" Ela não pôde ir além em sua leitura,fechou o livro e levantou-se rapidamente:
- Acabou a ressureição de Lázaro - murmurou gravemente.Ficou imóvel,sem ousar lançar um olhar a Raskólnikov . Seu tremor febril durava sempre. O coto da vela acabava de consumir-se no castiçal torcido e iluminava fracamente aquele cômodo miserável,onde um assassino e uma prostituta se haviam tão estranhamente unido para lerem o Livro Eterno."
Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski
se eu pudesse leria todos os livros que gosto pra ti, como não posso, escrevo as palavras encantadas que me encantaram.
quinta-feira, 11 de março de 2010
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
copie você mesma
"Ouça: respeite a você mais do que aos outros,respeite suas exigências,respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina o que é ruim em você - pelo amor de Deus,não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal,copie você mesma - esse é o único meio de viver."
( trecho da biografia Clarice, Benjamin Moser ).
( trecho da biografia Clarice, Benjamin Moser ).
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
o livro dos abraços

"Nos antigamentes,dom Verídico semeou casas e gentes em volta do botequim El Resorte,para que o botequim não se sentisse sozinho.Este causo aconteceu,dizem por aí,no povoado por ele nascido.
E dizem por aí que ali havia um tesouro,escondido na casa de um velhinho todo mequetrefe.
Uma vez por mês,o velhinho,que estava nas últimas,se levantava da cama e ia receber a pensão.
Aproveitando a ausência,alguns ladrões,vindos de Montevidéu,invadiram a casa.
Os ladrões buscaram e buscaram o tesouro em cada canto. A única coisa que encontraram foi um baú de madeira,caberto de trapos,num canto do porão.O tremendo cadeado que o defendia resistiu,invicto,ao ataque das gazuas.
E assim,levaram o baú.Quando finalmente conseguiram abri-lo,já longe dali,descobriram que o baú estava cheio de cartas.Eram as cartas de amor que o velhinho tinha recebido ao longo de sua longa vida.
Os ladrões iam queimar as cartas.Discutiram.Finalmente,decidiram devolvê-las.Uma por uma.Uma por semana.
Desde então,ao meio-dia de cada segunda feira,o velhinho se sentava no alto da colina.E lá esperava que aparecesse o carteiro no caminho.Mal via o cavalo,gordo de alforjes,entre as árvores,o velhinho desandava a correr.O carteiro que já sabia,trazia sua carta nas mãos.
E até São Pedro escutava as batidas daquele coração enlouquecido de alegria por receber palavras de mulher."
( causos/2 - do livro "o livro dos abraços" de Eduardo Galeano )
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

"Sim,íamos à escola no mar,embora você talvez não acredite.."
"Nunca falei que não acredito!",interrompeu Alice.
"Falou sim", disse a Tartaruga Falsa.
"Cale-se!",acrescentou o Grifo,antes que Alice pudesse falar de novo.A Tartaruga Falsa continuou.
"Tivemos a melhor das educações...na verdade,íamos à escola todos os dias..."
"Eu também já frequentei uma escola diária",disse Alice."Não precisa se orgulhar tanto disso."
"Com extras?",perguntou a Tartaruga Falsa,um pouco ansiosa.
"Sim",disse Alice,"estudávamos francês e música."
"E lavagem?", disse a Tartaruga Falsa.
"Claro que não!",disse Alice indignada.
"Ah! Então a sua escola não era realmente boa",disse a Tartaruga Falsa, num tom de grande alívio."Na nossa,eles tinham,no final do boletim,francês,música e lavagem-extra".
"Vocês não deviam precisar muito disso",disse Alice,"vivendo no fundo do mar."
"Eu não tinha os meios para fazer esse curso",disse a Tartaruga Falsa com um suspiro."Só fiz o curso regular."
"E qual era o curso regular?",perguntou Alice.
"Lerdear e Esquivar,para início de conversa",respondeu a Tartaruga Falsa,"e depois os diferentes ramos da Aritmética - Ambição, Distração,Amiudação e Derrisão".
"Nunca ouvi falar de 'Amiudação'",Alice se arriscou a dizer."O que é?"
O Grifo levantou as duas patas surpreso.
"Nunca ouviu falar de amiudar!",exclamou.
"Você sabe o que significa agrandar,não?"
"Sim",disse Alice em tom de dúvida."Significa...tornar...algo...maior".
"Bem, nesse caso",continuou o Grifo,"se não sabe o que é amiudação,você é uma pateta".
( trecho da conversa entre Alice,o Grifo e a Tartaruga Falsa - Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll )
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Na praia - Ian McEwan

