quarta-feira, 8 de junho de 2011

Caetés - Graciliano Ramos - Mais um trechinho...

" -Uma perfeição, o rio , murmurei. Muito branco, cheio de pedras, e largo, um rio que faz gosto. É trabalho seu, d. Marta? E aqueles patinhos de celulóide dão uma graça...Que rio será esse, d. Josefa? É o Amazonas?
Elas aventuraram que talvez fosse o Jordão.
- O Jordão? É verdade, deve ser o Jordão. Onde foi que Jesus nasceu? Em Nazaré...ou em Belém...O Jordão fica por essas bandas. As senhoras sabem se ele passa por Nazaré...ou por Belém? Em todo o caso deve passar perto, o Amazonas, que doidice! É o Jordão, sem dúvida. Pois sim senhoras, um Jordão excelente.
Receberam o elogio, sérias."


"Ia neste ponto, esfregava as mãos e procurava meio de escapar-me , quando Luísa chegou à porta, em companhia de d. Engrácia, d. Priscilla e Vitorino. A Teixeira, que veio pouco depois, apontou-me com um gesto cômico:
-Por aqui, em adoração. Estava lá embaixo, no bazar, chorando com febre.Quis por força ver o presépio, tanto fez que o trouxemos. Sabe muito : a geografia da Palestina e o Evangelho.
Luísa atirou-me um olhar de desprezo, tive a impressão de que em mim havia um desmoronamento. Nada opus aos gracejos da Teixeira."

( João Valério faz- me rir... )

Caetés - Graciliano Ramos


"De repente levantei-me, fui á sala de jantar , chamei :
- Ó d. Maria José, faça o favor. A senhora sabe como se prepara uma buchada?
Ela veio, paciente, enxugando os dedos no avental:
- Sei. O senhor quer comer buchada ?
- Não. Isso é comida de selvagem. Os caetés. Depois lhe conto.
- Mas que interesse...
- É história comprida. Preciso saber como se cozinha um homem. Como é, d. Maria ?
- Um homem? Está aí! Foi o conhaque.
E voltou-me as costas.
- Espera lá criatura.Quem lhe falou em homem? Um bode , é claro, um carneiro.Tira-se o couro do bicho, esquarteja-se . Até aí eu sei.Como é o resto?
- Lava-se tudo muito bem lavado, começou a hospedeira desconfiada.
- Exatamente, numa gamela, já ouvi dizer.E viram-se as tripas pelo aveso com uma vara, também já ouvi dizer. Mas os caetés não tinham higiene.
- Como?
- Uma observação à-toa.Continue.
- É só, está pronto.
- Pronto o quê, d. Maria? A senhora não está vendo que ninguém vai comer aquilo cru?
Ela forneceu-me algumas noções, que reputei preciosas.
- Muito obrigado, d. Maria José. Vou preparar o Sardinha pela sua receita e misturo tudo com pirão de farinha de mandioca. Fica uma porcaria.
- O senhor não quer tomar uma xícara de café sem açúcar?
- Eu? pensa que estou bêbedo? Estou no meu tino perfeito. A propósito, que horas são?
- Cinco. Os outros não devem tardar.
- Cinco? Será possível? Ora veja. A arte é coisa admirável.Com a preocupação de arranjar o jantar dos índios , esqueci o meu jantar.Pois eles que esperem, não comem hoje. E traga-me o conhaque. Deus lhe pague, d. Maria.A senhora acaba de prestar um grande serviço á pátria."

( o personagem João Valério em uma de suas inspirações para escrever seu romance "Caetés"  ).

terça-feira, 7 de junho de 2011

Manuelzão e Miguilim - João Guimarães Rosa


" Mesmo assim, enquanto esteve fora, só com tio Terêz, Miguilim padeceu tanta saudade de todos e de tudo, que ás vezes nem conseguia chorar e ficava sufocado."

" Você acha que a gente devia de fazer promessa aos santos, para ficar gostando de parentes?"

"Dito, vamos ficar nós dois sempre um junto com  o outro, mesmo quando a gente crescer, toda a vida?" "Pois vamos".

"Miguilim , você é meu amigo". - "Amigo grande, feito gente grande, tio Terêz?" "É sim, Miguilim. Nós somos amigos.Você tem mais juízo do que eu..."

( alguns trechos de "Manuelzão e Miguilim"  de João Guimarães Rosa )

quinta-feira, 26 de maio de 2011

os passos do ser humano - Yasunari Kawabata

" Os passos de uma mulher que, rindo, um pouco encabulada, passam por cima de alguma coisa; os pés de um morimbundo que expira, e se endurecem depois de um movimento espasmódico; as pernas de quem monta e tem coxas magras devido à barriga do cavalo; as pernas gordas e inertes como gordura de baleia jogada no chão, mas que, às vezes, conseguem se contrair com uma força terrível; as pernas estropiadas de um mendigo que, quando chega meia-noite,se levanta de repente e as estica; as perninhas perfeitas do bebê que acaba de nascer dentre as pernas de sua mãe; os pés cansados como a vida de um assalariado que volta para casa depois do serviço; os pés que atravessam o vau de um rio e sugam, dos tornozelos ao ventre, a sensação da água cristalina; os pés em busca do amor caminhando em ângulo agudo, como as dobras marcadas pelas calças apertadas; os pés de uma adolescente intrigada, pois as pontas de seus pés até ontem eram viradas para fora, cada uma para o seu lado,mas hoje se encontram, delicadamente, sem o menor esforço; os pés de mulher despudorada que se refrescam, livres de meias , após retornarem da rua; as belas pernas no palco, que tomam o lugar da consciência da bailarina e lamentam os pecados da noite passada; os pés de um homem num café que faz seus calcanhares cantarem a canção de abandonar sua mulher; os pés que sentem a tristeza pesada e a alegria leve; os pés do desportista, do poeta, do agiota, da dama, da nadadora, da estudante. - E, sobretudo, os  pés da sua esposa."

