repetindo ... pela necessidade que ele tinha de baixar o machado no crânio daquela velha , que horror , e ir se entregando , devagarinho , pro castigo.
Assim, toda apaixonada , eu não queria largar o Raskolnikov : de dia, de noite, em casa, na escola , no ônibus , eu tinha sempre que estar abrindo o Crime e Castigo pra me encontrar com ele .
E pela primeira vez , em dez anos de leitora , eu tive a noção ( ainda meio vaga ) da inquietação que pega a gente quando se está assim em estado de amor por um livro : aquela coisa aflita de estar sempre procurando um jeito de ficar sozinha com ele; só a gente e o livro.
É : o Raskolnikov era mesmo uma paixão.
( ai que delícia ler essa declaração ! também eu sofri essa paixão por Raskolnikov! me apaixonei pela sua fraqueza, pelos seus defeitos, por ele. E pelo jeito não fui a única !).
domingo, 18 de março de 2012
Diário de um Banana - Jeff Kinney
" Sabe aquela coisa de fazer uma lista de "promessas" no começo do ano para tentar se tornar uma
pessoa melhor?
Bom, o problema é que não é fácil para mim pensar em maneiras para me aprimorar , porque já sou uma das melhores pessoas que conheço.
Então minha promessa deste ano é tentar ajudar OUTRAS pessoas a se tornarem melhores. Mas o que descobri é que tem gente que não reconhece quando você tenta ser prestativo."
( coleção pra ler e ser feliz, dar risada com as trapalhadas de Greg Heffley que tem a auto-estima lá pra cima !).
sexta-feira, 9 de março de 2012
Ian McEwan
" Uma vez alguém me perguntou : " Se você pudesse viver até os 150 anos e tivesse a chance de se dedicar a outra carreira , você o faria ?" e eu disse : " Não, obrigado, eu acho que vou ficar com essa mesmo."
Paul Auster
" Para mim, escrever é físico . Sempre tenho a impressão de que as palavras estão saindo do meu corpo e não apenas da minha mente. Eu escrevo à mão e a caneta está arranhando as palavras na página. Posso até ouvir as palavras sendo escritas. Muito do esforço em escrever prosa, para mim, está ligado a criar sentenças que capturem a música que ouço na minha cabeça . Demanda um bocado de trabalho , escrever, escrever e reescrever até captar a música exatamente como você quer que ela seja . Essa música é uma força física.Você não apenas escreve livros fisicamente, mas também os lê fisicamente . Há algo sobre os ritmos da linguagem que correspondem aos ritmos de nossos próprios corpos. Um leitor atento encontra significados no livro que não podem ser articulados , os encontra no seu corpo. Penso que é isso que muitas pessoas não entendem sobre ficção. Espera-se que a poesia seja musical. Mas as pessoas não entendem a prosa . Elas estão tão acostumadas a ler jornalismo - sentenças funcionais que transmitem informações factuais. Fatos...apenas a superfície das coisas."
( trecho da entrevista concedida á revista literária The Believer Magazine que reuniu 21 entrevistas e publicou no livro "Conversas entre Escritores" - Editora Vendela Vida ).
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
O Mínimo e o Escondido - Crônicas de Machado de Assis
"Daquelas conversações tranquilas , algumas longas, estão mortos quase todos os interlocutores , Liais, Fernandes Pinheiro, Macedo, Joaquim Norberto, José de Alencar, só para indicar estes. De resto, a livraria era um ponto de conversação e de encontro. Pouco me dei com Macedo, o mais popular dos nossos autores, pela Moreninha e pelo Fantasma Branco, romance e comédia que fizeram as delícias de uma geração inteira . Com José de Alencar foi diferente ; ali travamos nossas relações literárias. Sentados os dois, em frente à rua, quantas vezes tratamos daqueles negócios de arte e poesia, de estilo e imaginação, que valem todas as canseiras desse mundo. Muitos outros iam ao mesmo ponto da palestra. Não os cito, porque teria de renomear um cemitério, e os cemitérios são tristes, não em si mesmos, ao contrário. Quando outro dia fui a enterrar o nosso velho livreiro, vi entrar no de S. João Batista, já acabada a cerimônia e o trabalho, um bando de crianças que iam divertir-se . Iam alegres como quem não pisa memórias nem saudades. As figuras sepulcrais eram , para elas , lindas bonecas de pedra; todos esses mármores faziam um mundo único, sem embargo das suas flores mofinas, ou por elas mesmas, tal é a visão dos primeiros anos. Não citemos nomes."
( trecho da crônica Garnier do livro "O Mínimo e o Escondido - Crônicas de Machado de Assis" - Luiz Antonio Aguiar ( org.) - Editora Salesiana ).
Frases de Machado de Assis
" É uma porta aberta à imaginação. Porta travessa , se querem ; mas tudo são portas uma vez que se abram e deem passagem à pessoa."
