" Em inglês moderno , friend , amigo , do inglês antigo freond, do verbo freon , amar."
( só uma frase, e linda ! )
se eu pudesse leria todos os livros que gosto pra ti, como não posso, escrevo as palavras encantadas que me encantaram.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Viérotchka - Anton Tchekhov
" Amolecido, Ogniov beijou , mais uma vez o velho e começou a descer a escada. No último degrau, voltou a cabeça e perguntou :
_ Ainda nos veremos um dia?
_ Deus sabe! - respondeu o velho.- Provavelmente nunca!
_Sim, é verdade! Não se consegue atraí-lo a São Petersburgo nem com pão de leite, e eu dificilmente virei parar mais uma vez neste distrito. Bem, adeus!
_Deveria deixar aqui os livros! - gritou-lhe Kuznietzov. - Para que precisa carregar esse peso? Eu mandaria para a sua casa amanhã, por um criado.
Mas Ogniov não o ouvia mais, afastando-se rapidamente da casa. A sua alma, aquecida pelo álcool, estava ao mesmo tempo alegre, tépida e triste...Caminhando, pensava em quão frequentemente encontra-se na vida gente boa e como é lamentável que esses encontros não deixem nada, além de recordações. Acontece aparecerem num repente cegonhas no horizonte, a brisa ligeira traz os seus gritos entre tristonhos e eufóricos ,e, num instante depois, por mais avidamente que fixemos a vista nos longes azuis, não vemos um ponto, não ouvimos um som sequer : assim também as pessoas, com os seus semblantes, as suas falas, aparecerem ligeiramente na vida e submergem em nosso passado, não deixando mais que as pegadas insignificantes da memória. Vivendo desde a primavera no distrito de N. e visitando quase diariamente os cordiais Kuznietzov, Ivan Alieksiéitch acostumou-se como um parente ao velho, á filha, aos criados, aprendeu a conhecer até nos mínimos detalhes toda a casa, o terraço aconchegado , as curvas das alamedas do jardim, as silhuetas das árvores sobre a cozinha e a casa dos banhos; mas daqui a um instante ele passará o portão, e tudo isso se transformará em recordação, perdendo para sempre a significação real, e, passados ainda um ano ou dois, todas essas imagens queridas hão de empalidecer na consciência, a par das invenções e dos frutos da fantasia.
"Na vida, não existe nada mais caro que as pessoas!", pensava emocionado Ogniov, caminhando pela alameda, em direção ao porão. "Nada!"
( trecho do conto Viérotchka - do livro As Três Irmãs e contos - Anton P. Tchekhov )
_ Ainda nos veremos um dia?
_ Deus sabe! - respondeu o velho.- Provavelmente nunca!
_Sim, é verdade! Não se consegue atraí-lo a São Petersburgo nem com pão de leite, e eu dificilmente virei parar mais uma vez neste distrito. Bem, adeus!
_Deveria deixar aqui os livros! - gritou-lhe Kuznietzov. - Para que precisa carregar esse peso? Eu mandaria para a sua casa amanhã, por um criado.
Mas Ogniov não o ouvia mais, afastando-se rapidamente da casa. A sua alma, aquecida pelo álcool, estava ao mesmo tempo alegre, tépida e triste...Caminhando, pensava em quão frequentemente encontra-se na vida gente boa e como é lamentável que esses encontros não deixem nada, além de recordações. Acontece aparecerem num repente cegonhas no horizonte, a brisa ligeira traz os seus gritos entre tristonhos e eufóricos ,e, num instante depois, por mais avidamente que fixemos a vista nos longes azuis, não vemos um ponto, não ouvimos um som sequer : assim também as pessoas, com os seus semblantes, as suas falas, aparecerem ligeiramente na vida e submergem em nosso passado, não deixando mais que as pegadas insignificantes da memória. Vivendo desde a primavera no distrito de N. e visitando quase diariamente os cordiais Kuznietzov, Ivan Alieksiéitch acostumou-se como um parente ao velho, á filha, aos criados, aprendeu a conhecer até nos mínimos detalhes toda a casa, o terraço aconchegado , as curvas das alamedas do jardim, as silhuetas das árvores sobre a cozinha e a casa dos banhos; mas daqui a um instante ele passará o portão, e tudo isso se transformará em recordação, perdendo para sempre a significação real, e, passados ainda um ano ou dois, todas essas imagens queridas hão de empalidecer na consciência, a par das invenções e dos frutos da fantasia.
"Na vida, não existe nada mais caro que as pessoas!", pensava emocionado Ogniov, caminhando pela alameda, em direção ao porão. "Nada!"
