" ...... eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu senti uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero para mim o menino que vi com cabelos de arcanjo correndo atrás da bola. Eu queria somente olhar. O homem olhou um instante para mim e sorriu calmo: ele sabia quanto era belo e sei que sabia que eu não o queria para mim. Sorriu porque não sentiu ameaça alguma.É que os seres excepcionais em qualquer sentido estão sujeitos a mais perigos do que o comum das pessoas. Atravessei a rua e tomei um táxi. A brisa arrepiava-me os cabelos da nuca. E eu estava tão feliz que me encolhi no canto do táxi de medo porque a felicidade dói. E isto tudo causado pela visão do homem bonito. Eu continuava a não querê-lo para mim - gosto é das pessoas um pouco feias e ao mesmo tempo harmoniosas, mas ele de certo modo dera-me muito com o sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. Tudo isso eu não entendia."
( Água Viva - Clarice Lispector )
se eu pudesse leria todos os livros que gosto pra ti, como não posso, escrevo as palavras encantadas que me encantaram.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Hóspede Secreto - Miguel Sanches Neto
" Soltei o corpo e, esparramado no chão, comecei a chorar.
Chorei por vários minutos, como se fosse criança. Chorei tudo que eu não tinha chorado na vida. Chorei as lágrimas que engoli no enterro da mãe, chorei a saudade, sua falta.Chorei como órfão indefeso.
Não comi, não tomei banho, não assisti tevê. Embora o relógio já tenha há muito anunciado meia-noite,permaneço aqui na sala, as luzes apagadas, um sabor de sal nos lábios secos,sozinho, cansado, mas de um cansaço diferente daquele que sempre busquei.
De um cansaço para o resto da vida."
( do conto "O Bom Filho" do livro Hóspede Secreto - Miguel Sanches Neto ).
Chorei por vários minutos, como se fosse criança. Chorei tudo que eu não tinha chorado na vida. Chorei as lágrimas que engoli no enterro da mãe, chorei a saudade, sua falta.Chorei como órfão indefeso.
Não comi, não tomei banho, não assisti tevê. Embora o relógio já tenha há muito anunciado meia-noite,permaneço aqui na sala, as luzes apagadas, um sabor de sal nos lábios secos,sozinho, cansado, mas de um cansaço diferente daquele que sempre busquei.
De um cansaço para o resto da vida."
( do conto "O Bom Filho" do livro Hóspede Secreto - Miguel Sanches Neto ).
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto
"...Eu duvido, eu duvido, duvido da justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos milenários combates com as feras, quando disputávamos a terra a elas...E não vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos , a matar, sempre a matar...Este seu irmão que estás vendo,também fez das suas, também foi descobrir dentro de si muita brutalidade, muita ferocidade, muita crueldade...Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus pés...Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguém enfim....Não imaginas como que me doía não era a ferida, era a alma, era a consciência; e Ricardo, que foi ferido e caiu ao meu lado, a gemer e pedir -"capitão, meu gorro, meu gorro!"- parecia que era o meu próprio pensamento que ironizava o meu destino...
Esta vida é absurda e ilógica ; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol...
O melhor é não agir, Adelaide; e desde que meu dever me livre destes encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possível, para que do fundo de mim mesmo ou do mistério das coisas não provoque a minha ação o aparecimento de energias estranhas à minha vontade, que mais me façam sofrer e tirem o doce sabor de viver...
Além do que, penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil . Tudo o que nele pus de pensamento não foi atingido, e o sangue que derramei, e o sofrimento que vou sofrer toda a vida, foram empregados, foram gastos,foram estragados,foram vilipendiados e desmoralizados em prol de uma tolice política qualquer...
Ninguém compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo, maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com sua brutalidade e fealdade."
( trecho de carta de Policarpo Quaresma á irmã Adelaide - Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto ).
Esta vida é absurda e ilógica ; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol...
O melhor é não agir, Adelaide; e desde que meu dever me livre destes encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possível, para que do fundo de mim mesmo ou do mistério das coisas não provoque a minha ação o aparecimento de energias estranhas à minha vontade, que mais me façam sofrer e tirem o doce sabor de viver...
