sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Sobre Tchékhov - Máximo Górki

" A . Tchékhov viveu a vida toda com os recursos da sua alma, sempre foi ele mesmo e livre por dentro, nunca tomava em consideração aquilo que uns esperavam de Anton Pávlovitch , e outros mais rudes, exigiam. Não gostava das conversas sobre "altas matérias", conversas com as quais o homem russo distrai-se com tanto afinco, esquecendo-se de que é ridículo  e nada espirituoso entrar em divagações sobre os futuros ternos quando não se pode ter nem uma calça decente no presente.
Sendo simples de uma maneira bonita, ele gostava de tudo simples, verdadeiro, sincero, e tinha seu meio original de fazer com que as pessoas se tornassem simples."

"Não conheci ninguém que sentisse a importância do trabalho como a base da cultura, de modo tão profundo e sob todos os aspectos, como Anton Pávlovitch. Isso se manifestava em todas as miudezas da vida doméstica , na escolha de objetos e no amor nobre a esses objetos que, excluindo totalmente o desejo de acumulá-los , não se cansa de admirá-los como produto da criação do espírito humano. Gostava de construir coisas, cultivar jardins , embelezar a terra; ele sentia a poesia do trabalho. Com que preocupação comovente ele observava como cresciam em seu pomar as árvores frutíferas e os arbustos decorativos plantados por ele! Dizia, quando cuidava dos afazeres da construção de sua casa em Autka :
_Se cada pessoa fizesse o máximo possível no seu terreninho, como seria bela a nossa terra!"

" Pode-se escrever muito sobre Tchékhov, só que é preciso escrever dele minuciosa e nitidamente , o que eu não sei fazer. Seria bom escrever sobre ele assim como ele escreveu "A estepe", um conto aromático, leve e tão russo em sua melancolia contemplativa . Um conto para si mesmo.
Faz bem se lembrar desse homem, pois na hora o ânimo volta a entrar em sua vida e ela ganha sentido e clareza.
O homem é o eixo do mundo.
E - dizem - os vícios - não seriam defeitos seus?
Todos nós somos famintos de amor ao homem e, quando se tem fome, mesmo um pão mal-assado alimenta e é gostoso."


(  como eu adoraria ter conhecido esse escritor ...)

( TRês Russos e Como me Tornei um Escritor - Máximo Górki ).

domingo, 16 de outubro de 2011

Histórias de Cronópios e de Famas - Júlio Cortázar

Viagens

"Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige á delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações.
Terminadas estas providências , os viajantes se reúnem na praça principal da cidade, comunicam-se suas observações e entram no café para beber um apiritivo.Mas antes eles se seguram pelas mãos e dançam em roda. Esta dança recebe o nome de Alegria dos famas.
Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram , chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altissímos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem com todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: "Que bela cidade, que belissima cidade." E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados . E no dia seguinte levantam contentíssimos , e é assim que os cronópios viajam.
As esperanças, sedentárias , deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens , e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vem até nós."

( eu quero ser um cronópio!).

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Manoel por Manoel


" Eu tenho um ermo enorme bem dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba . Mas não havia vizinho . Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto . Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas . De uma infância livre e sem comparamentos . Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança , a gente faz comunhão : de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças , de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas . Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor."

( o doce Manoel de Barros no livro Memórias Inventadas - Terceira Infância )

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Amuleto - Roberto Bolãno



"Ai, lembrar disso me faz rir. Que vontade de chorar! Estou chorando? Vi tudo e, ao mesmo tempo, não vi nada. Entendem o que quero dizer? Sou a mãe de todos os poetas e não permiti ( ou o destino não permitiu ) que o pesadelo me desmontasse. As lágrimas agora escorrem por minhas faces estragadas. Eu estava na faculdade naquele 18 de setembro em que o exército violou a autonomia e entrou no campus para prender ou matar todo o mundo. Não. Na Universidade não houve muitos mortos. Foi em Ilatelolco. Esse nome há de ficar em nossa memória para sempre! Mas eu estava na faculdade quando o exército e os granadeiros entraram e baixaram o cacete na gente.Coisa mais incrível. Eu estava no banheiro, num dos banheiros de um dos andares da faculdade, o quarto, creio, não posso precisar.Estava sentada na latrina , com a sia arregaçada, como diz o poema ou a canção, lendo aquelas poesias tão delicadas de Pedro Garfias, que tinha morrido fazia um ano, dom Pedro tão melancólico, tão triste da Espanha e do mundo em geral, quem iria imaginar que eu estaria lendo no banheiro justo no momento em que aqueles granadeiros babacas entravam na universidade. Acho, permitam-me este inciso, que a vida está repleta de coisas enigmáticas, pequenos acontecimentos que só estão esperando o contato epidérmico , nosso olhar para se desencadearem numa série de fatos causais que, depois, vistos através do prisma do tempo, não podem deixar de produzir em nós assombro e espanto. De fato, graças a Pedro Garfias, aos poemas de Pedro Garfias e a meu inveterado vício de ler no banheiro , fui a última a saber que os granadeiros tinham entrado, que o exército tinha violado a autonomia universitária e que, enquanto minhas pupilas percorriam os versos daquele espanhol morto no exército , os soldados e granadeiros estavam preenchendo e baixando o cacete em todo o mundo que encontravam pela frente, sem que importasse sexo ou idade, condição civil ou status adquiridos ( ou presenteado ) no intrincado mundo das hierarquias universitárias."