"Quando pensava nela,parecia-lhe surpreendente que tivesse deixado aquela garota com seu violino ir embora.Agora,é claro,via que a proposta recatada que ela lhe fizera era totalmente irrelevante.Tudo aquilo que ela precisava era da certeza do amor dele,e da sua garantia de que não havia pressa,pois tinham a vida pela frente.Amor e paciência - se pelo menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo - certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades.E que dizer das crianças que poderiam ter tido,e da menininha com um arco no cabelo que poderia ter se tornado sua filha querida?É assim que todo o curso de uma vida pode ser desviado - por não se fazer nada.Na praia de Chesil,ele poderia ter gritado o nome de Florence,poderia ter ido atrás dela.Ele não sabia,ou não teria querido saber,que,enquanto ela fugia,certa na sua dor de que o estava perdendo,nunca o amara tanto,ou mais desesperadamente,e que o som da voz dele teria sido seu resgate,e que ela teria voltado atrás.Em vez disso,ele permaneceu num silêncio frio e honrado,na penumbra do verão, a observá-la em sua precipitação ao longo da orla,o som do seu avanço difícil perdendo-se entre o das pequenas ondas a quebrar na praia,até ela ser apenas um ponto borrado,desaparecendo na estrada estreita e infinita de seixos brilhando sob a luz pálida."
( Na Praia - Ian McEwan )
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Cemitério de Pianos - José Luiz Peixoto

"_ Em princípio, telefonamos ainda hoje.Telefonamos logo que o seu marido falecer."
Foi assim que a enfermeira disse.Sem reparar talvez que a minha mulher já não era ninguém.Sem reparar que as palavras que lhe dizia se perdiam sem eco dentro da sua escuridão.
Ás nove horas da noite,o telefone tocou.O telefone tocou durante um momento que foi muito longo,porque ninguém o queria atender,porque todos tinham medo de o atender.O telefone tocou.O som atravessou a casa e o peito da minha mulher,da Maria e do Francisco.Quem atendeu foi o marido da Maria.
_Sim,sim.Está bem.Eu digo - Aproximou-se dos meus filhos e da minha mulher e disse-lhes.
O Hermes tinha acabado de nascer.
As palavras foram:
_Nasceu o menino da Marta.
O Hermes tinha acabado de nascer.
No hospital, A Marta estava a descansar.E ninguém sabia como ficar feliz,mas a felicidade era tão forte e crescia de dentro deles.Era como se tivessem uma nascente de água no peito e a felicidade fosse essa água.Houve um milagre que fez lágrimas.E tinham as mãos pousadas sobre o peito.Tinham as pálpebras fechadas muito devagar sobre os olhos para sentirem a chuva branda dessa felicidade que os cobria,inundava.
Passou uma hora.O telefone tocou de novo.
Eu tinha acabado de morrer.
( passagem narrada pelo personagem Lázaro - Cemitério de Pianos - José Luiz Peixoto )
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Notícias do mês de maio

"É tempo de arraso,a batida
no falso Museu da Espécie,
aqui estão as notícias
Maio 68 Maio 68
O poema do dia o efêmero e recorrente fogo de artifício
ardendo na França e na Alemanha
no Rio em Buenos Aires em Lima e em Santiago
os estudantes em assalto
em Praga e em Milão em Zurique e em Marselha
os estudantes cheios de pombos de pólvora
os estudantes que erguem com suas mãos nuas
os paralelepípedos de cimento e estatística
para apedrejar o Grande Costume
e na ordenada cibernética
abrir de par em par janelas como seios."
"Exagerar já é um começo de invenção"
(inscrição na Faculdade de Letras de Paris,maio de 1968 )
"Meus Desejos São a Realidade"
(Nanterre)
"Desabotoe Seu Cérebro Tantas Vezes Quanto a Braguilha"
( Teatro Odeon,Paris )
"Sexo,Tudo Bem,Disse Mao,Mas Não Tão Frequente"
(Faculdade de Letras,Paris )
"Sejam Realistas: Peçam o Impossível."
( Faculdade de Letras,Paris )
" A Revolução é Incrível Porque é Verdadeira"
( Faculdade de Letras,Paris )
"Amai-vos uns sobre os outros."
( Faculdade de Letras,Paris )
" Decreto o Estado De Felicidade Permanente"
( Faculdade de Ciências Políticas,Paris )
"Sim,nossos sonhos
mais uma vez os sonhos batendo como galhos na tempestade
nas janelas cegas
mais uma vez os sonhos
a certeza de que Maio
pôs no ventre da noite
um sêmen de canção de tocha a chamada
terna e selvagem do amor que olha ao longe
para inventar a alvorada o horizonte."
"Dormindo se Trabalha Melhor: Formem Comitê de Sonhos."
(Sorbonne)
( Notícias de Maio - Último Round - Tomo I - Julio Cortázar )
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
A Dama do cachorrinho - Anton P. Tchekhov