Além do que, penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil . Tudo o que nele pus de pensamento não foi atingido, e o sangue que derramei, e o sofrimento que vou sofrer toda a vida, foram empregados, foram gastos,foram estragados,foram vilipendiados e desmoralizados em prol de uma tolice política qualquer...
Ninguém compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo, maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com sua brutalidade e fealdade."
( trecho de carta de Policarpo Quaresma á irmã Adelaide - Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto ).
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Memórias Inventadas - As Infâncias de Manoel de Barros
" De outra feita ,no meio da pelada um menino gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu não disiliminei ninguém. Mas naquele verbo novo trouxe um perfume de poesia á nossa quadra. Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aquela que não pode mudar de lugar. Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam. Pois depois ouvi um vaqueiro a cantar com saudade: Ai morena, não me escreve/ que eu não sei a ler". Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro."
( Memórias Inventadas - As Infâncias de Manoel de Barros - Editora Planeta )
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Ah, Se A Gente Não Precisasse Dormir ! - Keith Haring
Diversão - Celebrar a Vida
"Um bando de macacos brinca na copa de uma árvore. Estão pulando e rindo porque a vida é muito divertida. É bom quando aprendemos a gostar de nós mesmos tal como somos e a gostar dos outros porque eles são diferentes e divertidos, cada um do seu jeito. Curtir a vida e os amigos é motivo suficiente pra festejar."
( Ah, Se a Gente Não Precisasse Dormir ! - Henry Haring - CosacNaify )
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Casamento - Adélia Prado
" Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva."
( Casamento - Adélia Prado - Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século - Seleção de José Nêumanne Pinto )
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva."
( Casamento - Adélia Prado - Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século - Seleção de José Nêumanne Pinto )
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Amores Difíceis - Ítalo Calvino
" Stefania compreendeu que acontecera algo e ela não podia mais voltar atrás. Este seu novo modo de ficar no meio dos homens, o notívago, o caçador, o operário, a tornara diferente. Tinha sido este o seu adultério, este ficar sozinha no meio deles, assim, em pé de igualdade. De Fornero já nem se lembrava mais.
O portão estava aberto. Stefania R. entrou em casa bem ligeirinho. A zeladora não a viu."
( A Aventura de uma esposa )
" Elide lavava os pratos, examinava a casa de cima a baixo, as coisas que o marido tinha feito, sacudindo a cabeça.Agora ele estava correndo pelas ruas escuras, entre os raros faróis, talvez já estivesse depois do gasômetro. Elide ia para a cama, apagava a luz. De seu próprio lado, deitava, espichava um pé em direção ao lugar do marido, para procurar o calor dele, mas toda vez reparava que onde ela dormia era mais quente, sinal de que Arturo também havia dormido ali e isso despertava nela uma grande ternura."
( A Aventura de um esposo e uma esposa )
O portão estava aberto. Stefania R. entrou em casa bem ligeirinho. A zeladora não a viu."
( A Aventura de uma esposa )
" Elide lavava os pratos, examinava a casa de cima a baixo, as coisas que o marido tinha feito, sacudindo a cabeça.Agora ele estava correndo pelas ruas escuras, entre os raros faróis, talvez já estivesse depois do gasômetro. Elide ia para a cama, apagava a luz. De seu próprio lado, deitava, espichava um pé em direção ao lugar do marido, para procurar o calor dele, mas toda vez reparava que onde ela dormia era mais quente, sinal de que Arturo também havia dormido ali e isso despertava nela uma grande ternura."
( A Aventura de um esposo e uma esposa )
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Um gato chamado Gatinho - Ferreira Gullar
" O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
têm pelo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.
É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.
No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.
Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença - é carinho."
( Ronron do Gatinho , do livro Um gato chamado Gatinho de 2000 )
que a natureza inventou;
têm pelo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.
É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.
No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.
Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença - é carinho."