( Auxilio Lacouture , artista meio hippie e louca, imigrante uruguaia, andarilha - personagem inspirada na pintora Alcira, que de fato escapou da repressão ao se esconder por semanas no banheiro feminino de um dos andares da Faculdade de Filosofia e Letras em setembro de 1.968 ).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Meu Tio - Jean - Claude Carrière - romance baseado no filme de Jacques Tati

" Cortar, torrar, adoçar, apimentar, salgar, pressionar e arrumar, cortar, torrar...sanduíches e petits-fours, pernil de cordeiro recheado, presunto cru, presunto cozido e presunto light, fatias de tomate, um pouco de gema de ovo e salada verde...
Geladeira abarrotada, cozinha trepidante, especiarias, condimentos, azeitonas pretas, azeitonas verdes e pepinos em conserva...Bandejas estreitas, engradados, cavaletes, cubos de gelo se chocando, vidros e canudinhos, cinzeiros , pratinhos, garfinhos, faquinhas, guadanapinhos de papel...
O chá, o suco de frutas, a água mineral, as mesinhas para copos, contar cadeiras, recontar...Cortar, tostar, adoçar, apimentar, salgar...
- Georgette!!
- Pois não, senhora.
-Preciso de ajuda! Não vê que assim eu nunca vou terminar?! Você deixa tudo para eu fazer, é inacreditável! Charles ! A campainha!
- Onde?
- No portão, oras! Me ajude !
Meu pai abandonando o cestinho e o alicate, ligou o chafariz e abriu o portão. Apareceu um árabe na entrada do jardim, lá longe, um vendedor de tapetes carregando retalhos coloridos.
Eu mesmo, naquele dia, me deixei levar por aquela confusão toda.
- Pode deixar - disse meu pai, cortando o jato do chafariz.
- O que é ?
- Nada, nada. Não se preocupe.
O árabe estava plantado imóvel na entrada do jardim. Agitava de leve a mercadoria, mas não dava para entender o que estava dizendo: tinha muito barulho na casa.
Meu pai berrou:
-Não, não precisamos de nada!
O árabe cabeça-dura não ia embora e continuava a sacudir os tapetes flamejantes.
-Não,não vamos comprar tapetes! - berrou meu pai, levemente nervoso. - O que o senhor quer?...Mas eu já disse...Já temos tudo!...Como? ...Não estou ouvindo! Como? Oh!
Vi meu pai empalidecer e entendi na mesma hora que ele.
Ele se ergueu com desespero até o botão do chafariz e disse, na direção da cozinha:
- É a vizinha..."

( o pai confundindo a vizinha com um vendedor árabe e ainda tantas outras confusões que ainda aconteceriam na garden-party que a mãe de Gérard estava preparando. Um livro leve e divertido, uma delícia !! ).

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Maleta Do Meu Pai - Orhan Pamuk


" Mas a literatura nunca é uma preocupação apenas nacional. O escritor que se recolhe e antes de mais nada empreende uma viagem para dentro de si mesmo haverá de descobrir ao longo dos anos a regra eterna da literatura: é preciso ter o talento de contar as próprias histórias como se fossem histórias dos outros, e contar as histórias dos outros como se fossem suas, porque é isso a literatura. Mas antes é preciso viajar pelas histórias e pelos livros de outros."

( trecho do discurso da cerimônia de entrega do prêmio nobel de literatura de 2007).

