quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Africano - Le Clézio



" É escrevendo que agora compreendo. Essa memória não é somente a minha. É também a memória do tempo anterior ao meu nascimento, quando meu pai e minha mãe andavam juntos pelas estradas do planalto , nos reinos do oeste de Camarões. A memória das esperanças e angústias de meu pai, de sua solidão, seu abatimento em Ogoja. A memória dos momentos de felicidade, quando eles dois estavam unidos pelo amor que acreditavam ser eterno. Iam então pela liberdade dos caminhos, e os nomes dos lugares adentraram em mim como sobrenomes, Bali, Nkom, Bamenda, Banso, Nkong-samba, Revi, Kwaja. E os nomes das terras , Mbembé, Kaka,Nsungli, Bum, Fungom. As chapadas por onde avança lentamente o rebanho de animais com chifres de lua para enganchar nas nuvens, entre Lassim e Ngonzin.
Afinal de contas, talvez meu velho sonho não me tenha enganado. Se meu pai se tornou o Africano, por força de seu destino, eu, quanto a mim, posso pensar em minha mãe africana, aquela que me beijou e nutriu no instante no qual fui concebido , no instante em que nasci.



( abrir esse livro é viajar para a África. Uma viagem bela, triste e emocionante. Belíssimo livro!)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Bonsai - Alejandro Zambra



" A primeira mentira que Julio contou a Emília foi que tinha lido Marcel Proust. Não costumava mentir sobre suas leituras, mas naquela segunda noite , quando os dois sabiam que alguma coisa estava começando entre eles , e que essa coisa , durasse o quanto durasse, ia ser importante , naquela noite Julio impostou a voz e fingiu intimidade , e disse que sim, que tinha lido Proust , aos dezessete anos, num verão, em Quintero. "



( mais uma descoberta maravilhosa! )

terça-feira, 26 de junho de 2012

Bom Dia Camaradas - Ondjaki



" Pela janela enorme entrava luz , entrava o som dos passarinhos , entrava o som da água a pingar no tanque, entrava o cheiro da manhã, entrava o barulho das botas dos guardas da casa ao lado, entrava o grito do gato porque ele ia lutar com outro gato, entrava o barulho da despensa a ser aberta pela minha mãe, entrava o som de uma buzina , entrava uma mosca gorda , entrava uma libélula que nós chamávamos de helibélula , entrava o barulho do gato que depois da luta saltava pro telheiro de zinco , entrava o som do guarda a pousar a aká porque ia se deitar , entravam assobios , entrava muita luz mas, acima de tudo, entrava o cheiro do abacateiro , o cheiro do abacateiro que estava a acordar."


( Ondjaki - o amor literário do ano. Lindo ! )

terça-feira, 5 de junho de 2012

Avó Dezanove e o segredo do soviético - Ondjaki




"Sentado na varanda, eu gostava de fazer essa brincadeira de primeiro olhar as nuvens brancas a dançarem no céu empurradas pelo vento, na escola sempre ensinaram que o vento é invisivel , e até é , mas, sem querer parecer maluco tipo o Espuma do Mar, ás vezes eu acho que, pelo modo de as nuvens voarem, quase fica possível ver de onde vem o vento e sobretudo para onde ele quer ir. O vento não deve gostar de andar sozinho, se repararem bem, porque sempre quer levantar poeira , dobrar as árvores , soprar as folhas e arrastar as nuvens para longe. O vento deve ter uma casa no tão-longe e está sempre a tentar levar as nuvens para a casa dele, mas isso é uma coisa que eu penso sozinho sem contar a ninguém, porque outras crianças podem me chamar de chanfru e os mais-velhos podem querer me dar remédios para ver se fico bom da cabeça."


"Fomos devagarinho em direção à casa do SenhorTuarles, pai da Charlita, meio a sorrir, o camarada VendedorDeGasolina fazia aquilo quase todas as manhãs, preparava uma vassoura própria ,calçava umas botas de borracha , desenrolava uma mangueira , abria a torneira e não havia água .

- Que estranho, não há água na torneira - e voltava a arrumar tudo devagarinho.

Estranhos são os mais-velhos que fazem as coisas repetidas todos os dias apesar de saberem que há coisas que não mudam. Há quantos anos não havia água naquela bomba de gasolina?"


( um dos livros mais lindos que já li. Daqueles de serem lidos e relidos pra mergulhar nas palavras  do personagem que narra a história. Lindo ! )

O Burrinho Pedrês - João Guimarães Rosa



"Galhudos, gaiolos , estrelos , espácios , combucos , cubetos, lobunos , lompardos , caldeiros , cambraias , chamurros , churriados , corombos , cornetos, bocalvos , borralhos , chumbados , chitados , vareiros, silveiros...E os tocos da testa do mocho macheado, e as armas antigas do boi cornalão..."