( trecho do conto Viérotchka - do livro As Três Irmãs e contos - Anton P. Tchekhov )
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Não Se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo - Nelson Rodrigues
" O mais importante, o fundamental, você tem : ama e é amada . E se quer obter um mínimo de felicidade, parta, sempre , do seguinte princípio : - o verdadeiro amor não pode ser integralmente feliz . Você sabe qual é o verdadeiro erro da maioria absoluta das mulheres? Ei-lo : achar que o fato de amar implica, obrigatoriamente, a felicidade. Quem ama, pensa que vai ser felicíssimo ; e estranha qualquer espécie de sofrimento . Ora, a vida ensina, justamente, que duas criaturas que se amam, sofrem , fatalmente. Não por culpa de um ou de outro; mas em consequência do próprio sentimento. É exato que os amores tem seus êxtases deslumbrantes , momentos perfeitos , musicais, etc, etc. Mas eu disse "momentos" e não as 24 horas de cada dia. Quando uma mulher apaixonada se queixa, eu tenho a vontade de fazer-lhe a seguinte pergunta: "Não lhe basta amar? Você quer, ainda por cima, ser feliz?". Pois o destino , quando concede a graça inefável do amor ,subtrai uma série de outras coisas. Antes de mais nada, o sossego. Quem ama, não tem sossego, perde-o , para sempre. A intensidade de qualquer amor é , por si mesma, trágica."
( Nelson Rodrigues , ops, Myrna num de seus conselhos amorosos ).
( Nelson Rodrigues , ops, Myrna num de seus conselhos amorosos ).
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
A Borra do Café - Mario Benedetti
" Só numa ocasião a praia Capurro, em geral tão desprezada , ficou cheia de gente e de bicicletas. Foi quando o dirigível passou por aqui. O Graf Zeppelin. Aquela espécie de liguiçona prateada, imóvel no espaço, foi considerada admirável, quase mágica por todo o mundo adulto; para nós, em compensação, era uma coisa normal. Mais ainda: o assombro dos adultos nos parecia bobo. Vê-los todos de boca aberta, olhando para cima, provocava em nós um riso tão contagioso que aos poucos foi se transformando na gargalhada de toda uma geração. Os pais , tios e avós sentiram-se tão ofendidos com as risadas que os tapas e beliscões começaram a chover sobre as nossas frágeis anatomias. Uma injustiça histórica que jamais vamos esquecer."
( trecho do capítulo "O dirigível e o Dândi )
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Verão - J.M. Coetzee
" Se os africanos eram eles, quem era nós ? os africânderes ?
Não. Nós era principalmente a gente de cor. É um termo que eu só uso com relutância , para abreviar . Ele - Coetzee - evitava esse termo o quanto podia. Eu mencionei o utopismo dele. Evitar esse termo era outro aspecto desse utopismo. Ele ansiava por um dia em que todo mundo na África do Sul não se chamasse de nada , nem de africano, nem de europeu, nem de branco, nem de negro , nem de nada, em que as histórias familiares estivessem tão emaranhadas e misturadas que as pessoas fossem etnicamente indistinguíveis, ou seja - pronuncio de novo essa palavra maldita - de cor. Ele chamava isso de futuro brasileiro. Ele aprovava o Brasil e os brasileiros. Claro que nunca tinha estado no Brasil."
( Sophie - professora em entrevista ao biógrafo inglês Vincente )
domingo, 20 de novembro de 2011
Pedro e Tina ( uma amizade muito especial ) - Stephen Michael King
"Cada vez que Pedro tentava escrever uma linha reta...
Ela saia toda torta.
Quando todos à sua volta olhavam para cima...
Pedro olhava para baixo.
Se ele achava que ia fazer um dia lindo e ensolarado...
Chovia.
Um dia, de manhã bem cedo, quando estava andando de costas contra o vento,
Pedro deu um encontrão em Tina.
Tina fazia tudo certinho.
Ela nunca amarrava errado os cordões de seus sapatos
nem virava o pão com a manteiga para baixo.
Ela sempre se lembrava do guarda-chuva e sabia muito bem escrever seu nome.
Pedro ficava encantado com tudo que Tina fazia.
Então, Tina mostrou a ele a diferença entre direito e esquerdo,
entre a frente e as costas,
e que o céu era em cima e o chão era embaixo.
Um dia, eles resolveram construir uma casa na árvore.
Tina fez um desenho para que a casa ficasse bem firme em cima da árvore.
Pedro juntou uma porção de coisas para enfeitar a casa.
Eles acharam muito engraçado.