" O anjo da inspiração ( que visita regularmente alguns e raramente outros ) favorece os escritores dotados de esperança e confiança, e é quando o escritor se sente mais só, quando ele mais duvida dos seus esforços, dos seus sonhos e do valor do que escreve - quando acha que a sua história é só a sua história - é em momentos assim que o anjo decide revelar-lhe histórias, imagens e sonhos que irão evocar o mundo que ele pretende construir. Quando penso nos livros a que dediquei toda minha vida, o que mais me surpreende são esses momentos em que eu sentia que as frases, os sonhos e as páginas que me deixavam tão arrebatado de felicidade não vinham da minha imaginação, que era outro poder que as encontrava e, generoso, me presenteava com elas."

( muitas vezes me senti sozinha enquanto escrevia meu projeto de um livro infantil e também várias vezes achava que minhas histórias eram apenas minhas, sem nada de especial e quando me senti assim tão sozinha fui agraciada com esse anjo e ele me abençoou! Lindos depoimentos nesse livro de Orhan Pamuk , que homenageia seu pai ).

GRande Sertão : Veredas - João Guimarães Rosa


" Diz que  direi ao senhor o que nem tanto é sabido : sempre que se começa a ter amor a alguém , no ramerrão , o amor pega e cresce é porque , de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia , querendo e ajudando, mas , quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente inteiriço fatal, carente de querer, e é um facear com as surpresas. Amor desse , cresce primeiro; brota é depois."

" Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adiação nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que ás vezes adivinhei insensatamente - tentação dessa eu esparecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos."

" Todos os sucedidos acontecendo , o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe. O Reinaldo era Diadorim - Mas Diadorim era um sentimento meu."

( As filosofias de amor de Riobaldo - que achei tão lindas...)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Baleia - GRaciliano Ramos


" Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes."

( trecho de Vidas Secas sobre a cadelinha Baleia que inicialmente era conto, depois capítulo e por fim a personagem mais carismática do livro, a que mais gosto ).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Porco do Morin - Guy de Maupassant

" Nós estávamos sós, completamente sós, Rivet e o tio haviam desaparecido numa curva da alameda, e eu fiz uma longa declaração,longa, doce, apertando e beijando-lhe os dedos. Ela escutava aquilo como uma coisa agradável e nova, sem saber ao certo no que deveria acreditar.
Eu acabei por me sentir oprimido, trêmulo, e suavemente, enlaceia-a pela cintura.
Eu lhe falava baixinho. Ela parecia morta, de tão cismada que estava.
Depois sua mão encontrou a minha e apertou-a , eu fui encerrando lentamente o seu talhe num trêmulo e crescente abraço, ela não se movia absolutamente, eu roçava a sua face com a minha boca, e de súbito os meus lábios sem procurar encontraram os seus. Foi um longo , interminável beijo, e teria durado ainda muito tempo , se eu não tivesse ouvido um significativo "hum-hum" a alguns passos atrás de mim.
Ela fugiu por debaixo das árvores. Eu me voltei e avistei Rivet, que vinha ao meu encontro."

( Labarbe narrando um de seus encontros com Henriette , no conto "O Porco do Morin" - um dos meus favoritos do Maupassant . )

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Caetés - Graciliano Ramos - Mais um trechinho...

" -Uma perfeição, o rio , murmurei. Muito branco, cheio de pedras, e largo, um rio que faz gosto. É trabalho seu, d. Marta? E aqueles patinhos de celulóide dão uma graça...Que rio será esse, d. Josefa? É o Amazonas?
Elas aventuraram que talvez fosse o Jordão.
- O Jordão? É verdade, deve ser o Jordão. Onde foi que Jesus nasceu? Em Nazaré...ou em Belém...O Jordão fica por essas bandas. As senhoras sabem se ele passa por Nazaré...ou por Belém? Em todo o caso deve passar perto, o Amazonas, que doidice! É o Jordão, sem dúvida. Pois sim senhoras, um Jordão excelente.
Receberam o elogio, sérias."


"Ia neste ponto, esfregava as mãos e procurava meio de escapar-me , quando Luísa chegou à porta, em companhia de d. Engrácia, d. Priscilla e Vitorino. A Teixeira, que veio pouco depois, apontou-me com um gesto cômico:
-Por aqui, em adoração. Estava lá embaixo, no bazar, chorando com febre.Quis por força ver o presépio, tanto fez que o trouxemos. Sabe muito : a geografia da Palestina e o Evangelho.
Luísa atirou-me um olhar de desprezo, tive a impressão de que em mim havia um desmoronamento. Nada opus aos gracejos da Teixeira."

( João Valério faz- me rir... )