"Passaria um mês,mais ou menos,e Ana Sierguéievna,tinha a impressão,cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e somente de raro ia aparecer-lhe em sonho, com seu tocante sorriso,tal como outras apareciam.No entanto, decorreu mais de um mês chegaram os rigores do inverno,mas tudo permanecia nítido na memória,como se a separação de Ana Sierguéievna tivesse sido na véspera.E as recordações tornavam-se cada vez mais intensas.Quer lhe chegassem ao escritório, em meio à quietude do anoitecer, as vozes das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um órgão ou uma canção no restaurante, o vento soprasse na lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o que sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela névoa sobre as montanhas, o navio chegando de Feodóssia,os beijos.Passava muito tempo caminhando pelo quarto e recordando,sorria e, depois, as lembranças transformavam-se,em sua imaginação,ao que viria ainda.Não sonhava mais com Ana Sierguéievna, ela o acompanhava por toda parte,como uma sombra , e vigiava-o.Fechando os olhos,via-a e ela parecia mais bonita,mais jovem,mais terna do que fora realmente; e ele próprio aparecia melhor do que tinha sido naqueles dias de Ialta. Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro do armário de livros,da lareira, do canto da sala, ele ouvia sua respiração,o frufru carinhoso de suas roupas.Na rua, acompanhava mulheres com o olhar,procurando alguma que a ela se assemelhasse..."
( A Dama do Cachorrinho e outros contos - Anton P. Tchekhov )
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
As Relações Perigosas - Choderlos de Laclos

"...Consagro-me a isso por inteiro; a partir deste momento eu me dou a vós e não tereis, de minha parte, nem recusas nem lamentos.Foi com essa candura ingênua ou sublime que ela me ofereceu sua pessoa e seus encantos e aumentou minha felicidade,partilhando-a. A embriaguez foi completa e recíproca.E pela primeira vez, a minha sobreviveu ao prazer. Só saí de seus braços para cair a seus pés e jurar-lhe um amor eterno;e,deve-se confessar tudo,acreditava no que dizia.Finalmente,mesmo depois de nos separarmos,sua lembrança não me largava e tive necessidade de trabalhar para me distrair."
Paris,neste 29 de outubro de 17**
( Carta CXXV do Visconde de Valmont à Marquesa de Marteuil )
( As Relações Perigosas - Choderlos de Laclos )
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Aquela voz - Ítalo Calvino

"Aquela voz certamente vem de uma pessoa única,inimitável como qualquer pessoa,porém uma voz não é uma pessoa,é algo de suspenso no ar,destacado da solidez das coisas.Também a voz é única e inimitável,mas talvez num outro modo diferente da pessoa:poderiam voz e pessoa ,não se parecer.Ou então assemelhar-se de um modo secreto, que não se vê á primeira vista: a voz poderia ser o equivalente daquilo que a pessoa tem de mais oculto e de mais verdadeiro.É um você próprio sem corpo que escuta aquela voz sem corpo?Então que você a escute de fato ou a relembre ou a imagine,não faz diferença.
Contudo,você quer que seja o seu próprio ouvido a perceber aquela voz,portanto o que o atrai não é somente uma lembrança ou uma fantasia mas a vibração de uma garganta de carne.Uma voz significa isso: existe uma pessoa viva,garganta,tórax,sentimentos,que pressiona no ar essa voz diferente de todas as outras vozes.Uma voz põe em jogo a úvula,a saliva, a infância,a pátina da existência vivida, as intenções da mente,o prazer de dar uma forma própria ás ondas sonoras.O que o atrai é o prazer que esta voz põe na existência - na existência como voz - , mas esse prazer o conduz a imaginar o modo como a pessoa poderia ser diferente de qualquer outra tanto quanto é diferente a voz."
( trecho do conto Um Rei à Escuta do livro Sob o Sol-Jaguar - Ítalo Calvino )
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