Bem no fundo, Tina gostaria que tudo que ela fizesse não fosse tão perfeito.
Então, Pedro lhe arranjou um casaco e um chapéu que não combinavam.
Depois, ensinou Tina a andar de costas e a dar cambalhotas.
Eles rolaram morro abaixo...
E juntos aprenderam a voar.
Pedro e Tina são amigos inseparáveis...
até debaixo d´água,
e para sempre."
( as palavras são belíssimas mas sem as imagens não dá para imaginar a beleza do livro, texto e ilustrações maravilhosas! recomendo...).
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Ausências - Mario Benedetti
" Justamente por causa do mau tempo, não puderam ficar no pátio. Carmela disse: "Vamos para a cozinha, que eu te faço um café." Então, ela vigiava a cafeteira , de costas para Fabián, ele a viu tão frágil, tão indefesa , tão tomada por um medo inútil, que também se sentiu frágil, mas principalmente comovido. Sem pensar duas vezes, aproximou-se da moça e a abraçou por trás. Mas o abraço não foi tão apertado, que a impedisse de virar e encará-lo.
Ele começou a beijar seus olhos , de novo em lágrimas, e quando chegou à boca, ainda de lábios cerrados, sentiu que alguma coisa estava acontecendo com ele. E com ela, que, pouco a pouco e como à própria revelia , foi entreabrindo os lábios até receber o beijo com ansiedade e tristeza. Ele teve suficiente presença para estender um braço e desligar a cafeteira , que começava a transbordar, mas com o outro começou a desabotoar aquela bata branca, sempre impecável, que era como o uniforme de Carmela. Entregou-se, meio resignada, mas quando Fabián acabou de tirar sua bata, ela cruzou os braços sobre o peito e repetiu várias vezes: "Não sei, não sei, não sei."
"Sabe sim", ele disse e acabou de despi-la. Então ela o abraçou, mas ainda não como uma resposta amorosa, e sim para ocultar sua nudez de Fabián e de si mesma. Ele a pegou no colo ( era tão leve ) e a levou para dentro da casa. Deduziu que em algum lugar devia haver uma cama, mas teve de achá-la por conta própria. Ela estava ocupada demais com seus escrúpulos para servir de guia.
Quando ele, também sem roupa, enfim se deitou a seu lado, ela fez um alerta honesto, um necessário aviso aos navegantes: "Sou virgem". Fabián limitou-se a sussurrar ao seu ouvido: "A virgindade faz mal á saúde, sabia?" Ela achou graça naquela saída extemporânea , sorriu para si mesma e só então relaxou, desfrutando das carícias e acariciando."
( do maravilhoso conto Ausências do livro Correio do Tempo - Mario Benedetti ).
Ele começou a beijar seus olhos , de novo em lágrimas, e quando chegou à boca, ainda de lábios cerrados, sentiu que alguma coisa estava acontecendo com ele. E com ela, que, pouco a pouco e como à própria revelia , foi entreabrindo os lábios até receber o beijo com ansiedade e tristeza. Ele teve suficiente presença para estender um braço e desligar a cafeteira , que começava a transbordar, mas com o outro começou a desabotoar aquela bata branca, sempre impecável, que era como o uniforme de Carmela. Entregou-se, meio resignada, mas quando Fabián acabou de tirar sua bata, ela cruzou os braços sobre o peito e repetiu várias vezes: "Não sei, não sei, não sei."
"Sabe sim", ele disse e acabou de despi-la. Então ela o abraçou, mas ainda não como uma resposta amorosa, e sim para ocultar sua nudez de Fabián e de si mesma. Ele a pegou no colo ( era tão leve ) e a levou para dentro da casa. Deduziu que em algum lugar devia haver uma cama, mas teve de achá-la por conta própria. Ela estava ocupada demais com seus escrúpulos para servir de guia.
Quando ele, também sem roupa, enfim se deitou a seu lado, ela fez um alerta honesto, um necessário aviso aos navegantes: "Sou virgem". Fabián limitou-se a sussurrar ao seu ouvido: "A virgindade faz mal á saúde, sabia?" Ela achou graça naquela saída extemporânea , sorriu para si mesma e só então relaxou, desfrutando das carícias e acariciando."
( do maravilhoso conto Ausências do livro Correio do Tempo - Mario Benedetti ).