( trecho do conto Os Passos do Ser Humano incluído no livro Contos da Palma da Mão - Yasunari Kawabata ).

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Alugo Palavras - Miguel Sanches Neto


" Amortecedores Amanda  S/A

  amor      dores
  amor  tece
  amor tece dores
 
           tece dores

 amor  tecem"

( uma das poesias mais lindas de todas do livro Alugo Palavras - Miguel Sanches Neto )

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Viagem - Graciliano Ramos


" Quando nos retiramos, seguiu-me  à porta do automóvel, despediu-se - e deu-me um beijo, que , naturalmente, retribuí. Mais tarde narrei o caso à sra. Nikolskaya, e comentei :
_ Para nós, brasileiros , essa história de um homem beijar outro é meio ridícula.
_ Aqui isso é raro, explicou-me a sra. Nikolskaya. Com o beijo, o homem quer dizer que entrega a sua alma inteiramente ao amigo."

( 6 - setembro -1952 )

" As duas  palavras me perseguiam : " Terra luminosa". Não me referia à luz que dourava as nódoas claras da pedra, jogava  cintilações no profundo azul das águas . De fato nem pensava na terra : pensava nos indivíduos, e parecia-me enxergar, além da beleza exterior, uma beleza interior. Essa luz brincava nos olhos das raparigas, na alegria serena dos velhos, no sorriso das crianças. Alterei a frase: "Almas luminosas".

( Buenos Aires - 5 - outubro- 1952 )

( trechos de Viagem -  livro póstumo de Graciliano Ramos onde relata sua viagem à antiga União Soviética, no começo da década de 1950 ).

sexta-feira, 11 de março de 2011

chá das cinco com o vampiro - Miguel Sanchez Neto

" Subi o largo da Ordem vendo jovens que se beijavam com um desespero de quem vai morrer em breve e não pode esperar. Essa paixão doída dos adolescentes me comove cada vez mais, parece que o amor só é possível nessa intensidade na adolescência, quando contamos com a morte iminente.
Depois percebemos que ela demora, que a pessoa que amávamos tanto tem pequenos defeitos, que podemos muito bem ficar um dia sem ela, e uma semana de ausência não será tão terrível assim e, de repente, passaram-se dez anos e a falta dela é uma agulha que anda pelo corpo e só nos fisga em determinados momentos e sempre em lugares diferentes."

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Água Viva - Clarice Lispector - II

" Sinto agora mesmo o coração batendo desordenadamente dentro do peito. É a reivindicação porque nas últimas frases andei pensando somente á tona de mim. Então o fundo da existência se manifesta para banhar e apagar os traços do pensamento. O mar apaga os traços das ondas na areia. Oh Deus, como estou sendo feliz. O que estraga a felicidade é o medo. Fico com medo. Mas o coração bate. O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa. A garantia única é que eu nasci. Tu és uma forma de ser eu, e eu uma fora de te ser: eis os limites de minha possibilidade.
Estou numa delícia de se morrer dela. Doce quebranto ao te falar . Mas há a espera. A espera é sentir-se voraz em relação ao futuro. Um dia disseste que me amavas. Finjo acreditar e vivo, de ontem para hoje, em amor alegre. Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo."

( Água Viva - Clarice Lispector ).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Água Viva - Clarice Lispector

" ...... eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu senti uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero para mim o menino que vi com cabelos de arcanjo correndo atrás da bola. Eu queria somente olhar. O homem olhou um instante para mim e sorriu calmo: ele sabia quanto era belo e sei que sabia que eu não o queria para mim. Sorriu porque não sentiu ameaça alguma.É que os seres excepcionais em qualquer sentido estão sujeitos a mais perigos do que o comum das pessoas. Atravessei a rua e tomei um táxi. A brisa arrepiava-me os cabelos da nuca. E eu estava tão feliz que me encolhi no canto do táxi de medo porque a felicidade dói. E isto tudo causado pela visão do homem bonito. Eu continuava a não querê-lo para mim - gosto é das pessoas um pouco feias e ao mesmo tempo harmoniosas, mas ele de certo modo dera-me muito com o sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. Tudo isso eu não entendia."

( Água Viva - Clarice Lispector )

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Hóspede Secreto - Miguel Sanches Neto

" Soltei o corpo e, esparramado no chão, comecei a chorar.
Chorei por vários minutos, como se fosse criança. Chorei tudo que eu não tinha chorado na vida. Chorei as lágrimas que engoli no enterro da mãe, chorei a saudade, sua falta.Chorei como órfão indefeso.
Não comi, não tomei banho, não assisti tevê. Embora o relógio já tenha há muito anunciado meia-noite,permaneço aqui na sala, as luzes apagadas, um sabor de sal nos lábios secos,sozinho, cansado, mas de um cansaço diferente daquele que sempre busquei.
De um cansaço para o resto da vida."

( do conto "O Bom Filho" do livro Hóspede Secreto - Miguel Sanches Neto ).