" Eu gosto de catar o mínino e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto."
" As narrações literárias , quando se regem por esse processo, podem vencer o tédio, à força de talento, mas é evidentemente melhor que as coisas e pessoas se exponham por si mesmas , dando-se a palavra a todos, e a cada um a sua natural linguagem."
" Nem é o tamanho que dá primazia à obra, é a feitura dela."
" Não creio em verdades manuscritas. Os próprios versos, que só se fazem por medida, parecem errados,quando escritos à mão. A razão por que muitos moços enganam as moças e vice-versa é escreverem as suas cartas, e entregá-las de mão a mão, ou pela criada, ou pela prima ou por qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda inédito."
( frases encontradas no livro : "O Mínimo e o Escondido - Crônicas de Machado de Assis" - Luiz Antonio Aguiar ( org.) - editora Salesiana ).
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Frases de Emília e uma de Pedrinho
"- Quero ser a Condessa das três estrelinhas ! Acho lindo tudo que é de Três Estrelinhas - a cidade de *** O ano de *** O duque de ***, como está naquele romance que Dona Benta vive lendo."
Emília explica sua evolução : "- Muito simples. Eu de fato fui boneca de pano. Mas evolui e virei gente." "...Eu sou a "evolução gental" daquela bonequinha pernóstica . - Como? - Artes do mistério. Fui virando gentinha e gente sou ; belisco-me e sinto a dor da carne . E também como."
Em Dom Quixote das crianças , os ouvintes de Dona Benta exigem que ela use uma linguagem menos "literária" em sua narrativa . Quando ela concorda , que usará suas palavras , Emília aplaude: "Isso...com palavras suas e de tia Nastácia e minhas também - e de Narizinho - e de Pedrinho e de Rabicó...Nós...queremos estilo clara de ovo, bem transparentinho, que não dê trabalho para ser entendido."
"Sei - disse Emília. - Essas árvores são as vacas vegetais do Amazonas. Os tais seringueiros tiram-lhes o leite e fazem coalhada ; e depois da coalhada fazem requeijão que é a tal borracha."
"...A vida, senhor visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce , isto é , começa a piscar. Quem pára de piscar , chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - e viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda,dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. É o dia e a noite. É portanto um pisca-pisca..."
"Quando vejo certas mães baterem nos filhinhos, meu coração dói. Quando vejo trancarem na cadeia um homem inocente, meu coração dói. Quando ouvi Dona Benta contar a história de D. Quixote, meu coração doeu várias vezes, porque aquele homem ficou louco apenas por excesso de bondade . O que ele queria era fazer o bem para os homens , castigar os maus, defender os inocentes. Resultado: pau, pau e mais pau no lombo dele. Ninguém levou tanta pancadaria como o pobre cavaleiro andante - e estou vendo que é isto que acontece a todos os bons. Ninguém os compreende."
" - Para mim , o Minotauro a devorou - disse Emília .- As cozinheiras devem ter o corpo bem temperado, de tanto que lidam com sal ,alho, vinagre, cebolas. Eu, se fosse antropófaga, só comia cozinheiras."
" O que vale não é ser gente grande, é ser gente de coragem." - Pedrinho
( Monteiro Lobato Livro a Livro - Marisa Lajolo e João Luis Ceccantini )
Princesa Amnésia
"O esquecimento é uma ideia brincando de esconde-esconde dentro de mim"
Amnésia
princesa
Ela falta aos encontros , sempre perde o trem , chega aos espetáculos uma semana antes ou três dias depois. Sinais particulares , ela esquece tudo: quem ela é , quem você é , o que fará e porque você está lá.
Ela não tem memória, só um grande buraco negro."
( Princesas Esquecidas ou Desconhecidas ... Philippe Lechermeier , Rebecca Dautremer )
( livro lindo, maravilhoso e onde descobri a linda princesa Amnésia, por quem me apaixonei e me identifiquei. A origem do nome de meu outro blog: http://www.mundodaamnesia.blogspot.com/ ).
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
A figura do rei
" De acordo com o Chevalier e Gheerbrant, em variadas culturas a figura do rei aparece como um elo entre o céu e a terra, detentor de mandato celeste.
No Japão , por exemplo, a descendência do imperador é diretamente ligada a Amaterasu Omikami, a Deusa do Sol. Na China o vocábulo rei é designado pelo carácter wang formado por três traços horizontais paralelos , o céu, o homem e a terra , ligados no meio por um traço vertical. O rei é o centro do império e intermediário entre o céu e a terra.
No Egito o poder do rei ( faraó ) é de tal natureza, que inspira medo. Seus desígnios são tidos como infalíveis e seus julgamentos , como justos. Considera-se que o faraó é possuidor da mesma natureza de uma divindade.