Bolsa de viagens curtas - Mario Benedetti
"Querida : quando parti, quando por fim resolvi partir, porque já não conseguia conviver com os antídotos do medo, e sentia que aos poucos começava a odiar minhas esquinas prediletas e as árvores encurvadas , e já não tinha tempo nem vontade de me refugiar no caramanchão do bairro de Flores , e os amigos de sempre começaram a ser de nunca , e havia mais cadáveres nos lixões que nas funerárias , então abri a bolsa das viagens curtas ( embora soubesse que essa ia ser longa ) e comecei a enfiar nela lembranças ao acaso, objetos insignificantes , mas de valor afetivo, imagens sintéticas do feliz, letras que juntas narravam sofrimentos , últimos abraços na primeira fronteira , anoiteceres sem ângelus e com tamboriladas , sorrisos que tinham sido caretas e vice-versa, esmorecimentos e coragens, enfim , uma antologia da ninharia que o vento do hábito não tinha conseguido varrer da face da guerra.
Com essa bolsa das viagens curtas andei por lá e mais além, por aqui e mais aquém. Ás vezes trabalhava com as mãos ágeis e os olhos enxutos, para ganhar o pão, o vinho, o teto e o colchão. No entanto, com a bolsa de viagens curtas não tinha uma relação íntima. Eu sabia que ela dormia no fundo de um armário , desconjuntado pelo tempo e pelas traças. Mas para que me enfrentar a um passado em pílulas , umas nutrientes e outras envenenadas?
Contudo, aos domingos, quando a solidão virava silêncio insuportável, vez por outra eu tirava a bolsa do armário e puxava alguma lembrança de dentro dela; só uma por vez, para não me atordoar. Foi assim que me caiu nas mãos um livro que foi de cabeceira e que eu devo ter lido umas vinte vezes , mas agora me meti em várias de suas páginas e ele não me disse nada , não me perguntou nem respondeu nada, como se não fosse meu. Portando, o joguei fora.
Outro domingo, resgatei uma foto agora feita sépia e lá estavam vários personagens que ocuparam um lugarzinho na minha vida. Dois deles nem imagino onde estarão; um se mantém fiel a si mesmo; três encontraram certa noite uma morte com dragonas ; outros dois se tornaram, com o tempo, finos, elegantes delatores , e hoje gozam do respeito da amnésia pública.O último sou eu , mas também sou outro, quase não me reconheço, talvez porque se me enfrento ao espelho não estou em sépia . Pensando bem, é uma foto acabada, vencida. Portanto, joguei fora.
Outro domingo, tirei da bolsa um relógio à prova d´água e de choque. É de uma boa marca suíça , mas estava parado num crono-símbolo, ou seja, a hora, o minuto e o segundo em que, em plena rua , abateram o Venâncio, você sabe quem é , nesse tempo foi meu Greenwich.
Para que vou querer um relógio que só cronometra e fixa a desgraça? Portanto, o joguei fora.
Domingo após domingo fui esvaziando a bolsa: canivetes, canetas, óculos escuros, recortes de jornais, calmantes , agendas, passaportes vencidos, mais fotos, cartas de amigos e inimigos. A verdade é que tudo foi me parecendo velho , inexpressivo, calado, desconexo, precário.
No entanto, ontem, domingo, meti outra vez minha mão naquele poço do passado, e ela saiu com uma coisa tua: teu lenço de seda azul, aquele em que em três das quatro estações rodeava teu pescoço bonito , jovem, que eu tanto amava. Eles acabaram com você, e eu estou insuportavelmente só. Te mataram no meu lugar. É duro admitir, caralho, que você é minha morte suplente.
Portanto, dessa vez vou jogar fora minha pobre bolsa para viagens curtas e ficar só com teu lenço azul.
Vou te guardar comigo para a viagem longa."
( a exceção de todos, esse é completo e todas as vezes que eu o leio, encontro uma beleza que vicia, uma tristeza tão bem desenhada...).
conto completo "Bolsa de viagens curtas" incluído no livro "Correio do tempo" - Mario Benedetti
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Sobre Tchékhov - Máximo Górki
" A . Tchékhov viveu a vida toda com os recursos da sua alma, sempre foi ele mesmo e livre por dentro, nunca tomava em consideração aquilo que uns esperavam de Anton Pávlovitch , e outros mais rudes, exigiam. Não gostava das conversas sobre "altas matérias", conversas com as quais o homem russo distrai-se com tanto afinco, esquecendo-se de que é ridículo e nada espirituoso entrar em divagações sobre os futuros ternos quando não se pode ter nem uma calça decente no presente.
Sendo simples de uma maneira bonita, ele gostava de tudo simples, verdadeiro, sincero, e tinha seu meio original de fazer com que as pessoas se tornassem simples."