( tradução, priss!! )

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Quinze - Rachel de Queiroz




" Foi estranha a impressão de Vicente, acordando de madrugada, com um barulho desacostumado no telhado.
- Chuva ? Possível ?!
Meteu os pés da rede, correu ao alpendre:
- Chuva!
Chuva fresca e alegre que tamborilava cantando na velha telha, e corria nas biqueiras empoeiradas, e se embebia depressa no barro absorvente do terreiro!
Vicente, correndo ainda, foi à sala de jantar, escancarou a janela que dava para o curral.
A chuva saraivava de flanco as reses magríssimas, que se encolhiam trêmulas, erguendo olhos de assombrado espanto para o céu escuro.
E os pingos de água, batendo-lhes nos couros ressequidos, como que vazios interiormente, pareciam soar com um retumbo de tambores.
Sofregamente , o rapaz estendeu a cabeça fora da janela.
Entreabriu os lábios, recebendo no rosto, na boca, a umidade bendita que chegava.
E longamente ali ficou, sorvendo o cheiro  forte que vinha da terra, impregnado dum calor de fecundação e renovamento, deixando que se molhasse o cabelo revolto, e lhe escorresse a água fria pela gola, num batismo de esperança, a que ele deliciadamente se entregava , sentindo nas veias, mais ativo, mais alegre, o sangue subir e descer  em gólfãos irrequietos."

O Chalé da Memória - Tony Judt




" Nasci na Inglaterra, em 1948 , tarde o suficiente para o serviço militar obrigatório , encerrado anos antes, mas a tempo de conhecer os Beatles : tinha 14 anos quando eles lançaram Love Me do . Três anos depois apareceram as primeiras minissaias : eu já era  velho o bastante para apreciar suas virtudes, e jovem o bastante para tirar proveito delas. Cresci numa era de prosperidade, segurança e conforto - e, portanto, ao completar 20 anos, em 1968, me rebelei. Como tantos jovens do baby boom, eu me conformei com o meu não conformismo."

" Se as palavras entrarem em decadência , o que as substituirá? Elas são tudo o que temos."

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Mal Ronda a Terra - Tony Judt



" Na população em geral existia a crença de que a moderada distribuição de renda , eliminando extremos de riqueza e pobreza , funcionava em benefício de todos. Condorcet observou com sabedoria que "sempre sairá mais barato para o Tesouro colocar o pobre em condições de comprar milho do que baixar o preço do milho até que chegue ao alcance do pobre". Em 1960 ,essa tese se tornara uma política governamental de fato por todo o Ocidente".

" A abertura da economia chinesa e de outros países asiáticos meramente transplantou a produção industrial de regiões de altos salários para outras de baixos salários. E a China ( como muitos outros países em desenvolvimento ) não é só um país de baixos salários - é também, e acima de tudo , um país de "baixos direitos". A ausência de direitos segura os salários e isso continuará acontecendo por um bom tempo - prejudicando também os direitos dos trabalhadores nos países com os quais a China compete. O capitalismo chinês , longe de melhorar os direitos da população, contribui para  sua repressão."

Angélica - Lygia Bojunga



" Tinham dito :
_ Coisa boa que é a vida!
Ele ainda era  bem pequeno, não sabia direito como é que se vivia, andava louco para saber melhor; pensou um bocado, acabou perguntando:
_ Como é que a gente entra na vida, hem? Tem porta pra bater ? E batendo...eles  abrem?
Respoderam rindo:
_ A vida não tem porta, não. A gente nasce no céu e depois as cegonhas trazem a  gente pra terra .
Ele nunca tinha visto uma cegonha, mas mesmo assim achou a história mal contada e acabou dizendo que não acreditava. Então deram outra explicação:
_É o Papai Noel que traz a gente pra vida."

( mais um livro lindo de se ler da Lygia... )

domingo, 15 de abril de 2012

Desbiografias - Manoel de Barros

Desbiografias

Bernardo morava de luxúria com a lesma.
Não era fácil ficar a seu lado sem receber algum contexto de lesma.
Nossa linguagem não tinha função explicativa - mas só brincativa.
Tipo assim: Eu vi uma pedra emocianada de borboletas.
Ou tipo assim: A gente viu a tarde pousada na beira do rio com as suas rosadas pernas.
Era um gosto maior para nós apreciar as pernas rosadas da tarde !
A gente queria com as nossas visões afastar do bom senso o que fosse racional.
E cair no absurdo que faz a beleza da poesia : Tipo assim : Nós vimos um sapo ajoelhado /
      no próprio abandono - Isso dava melhor expressão ao abandono.
E ao sapo.
Porque a gente achava que no abandono a palavra faz fruto.
De noite o deserto era um lugar em nós.