segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Fernando Pessoa


"No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo os segredos das sinas
De quem sabe amar.

Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer fosse o voo.

Por certo eles foram mais reais e felizes."


( poema encontrado no livro No Teu Deserto de Miguel Sousa Tavares )

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fernando Pessoa





" Não sei que diga. Pertenço à raça dos navegadores e dos criadores de impérios . Se falar como sou , não serei entendido, porque não tenho Portugueses que me escutem. Não falamos , eu e os que são meus compatriotas , uma linguagem comum . Calo. Falar seria não me compreenderem . Prefiro a incompreensão pelo silêncio."
( 1929 - 1930 )

" Quanto mais nos aprofundamos , com a vida , a própria sensibilidade , mais ironicamente nos conhecemos. Aos 20 anos eu cria no meu destino funesto; hoje conheço meu destino banal. Aos 20 anos sonhava com os Principados do Oriente ; hoje contentar-me-ia , sem pormenores e perguntas , com um final da vida tranquila aqui nos subúrbios , dono de uma tabacaria vagarosa.
O  pior que há para a sensibilidade é pensarmos nela , e não com ela. Enquanto me desconheci ridículo , pude ter sonhos em grande escala. Hoje que sei quem sou, só me restam sonhos que delibero ter."
( 1930 )

pág. 199

" Qualquer que seja o teu trabalho , põe individualidade nele , esforça-te por lhe pores  qualquer cousa de único , de diferente , de teu. Há aventuras até no fazer embrulhos . Há campo para a criação até na redacção de facturas. Lembra-te do Noronha. Ninguém podia passar pelas gargantas das Allegheny. Foi lá ter o Noronha.
Eras capaz de ir lá ter ? Não eras.Sê ao menos capaz de ir ter a um novo modo de redigir cartas , de dobrar circulares, de colar selos. Sê original em qualquer coisa. Vive . Sê gente ... Não te deixes ser igual aos outros , como se tivesses nascido carneiro."


( Fernando Pessoa - escritos autobiográficos e de reflexão pessoal )

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Pawana - J.M.G. Le Clézio




" Mas eu, Charles Melville Scammon , comandante do Léonore da Companhia Nantucket , descobri a passagem, e nada será como antes. Meu olhar bateu no segredo, lancei meus caçadores sedentos de sangue e a vida parou de nascer. Tudo agora será destruído e arrasado. Na praia onde nós passamos a primeira noite , ouvindo a respiração dos gigantes que se aproximavam , construíram um cais de madeira , onde os cadáveres das baleias ficam amarrados antes de ir para o corte . Em volta , brotaram muitas cabanas, aldeolas de coletores de sal, de vendedores de água, de lenhadores. O ventre da terra, seco e murcho, tornou-se estéril.
Agora que eu me aproximo do meu fim, penso na proa da chalupa cortando silenciosamente a água pálida da laguna, levando o canhão do índio apontando para o corpo dos gigantes. Penso também no gigantesco salto da fêmea, suspensa um instante na luz, no meio da sua nuvem de gotas, e que arrasta seu filhote para a morte quando tomba na água. Como alguém ousa amar o que matou?
Era a pergunta que me fazia o olhar do garoto na chalupa, essa pergunta que eu continuo escutando. Naquele momento, enquanto a proa da chalupa cortava a água da laguna, muito duramente nós íamos para o nosso destino. Penso nas lágrimas do garoto, quando puxávamos os corpos das baleias para o navio, porque ele era o único a saber o segredo que nós tínhamos perdido.
Penso nele, como se eu pudesse parar o curso do tempo, parar a proa da chalupa, fechar a entrada da passagem.
Hoje sonho com isso, como antigamente eu sonhava em abrir essa passagem.
O ventre da terra poderia então recomeçar a viver, e os corpos das baleias deslizariam docemente pelas águas mais calmas do mundo, nessa laguna que enfim não teria mais nome."



segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Culpa É Das Estrelas - John Green



"- O que foi ?  - perguntei.
  - Nada - ele respondeu.
  - Por que você está olhando para mim desse jeito?
Ele deu um sorrisinho.
 -  Porque você é bonita. Eu gosto de olhar pessoas bonitas, e faz algum tempo que resolvi não me negar os prazeres mais simples da existência humana. - Um silêncio constrangedor se seguiu. Mas o Augustus quebrou o gelo. - Quer dizer, principalmente porque, como você deliciosamente observou, tudo isso vai acabar em total esquecimento, e tal..."





( Mergulhei nesse livro por três dias. E continuei mergulhada mesmo depois de terminada a leitura, mesmo ele fechado. Porque me apaixonei por Augustus.Porque existe os encontros e despedidas. As realizações de sonhos e a esperança. A espera por respostas. A doença e a morte. A dor. A saudade. E existe os dias que se seguem depois de tudo isso, a vida. E existe a tristeza, e isso não podemos ignorar.E acima de tudo, existe o Amor ).