Já entre os celtas o rei era eleito pelos representantes da classe militar e pelos nobres, mas cabia aos druidas vigiar e dar garantias religiosas a essa escolha , ficando o rei como intermediário entre a classe sacerdotal e os súditos, submisso à autoridade dos druidas .
Em alguns imaginários a figura do rei é também concebida "como uma projeção do eu superior , um ideal a realizar".
Quanto à barba - " Da barba branca batendo no peito , da capa vermelha batendo no pé" - está simbolicamente relacionada , segundo Chevalier e Gheerbrant , à virilidade, à coragem e à sabedoria. Geralmente os monarcas e filósofos são representados com barbas. O curioso é que de tal maneira elas estão associadas ao poder e à sabedoria , que "rainhas egípcias são representadas com barba, como sinal de um poder igual ao dos reis.
Na antiguidade , dava-se uma barba postiça aos homens imberbes e às mulheres que tivessem dado prova de coragem e de sabedoria.
( O Contrato de Comunicação da Literatura Infantil e Juvenil - Ieda de Oliveira )
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
O Gato Cego - Nelson Rodrigues
" Sem que o dissesse a ninguém , trazia , no mais íntimo de si mesmo , a melancolia do veterinário frustrado. Capitulara ante a psiquiatria porque era um fraco da vontade e porque a mãe e as tias haviam concordado. Avisara , porém , com a necessária antecedência: "De maluco, eu não trato". Formou-se . Mas os colegas juravam, num exagero jocoso e cruel , que ele não saberia aplicar uma injeção, nem receitar um comprimido de dor de cabeça. No dia em que voltou da missa de formatura , reuniu-se, de novo, à família. Dr. Sinval disse , na ocasião :
-Agora, só está faltando um consultório, mas olha : é indispensável que seja um consultório com ar de boate. O ar de boate é o "x" do problema.
Então, com seu jeito triste, Bebeto permitiu-se um desabafo : " O diabo é que não entendo tostão de psiquiatria!" Mas o pai estava lá, vigilante e atalhou; definitivo :
- Não entende , nem precisa entender . Além disso, não te esqueças disso: tu vais tratar de pessoas absolutamente sãs.
O filho, que não tinha caráter muito firme e fora estragado pelos mimos, rosnou, numa pusilimidade total : "Espeto, Espeto!" De noite, na hora de dormir, a mãe foi levar-lhe , como de hábito, uma xícara de mate morno. Bebeto suspirou. Teve um lamento arrancado de suas profundezas:
-Eu quis tanto ser veterinário!
Aquelas mulheres, economizando tostão a tostão, através dos anos tinham juntado uma quantia substancial. E, assim, pode montar-se, no centro da cidade, um consultório que parecia extraído das Mil e uma noites e oferecia no seu aspecto todo o ar necessário de uma boate. Era uma coisa tão bonita e insólita que D. Detinha exigiu do marido: "Olha, Sinval, você não pode fumar, aqui, seus charutos. Fume onde quiser. Aqui não." Prontamente ele atendeu. Foi à janela , atirou em cima de um bonde um de seus mata-ratos inenarráveis . No fundo , deu razão à mulher, pois lhe pareceu que fumar um charuto barato naquele ambiente seria uma profanação.
Inaugurou-se , numa quinta-feira, o consultório quase oriental. Dr. Sinval, com as duas mãos nos bolsos, olhando de um lado para outro, inclusive para cima, com uma euforia de pai do proprietário, exclamou:
-Com esse troço aqui, tu podes cobrar, no barato, duas mil pratas por sessão!
Mas nessa noite, o novel analista entrou em casa com um gatinho que encontrara numa sarjeta, miando com a mais patética das sinceridades . Na cozinha deu leite num pires ao pequeno solitário animal. Depois sentou-se na cadeira de balanço, com o gatinho no colo. E o afagou, horas a fio, com a mais desesperada das ternuras.
A primeira cliente que se submeteu à psicanálise do Bebeto foi uma grã-fina, loira e linda, que pagou as duas mil pratas da sessão, com lânguida naturalidade. Estava,ali, porque, 15 dias atrás , enfiara um cigarro aceso na vista de um gato, cegando-o. Fumando um outro cigarro , e com divertida curiosidade, perguntava ao jovem médico, dono de um consultório tão bonito:
-Isso quer dizer o quê?
Durante um longo, um infinito minuto, ele não respondeu nada. Súbito, estendeu a mão :
-Quer me ceder, um momento, seu cigarro?
Sem compreender, a grã-fina atendeu. Ele arremessou-se então. Dominou-a rapidamente. Calcou, num dos seus olhos azuis e lindos a brasa do cigarro. Largou-a, cega, enchendo o edifício com seus gritos. Quando arrombaram a porta e invadiram a sala de psicanálise, ele, de braços cruzados, esperava, sem medo e sem remorso.
Primeiro, foi levado para a delegacia. Depois, tiveram que interná-lo."
( do livro A Vida Como Ela É ... )
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