"Não conheci ninguém que sentisse a importância do trabalho como a base da cultura, de modo tão profundo e sob todos os aspectos, como Anton Pávlovitch. Isso se manifestava em todas as miudezas da vida doméstica , na escolha de objetos e no amor nobre a esses objetos que, excluindo totalmente o desejo de acumulá-los , não se cansa de admirá-los como produto da criação do espírito humano. Gostava de construir coisas, cultivar jardins , embelezar a terra; ele sentia a poesia do trabalho. Com que preocupação comovente ele observava como cresciam em seu pomar as árvores frutíferas e os arbustos decorativos plantados por ele! Dizia, quando cuidava dos afazeres da construção de sua casa em Autka :
_Se cada pessoa fizesse o máximo possível no seu terreninho, como seria bela a nossa terra!"
" Pode-se escrever muito sobre Tchékhov, só que é preciso escrever dele minuciosa e nitidamente , o que eu não sei fazer. Seria bom escrever sobre ele assim como ele escreveu "A estepe", um conto aromático, leve e tão russo em sua melancolia contemplativa . Um conto para si mesmo.
Faz bem se lembrar desse homem, pois na hora o ânimo volta a entrar em sua vida e ela ganha sentido e clareza.
O homem é o eixo do mundo.
E - dizem - os vícios - não seriam defeitos seus?
Todos nós somos famintos de amor ao homem e, quando se tem fome, mesmo um pão mal-assado alimenta e é gostoso."
( como eu adoraria ter conhecido esse escritor ...)
( TRês Russos e Como me Tornei um Escritor - Máximo Górki ).
Sendo simples de uma maneira bonita, ele gostava de tudo simples, verdadeiro, sincero, e tinha seu meio original de fazer com que as pessoas se tornassem simples."
"Não conheci ninguém que sentisse a importância do trabalho como a base da cultura, de modo tão profundo e sob todos os aspectos, como Anton Pávlovitch. Isso se manifestava em todas as miudezas da vida doméstica , na escolha de objetos e no amor nobre a esses objetos que, excluindo totalmente o desejo de acumulá-los , não se cansa de admirá-los como produto da criação do espírito humano. Gostava de construir coisas, cultivar jardins , embelezar a terra; ele sentia a poesia do trabalho. Com que preocupação comovente ele observava como cresciam em seu pomar as árvores frutíferas e os arbustos decorativos plantados por ele! Dizia, quando cuidava dos afazeres da construção de sua casa em Autka :
_Se cada pessoa fizesse o máximo possível no seu terreninho, como seria bela a nossa terra!"
" Pode-se escrever muito sobre Tchékhov, só que é preciso escrever dele minuciosa e nitidamente , o que eu não sei fazer. Seria bom escrever sobre ele assim como ele escreveu "A estepe", um conto aromático, leve e tão russo em sua melancolia contemplativa . Um conto para si mesmo.
Faz bem se lembrar desse homem, pois na hora o ânimo volta a entrar em sua vida e ela ganha sentido e clareza.
O homem é o eixo do mundo.
E - dizem - os vícios - não seriam defeitos seus?
Todos nós somos famintos de amor ao homem e, quando se tem fome, mesmo um pão mal-assado alimenta e é gostoso."
( como eu adoraria ter conhecido esse escritor ...)
( TRês Russos e Como me Tornei um Escritor - Máximo Górki ).
domingo, 16 de outubro de 2011
Histórias de Cronópios e de Famas - Júlio Cortázar
Viagens
"Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige á delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações.
Terminadas estas providências , os viajantes se reúnem na praça principal da cidade, comunicam-se suas observações e entram no café para beber um apiritivo.Mas antes eles se seguram pelas mãos e dançam em roda. Esta dança recebe o nome de Alegria dos famas.
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram , chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altissímos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem com todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: "Que bela cidade, que belissima cidade." E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados . E no dia seguinte levantam contentíssimos , e é assim que os cronópios viajam.
As esperanças, sedentárias , deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens , e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vem até nós."
( eu quero ser um cronópio!).
"Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige á delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações.
Terminadas estas providências , os viajantes se reúnem na praça principal da cidade, comunicam-se suas observações e entram no café para beber um apiritivo.Mas antes eles se seguram pelas mãos e dançam em roda. Esta dança recebe o nome de Alegria dos famas.
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram , chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altissímos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem com todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: "Que bela cidade, que belissima cidade." E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados . E no dia seguinte levantam contentíssimos , e é assim que os cronópios viajam.
As esperanças, sedentárias , deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens , e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vem até nós."
( eu quero ser um cronópio!).
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