( Ronron do Gatinho , do livro Um gato chamado Gatinho de 2000 )
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Paris é uma festa - Ernest Hemingway
"...Uma moça entrou no café e sentou-se perto da janela. Era muito bonita, com um rosto fresco como uma moeda acabada de cunhar, se é que se pode cunhar moedas em carne tão macia, coberta de pele umedecida pela chuva. Seus cabelos eram negros como a asa de um corvo, cortados rente e em diagonal á face.
Olhei para ela, senti-me perturbado e numa grande excitação. Desejei colocá-la no meu conto, ou noutra parte qualquer,mas a moça se colocara de maneira a poder acompanhar o movimento da rua e da entrada do café, e compreendi que estava á espera de alguém. Por isso continuei a escrever.
O conto escrevia-se por si próprio, e eu tinha dificuldade em conduzí-lo. Pedi outro rum Saint James, observando a moça todas as vezes que levantava os olhos ou quando fazia a ponta do lápis, com um apontador, deixando as raspas encaracoladas no pires que tinha sob o cálice.
"Eu a vi, oh, beleza, você me pertence agora, seja quem for que esteja esperando e mesmo que nunca a veja mais em toda minha vida", pensei. "Você me pertence, toda a Paris me pertence e eu pertenço a este caderno e a este lápis."
Voltei a escrever, entrei a fundo na história e me perdi nela. Agora quem a escrevia era eu; o conto não se escrevia mais por si próprio , de modo que não tornei a levantar a cabeça.
Esqueci-me do tempo, do lugar em que me encontrava, e nem sequer mandei vir outro rum Saint James. Cansara-me dele sem pensar nisso. Terminei o conto,afinal, sentindo-me realmente cansado. Reli o último parágrafo e, quando levantei os olhos á procura da moça, não a encontrei mais."Tomara que tenha ido com um homem decente", pensei. Mas sentia-me triste..."
Olhei para ela, senti-me perturbado e numa grande excitação. Desejei colocá-la no meu conto, ou noutra parte qualquer,mas a moça se colocara de maneira a poder acompanhar o movimento da rua e da entrada do café, e compreendi que estava á espera de alguém. Por isso continuei a escrever.
O conto escrevia-se por si próprio, e eu tinha dificuldade em conduzí-lo. Pedi outro rum Saint James, observando a moça todas as vezes que levantava os olhos ou quando fazia a ponta do lápis, com um apontador, deixando as raspas encaracoladas no pires que tinha sob o cálice.
"Eu a vi, oh, beleza, você me pertence agora, seja quem for que esteja esperando e mesmo que nunca a veja mais em toda minha vida", pensei. "Você me pertence, toda a Paris me pertence e eu pertenço a este caderno e a este lápis."
Voltei a escrever, entrei a fundo na história e me perdi nela. Agora quem a escrevia era eu; o conto não se escrevia mais por si próprio , de modo que não tornei a levantar a cabeça.
Esqueci-me do tempo, do lugar em que me encontrava, e nem sequer mandei vir outro rum Saint James. Cansara-me dele sem pensar nisso. Terminei o conto,afinal, sentindo-me realmente cansado. Reli o último parágrafo e, quando levantei os olhos á procura da moça, não a encontrei mais."Tomara que tenha ido com um homem decente", pensei. Mas sentia-me triste..."
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Marcelino Pedregulho - Sempé
"Se eu quisesse que todo mundo ficasse triste, contaria que os dois amigos, presos ás suas obrigações, não se reviram mais. De fato, é o que acontece na maioria das vezes. A gente reencontra um amigo, fica supercontente, faz planos.
E depois, a gente não se vê mais.Porque não temos tempo, porque moramos longe um do outro, porque temos um monte de trabalho. Por mil outros motivos.
Mas Marcelino e Renê se reviram."
( trecho de Marcelino Pedregulho - do ilustrador francês Jean -Jacques Sempé - editora - Cosac Naify )
E depois, a gente não se vê mais.Porque não temos tempo, porque moramos longe um do outro, porque temos um monte de trabalho. Por mil outros motivos.
Mas Marcelino e Renê se reviram."
( trecho de Marcelino Pedregulho - do ilustrador francês Jean -Jacques Sempé - editora - Cosac Naify )
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