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A Bicicleta Que Tinha Bigodes - Ondjaki



" A Isaura dá nomes de presidentes aos bichos do quintal dela, e porque são muitos bichos , ela sabe nomes de muitos presidentes . Podem ser nomes também de alguns que já morreram ou mesmo outros que não foram presidentes mas pessoas assim importantes.
O gato dela se chama Ghandi, acho que era um senhor tipo indiano ou quê. O cão se chama AmílcarCabral, até lhe chamamos de AmílcarCãobral. A lesma é Senghor, os gafanhotos são Samora, Mobutu e Khadafi, os sapos se chamam Raúl e Fidel. Parece que também deu nomes aos passarinhos mas nunca consegui decorar a lista toda.
Agora é que me lembrei, há um papagaio chamado JoãoPauloTerceiro, filho do falecido jacó JoãoPauloSegundo que tinha morrido na boca do próprio Ghandi. É que o Ghandi, se chamava Tátecher! Só depois de comer os papagaios é que lhe cortaram os tímbalos e ficou mais calmo a miar devagarinho e a não arranhar ninguém.
 Mas eu não posso dizer "tímbalos", nem mesmo "timbalóides", porque a minha AvóDezanove não gosta que eu diga disparates."

O Africano - Le Clézio



" É escrevendo que agora compreendo. Essa memória não é somente a minha. É também a memória do tempo anterior ao meu nascimento, quando meu pai e minha mãe andavam juntos pelas estradas do planalto , nos reinos do oeste de Camarões. A memória das esperanças e angústias de meu pai, de sua solidão, seu abatimento em Ogoja. A memória dos momentos de felicidade, quando eles dois estavam unidos pelo amor que acreditavam ser eterno. Iam então pela liberdade dos caminhos, e os nomes dos lugares adentraram em mim como sobrenomes, Bali, Nkom, Bamenda, Banso, Nkong-samba, Revi, Kwaja. E os nomes das terras , Mbembé, Kaka,Nsungli, Bum, Fungom. As chapadas por onde avança lentamente o rebanho de animais com chifres de lua para enganchar nas nuvens, entre Lassim e Ngonzin.
Afinal de contas, talvez meu velho sonho não me tenha enganado. Se meu pai se tornou o Africano, por força de seu destino, eu, quanto a mim, posso pensar em minha mãe africana, aquela que me beijou e nutriu no instante no qual fui concebido , no instante em que nasci.



( abrir esse livro é viajar para a África. Uma viagem bela, triste e emocionante. Belíssimo livro!)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Bonsai - Alejandro Zambra



" A primeira mentira que Julio contou a Emília foi que tinha lido Marcel Proust. Não costumava mentir sobre suas leituras, mas naquela segunda noite , quando os dois sabiam que alguma coisa estava começando entre eles , e que essa coisa , durasse o quanto durasse, ia ser importante , naquela noite Julio impostou a voz e fingiu intimidade , e disse que sim, que tinha lido Proust , aos dezessete anos, num verão, em Quintero. "



( mais uma descoberta maravilhosa! )

terça-feira, 26 de junho de 2012

Bom Dia Camaradas - Ondjaki



" Pela janela enorme entrava luz , entrava o som dos passarinhos , entrava o som da água a pingar no tanque, entrava o cheiro da manhã, entrava o barulho das botas dos guardas da casa ao lado, entrava o grito do gato porque ele ia lutar com outro gato, entrava o barulho da despensa a ser aberta pela minha mãe, entrava o som de uma buzina , entrava uma mosca gorda , entrava uma libélula que nós chamávamos de helibélula , entrava o barulho do gato que depois da luta saltava pro telheiro de zinco , entrava o som do guarda a pousar a aká porque ia se deitar , entravam assobios , entrava muita luz mas, acima de tudo, entrava o cheiro do abacateiro , o cheiro do abacateiro que estava a acordar."


( Ondjaki - o amor literário do ano. Lindo ! )

terça-feira, 5 de junho de 2012

Avó Dezanove e o segredo do soviético - Ondjaki




"Sentado na varanda, eu gostava de fazer essa brincadeira de primeiro olhar as nuvens brancas a dançarem no céu empurradas pelo vento, na escola sempre ensinaram que o vento é invisivel , e até é , mas, sem querer parecer maluco tipo o Espuma do Mar, ás vezes eu acho que, pelo modo de as nuvens voarem, quase fica possível ver de onde vem o vento e sobretudo para onde ele quer ir. O vento não deve gostar de andar sozinho, se repararem bem, porque sempre quer levantar poeira , dobrar as árvores , soprar as folhas e arrastar as nuvens para longe. O vento deve ter uma casa no tão-longe e está sempre a tentar levar as nuvens para a casa dele, mas isso é uma coisa que eu penso sozinho sem contar a ninguém, porque outras crianças podem me chamar de chanfru e os mais-velhos podem querer me dar remédios para ver se fico bom da cabeça."


"Fomos devagarinho em direção à casa do SenhorTuarles, pai da Charlita, meio a sorrir, o camarada VendedorDeGasolina fazia aquilo quase todas as manhãs, preparava uma vassoura própria ,calçava umas botas de borracha , desenrolava uma mangueira , abria a torneira e não havia água .

- Que estranho, não há água na torneira - e voltava a arrumar tudo devagarinho.

Estranhos são os mais-velhos que fazem as coisas repetidas todos os dias apesar de saberem que há coisas que não mudam. Há quantos anos não havia água naquela bomba de gasolina?"


( um dos livros mais lindos que já li. Daqueles de serem lidos e relidos pra mergulhar nas palavras  do personagem que narra a história. Lindo ! )

O Burrinho Pedrês - João Guimarães Rosa



"Galhudos, gaiolos , estrelos , espácios , combucos , cubetos, lobunos , lompardos , caldeiros , cambraias , chamurros , churriados , corombos , cornetos, bocalvos , borralhos , chumbados , chitados , vareiros, silveiros...E os tocos da testa do mocho macheado, e as armas antigas do boi cornalão..."



( tradução, priss!! )